
Portugiesisch Ausgabe
Literatur
Sonetos de Antero de Quental
BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Antero de Quental
Sonetos filosóficos sobre dúvida, fé, morte, justiça e conflito moral.
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Sonetos de Antero de Quental
Os sonetos de Antero de Quental oscilam entre a dúvida metafísica, o pessimismo histórico, o desejo de justiça e a procura de clareza espiritual.
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Antero de Quental died in 1891; Sonetos de Antero de Quental was first published or performed in 1881. This entry uses the original Portuguese text.
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Sonetos de Antero de Quental
Antero de Quental
Os captivos
Antero de Quental
Encostados ás grades da prisão,
Olham o céo os palidos captivos.
Já com raios obliquos, fugitivos,
Despede o sol um ultimo clarão.
Entre sombras, no longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cae do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.
E os captivos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em intimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.
E dizem os captivos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o vôo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!
Aonde ides? qual é vossa jornada?
Á luz? á aurora? á immensidade? aonde?
Porém o bando passa e mal responde:
Á noite, á escuridão, ao abysmo, ao nada!
E os captivos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pezar secreto,
Como quem soffre e cala algum tormento.
E dizem os captivos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devezas?
Tu que procuras? que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
Porém o vento passa e só responde:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!
E os captivos suspiram novamente.
Como antigos pezares mal extinctos,
Como vagos desejos indistinctos,
Surgem do escuro os astros, lentamente.
E fitam-se, em silencio indecifravel,
Contemplam-se de longe, mysteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolavel...
E dizem os captivos: Que problemas
Eternos, primitivos vos attrahem?
Que luz fitaes no centro d'onde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?
Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada
Que soluções esplendidas se escondem?
Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!
Assim a noite passa. Rumorosos
Susurram os pinhaes meditativos,
Encostados ás grades, os captivos
Olham o céo e choram silenciosos.
Os vencidos
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
.
Os vencidos
Antero de Quental
Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.
Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.
A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com mão potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.
E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n'um soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!
Com largo vôo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
VorschaukapitelLivre, contente e bom, como os que moramVorschau
Entre os astros, na eterna primavera.
Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!
A flor rubra e olorosa da paixão
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.
Irmãos, amei
amei e fui amado...
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»
Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de tragica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.
Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças opprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.
Quando ha de vir o dia da justiça?
Quando ha de vir o dia do resgate?
Trahio-me o gladio em meio do combate
E semeei na areia movediça!
As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de purpura real.
Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa...
Por isso morro á mingoa e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, inglóriamente.»
Diz então o terceiro cavaleiro:
«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro
Invoquei-a nas horas affrontosas
Em que o mal e o peccado dão assalto.
Procurei-o, com ancia e sobresalto,
Sondando mil sciencias duvidosas.
Que vento de ruina bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrosanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céo, frios e escuros!
Vacila o sol e os santos desesperam...
Tedio reçuma a luz dos dias vãos...
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!
Irmãos, amei a Deus, com fé profunda...
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»
E os três, unindo a voz n'um ai supremo,
E deixando pender as mãos cançadas
Sobre as armas inuteis e quebradas,
N'um gesto inerte de abandono extremo,
Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidavel,
Sumiram-se na selva impenetravel
E no palor da noite silenciosa.
Entre sombras
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
.
Entre sombras
Antero de Quental
Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
A noite desce, desfolhando as rosas
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim...
Pousa de leve a delicada mão
Rescende amena a noite socegada
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração...
E diz-me essa visão compadecida
Ha suspiros no espaço vaporoso
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?
Vem commigo! Embalado nos meus braços
Na noite funda ha um silencio santo
N'um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços...
Porque eu habito a região distante
A noite exhala uma doçura infinda
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante...
Habito ali, e tu virás commigo
Palpita a noite n'um clarão que offusca
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo...
Assim me fala essa visão nocturna
No vago espaço ha vozes dolorosas
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna...
Mas eu escuto-a immovel, somnolento
A noite verte um desconsolo immenso
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento...
Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto
A noite é erma como campa enorme
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
VorschaukapitelA M. C.Vorschau
Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»
E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste n'este solo angustiado,
Estrela envolta n'um clarão sagrado,
Do teu limpido olhar na luz radiosa...
Mas eu... posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.
E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me ha dado?
Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!
A Santos Valente
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
A Santos Valente
Antero de Quental
Estreita é do prazer na vida a taça:
Largo, como o oceano é largo e fundo,
E como ele em venturas infecundo,
O cális amargoso da desgraça.
E contudo nossa alma, quando passa
incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer só pede à vida, amor fecundo,
É com essa esperança que se abraça.
É lei de Deus este aspirar imenso...
E contudo a ilusão impoz à vida.
E manda buscar luz e dá-nos treva!
Ah! se Deus acendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria... ou porque a leva?
Tormanto do Ideal
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
.
Tormanto do Ideal
Antero de Quental
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a côr, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,
Tropéço, em sombras, na materia dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as fórmas incompletas
Para sempre fiquei palido e triste.
Aspiração
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
Aspiração
Antero de Quental
Meus dias vão correndo vagarosos
Sem prazer e sem dor, e até parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gosos.
Minh'alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém do presentir dá-me a certeza.
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Se comparo poder ou ouro ou fama
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
.
Se comparo poder ou ouro ou fama
Antero de Quental
A Florido Teles
Se comparo poder ou ouro ou fama,
Venturas que em si têm occulto o damno,
Com aquele outro affecto soberano,
Que amor se diz e é luz de pura chama,
Vejo que são bem como arteira dama,
Que sob honesto riso esconde o engano,
E o que as segue, como homem leviano
Que por um vão prazer deixa quem ama.
Nasce do orgulho aquele esteril goso
E a glória d'ele é cousa fraudulenta,
Como quem na vaidade tem a palma:
Tem na paixão seu brilho mais formoso
E das paixões tambem some-o a tormenta...
Mas a glória do amor... essa vem d'alma!
Psalmo
por
Antero de Quental
Poema publicado em
Os sonetos completos de Antero de Quental
.
Psalmo
Antero de Quental
Esperemos em Deus! Ele ha tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Inhaltsverzeichnis
In dieser Ausgabe
- 01Full text
- 02Livre, contente e bom, como os que moram
- 03A M. C.
- 04A M.C.
- 05A M. C.
- 06A M. C.
- 07X VELUT UMBRA (A JOÃO DE DEUS
- 08VII EMQUANTO OUTROS COMBATEM
- 09XVI DESPONDENCY
- 10XIII DAS UNNENNBARE
- 11XII UMA AMIGA
- 12VIII A UMA MULHER
- 13SEPULTURA ROMANTICA A
- 14I
- 15II
- 16III
- 17IV
- 18VI
- 19VII
- 20VIII
- 21VI
- 22I
- 23II
- 24HOMO N
- 25DISPUTA EM FAMILIA
- 26I S
- 27II M
- 28MORS LIBERATRIX N
- 29O INCONSCIENTE O
- 30MORS-AMOR E
- 31ESTOICISMO
- 32ANIMA MEA E
- 33ESPIRITUALISMO I
- 34II D
- 35O CONVERTIDO
- 36E
- 37Á VIRGEM SANTISSIMA
- 38N
- 39QUIA ÆTERNUS (A
- 40N
- 41NO TURBILHÃO N
- 42IGNOTUS O
- 43NO CIRCO
- 44M
- 45NIRVANA P
- 46CONSULTA
- 47DIVINA COMEDIA
- 48E
- 49TRANSCENDENTALISMO
- 50J
- 51ELOGIO DA MORTE
- 52I A
- 53II N
- 54III E
- 55IV L
- 56Q
- 57VI S
- 58I
- 59II
- 60LOGOS
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