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Contrastes e Confrontos

BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Euclides da Cunha

Ensaios de Euclides da Cunha sobre Brasil, história, política, sociedade e conflitos modernos.

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Contrastes e Confrontos

Contrastes e Confrontos reúne ensaios em que Euclides da Cunha observa a formação brasileira, a política, a cultura e as tensões de seu tempo. O livro combina análise histórica, estilo vigoroso e reflexão crítica sobre o país.

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Euclides da Cunha morreu em 1909 e Contrastes e Confrontos foi publicado em 1907; estas datas sustentam o domínio público desta edição em português.

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Contrastes e Confrontos

Euclides da Cunha

Este belo título clássico cabe ao Brasil. E o que nos revela um sociólogo qualquer da Contemporary Review, um dos muitos que hoje arremetem, aforradamente, com o indefinido das questões sociais. E inglês; e o argumento essencial ressalta-lhe na resvaladura desta cinca: somos um povo sem juízo e a vitalidade germânica, em breve, nos absorverá. Registe-se-lhe a frase, onde a massuda sisudez britânica aflora o riso da alacridade ibérica: the brasilians themselves, as Dom Quixote said of Sancho Pansa, are people of "muy poca sal en la mollera».

É interessante. Para o filósofo, pintoresco no amenisar de jogralidades cogitações tão maciças, temperando o seu Hegel com Cervantes, somos decididamente um povo pródigo, doudivanas, que anda na história a esperdiçar uma herança. Impõe-se-nos a curadoria de um protetorado ou de uma conquista mansa, o carinhoso puxão de orelhas paterno com que se reaviam os pupilos inexperientes. É um caso em que o direito internacional, cujo elastério vai aumentando à medida que se dilatam as parábolas das balas, pode humanizar-se, transmudando-se no código civil proeminente das nações.

De feito, vai, ao parecer, dando demasiado nas vistas esta nossa vida fácil e perdulária, esta nossa vida à gandaia, ociosa e comodista, sobre a enorme fazenda de uns quatrocentos milhões de alqueires de terras, onde sestiamos, fartos, entre os primores de uma flora que tem tudo, desde o mais reles cereal ao líber e ao látex, para os lavores da indústria - e que nos da tudo de graça com a sua exuberância incomparável, permitindo-nos contemplar, (contemplar apenas como coisas meramente decorativas de um vasto parque de recreio), as nossas virgens bacias carboníferas, as nossas montanhas de ferro, as nossas cordilheiras de quartzito, os nossos litorais dourados pelas areias monazíticas, e o estupendo dilúvio canalizado dos nossos rios, e os cerros lastrados de ouro das grupiaras, e os pendores numerosos, onde se desatam perpetuamente as longas fitas alvinitentes da hulha branca à espera das roldanas que elas moverão um dia... Coisas que mal vemos, pisando distraídos sobre o macadame sem preço dos cascalhos diamantinos e errando nos paraísos vazios dos gerais sem fim ...

Enquanto isto acontece, a vida de outras gentes, intensíssima e a crescer, a crescer dia a dia, mais e mais se agita, constrita à força na clausura das fronteiras. De sorte que a nossa esplêndida mediocridade se lhes torna em perpétuo desafio, repruindo-lhes a riqueza torturada e a pletora de forças que, na ordem econômica, caracteriza o moderno imperialismo.

A Alemanha é o melhor exemplo. E o caso típico de um povo sob a ameaça permanente de seu mesmo progresso. Passando, com uma rapidez sem par na história, do regime agrícola em que se aplicavam, há meio século, três quartos da sua gente, para o máximo regime industrial, onde se aplicavam hoje dois terços da sua atividade - ficou duplamente adstrita a todas as exigências do expansionismo obrigatório. Para viver e para agir. De um lado, calcula-se que o seu solo, intensamente explorado, no máximo, bastará a alimentar trinta milhões de homens, e ela tem quase o dobro. De outro, cerca de metade das matérias-primas, que lhe alimentam as indústrias, vem do exterior. Está numa alternativa. Ou isolar-se num papel secundário e obscuro, procurando, na emigração pacifica, um desafogo à sua sobrecarga humana - ou expandir-se, sistematicamente conquistadora, arriscando-se às maiores lutas.

Preferiu o último caso. Não tinha por onde sair.

A atitude entonada, o recacho atrevido, as hipérboles políticas e todo o gongorismo guerreiro desse Guilherme II, de fartos bigodes repuxados e duros olhos verdes resumando cintilar de espadas, e os seus arrancos oratórios, as suas inconveniências e os seus exageros, e até as suas temeridades, todas essas coisas anômalas que, há dez anos, sobressalteiam a Europa - têm o beneplácito dos mais frios pensadores da Germânia.

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Atravessando, como dardos, à noite, os feixes de luz do refletor elétrico do morro da Glória destacavam-se no espaço, divergente e longos, fazendo surgir no giro amplíssimo - de súbito aclarados e logo desaparecendo - além, os navios de guerra numa passividade traidora; mais à frente Niterói, adormecida; a Armação, sinistra e deserta; e todas as angras, todas as angusturas, todas as ilhas, uma por uma, repontando e extinguindo-se, no volver da paisagem móvel e fantástica; distendo, a súbitas, num coruscar repentino de areias claras, a fita de uma praia remota; resvalando, logo depois, devagar, pelos pendores dos cerros; estirando-se, por fim, em distenção máxima, ate Magé, ao fundo da baía. E dali voltando, lentos, perquirindo, na marcha fulgurante, um por um todos os pontos fortificados; demorando-se um instante sobre a ilha das Cobras, e mostrando uma visão de Acrópole, meio derruída, naquela ponta de granito arremessada fora das ondas; deixando-a, e pondo uma nesga de luar errante sobre o convés revolto da Guanabara; deslizando dali para o costado arrombado da Trajano; e passando a outros pontos, banhando-os um a um no fulgor tranqüilo e forte - feito um olhar olímpico da Lei, insistente e fixo, sobre os combatentes...

Admirável quadro. Curvei-me sobre a canhoneira recém-construída. Contemplei-a e dei largas a fantasia caprichosa...

Imaginei-me, então, obscuríssimo comparsa numa dessas tragédias da antigüidade clássica, de um realismo estupendo, com os seus palcos desmedidos, sem telão e sem coberturas, com os seus bastidores de verdadeiras montanhas em que se despenhavam os heróis de Esquilo, ou o proscênio de um braço de mar, onde uma platéia de cem mil espectadores pudesse contemplar, singrantes, as frotas dos fenícios.

A ilusão é completa.

Vai para quatro meses que não fazemos outra coisa senão representar um drama da nossa história, de desenlace imprevisto e peripécias que dia a dia se complicam, neste raro cenário que nos rodeia.

A civilização, espectadora incorruptível, observa-nos, dentro de camarotes cautelosamente blindados: a França, na Arethuse veloz; a Inglaterra, entre as amuradas da Beagle veleira, cujos passeios diários fora da barra dão tanto que pensar; e a Alemanha, e os Estados Unidos, e o próprio Portugal sobre o convés pequeno da Mindello...

Aplaudem-nos?

É duvidoso. Representamos desastradamente. Baralhamos os papéis da peça que deriva num jogar de antíteses Infelizes, entre senadores armados até aos dentes, brigando como soldados, e militares platônicos bradando pela paz - diante de uma legalidade que vence pela suspensão das leis e uma constituição que estrangulam abraços demasiados apertados dos que a adoram.

Daí as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eurípedes, há um contra-regra - Sardou. Os heróis desmandam-se em bufonerias trágicas. Morrem, alguns, com um cômico terrível nesta epopéia pelo avesso. Sublimam-se e acalcanham-se. Se há por aí Aquiles, não é difícil descobrir-lhes no frêmito da voz imperativa a casquinada hilar de Trimalcião.

E a Esfinge...

Mas interrompi este desfiar de conjecturas.

Aproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmantes, porque a guarda, velando à entrada da rua, lhes permitira a passagem. Vinham à paisana. Chegaram até à borda da plataforma, onde uma lanterna clareava o estrado num raio de dois metros; e pararam.

Aproximei-me, saudando-os.

Um (reformado do Paraguai que a República retirou de um cartório de tabelião para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeito da idade, correspondeu-me britanicamente, corretíssimo e firme. O outro, murchou-lhe a mão num cumprimento frio...

À meia penumbra da claridade em bruxoleios, lobriguei um rosto imóvel, rígido e embaciado, de bronze: o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade tremenda, e a boca ligeiramente refegada num rictus indefinível - um busto de duende em relevo na imprimidura da noite, e diluindo-se no escuro feito a visão de um pesadelo.

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Entretanto, o que a miopia da crítica até hoje ainda não distinguiu, adivinhou-o sempre a alma francesa; e o legitimista, o orleanista, o bonapartista e o republicano, divergentes, ali se irmanam, enleados pelos mesmos sentimentos, escutando a ressoar para sempre naquela boca metálica o brado triunfal que rolou dos Pireneus à Rússia, e vendo na imprimadura transparente e clara daqueles ares não o regimento tão complacentemente requisitado, mas todo o grande exército ...

E que a escultura, sobretudo a escultura heróica, tem por vezes a simultaneidade representativa da pintura, de par com a sucessão rítmica da poesia ou da música. Basta-lhe para isto que se não limite a destacar um caráter dominante e especial, senão que também o harmonize com um sentimento dominante e generalizado.

Neste caso, malgrado o restrito de seus recursos e as exigências máximas de uma síntese artística, capaz de reproduzir toda a amplitude e toda a agitação de uma vida num bloco limitado e imóvel este ideal é notavelmente favorecido pelo sentimento coletivo. A mais estática das artes, se permitem o dizer, vibra então na dinâmica poderosa das paixões e a estátua, um trabalho de colaboração em que entra mais o sentimento popular do que o gênio do artista, a estátua aparece-nos viva - positivamente viva, porque é toda a existência imortal de uma época, ou de um povo, numa fase qualquer de sua história que para perpetuar-se procura um organismo de bronze.

Porque há até uma gestação para estes entes privilegiados, que renascem maiores sobre os destroços da vida objetiva e transitória. Não bastam, às vezes, séculos. Durante séculos, gerações sucessivas os modelam e refazem e aprimoram, já exagerando-lhes os atributos superiores, já corrigindo-lhes os deslizes e vão transfigurando-os nas lendas que se transmitem de lar em lar e de época em época, até que se ultime a criação profundamente humana e vasta. De sorte que, não raro, a estátua virtual, a verdadeira estátua, esta feita, restando apenas ao artista o trabalho material de um molde.

A de Anchieta, em S. Paulo, é expressivo exemplo.

Tome-se o mais bisonho artista; e ele a modelara de um lance.

Tão empolgante, tão sugestiva é a tradição popular em torno da memória do evangelizador que o seu esforço se reduzira ao trabalho reflexo de uma cópia.

Não pode errar. As linhas ideais do predestinado corrigem-lhe os desvios do buril. O elemento passivo, ali, não é a pedra ou o bronze, é o seu gênio. A alma poderosa do herói, nascente do culto de todas as almas, absorve-lhe toda a personalidade, e transfigura-o e imortaliza-o com o mais apagado reflexo da sua mesma imortalidade..

Mas há ocasiões (e aqui se nos antolha uma contraprova desta psicologia transcendental e ao parecer singularmente imaginosa) em que a estátua nasce prematura.

Falta-lhe a longa elaboração do elemento popular. Possui talvez admiráveis elementos capazes de a tornarem grande ao cabo de um longo tempo - um longo tempo em que se amorteçam as paixões e se apaguem, pelo só efeito de uma dilatada perspectiva histórica, todas as linhas secundárias de uma certa fase da existência nacional...

Mas não se aguarda esse tempo; não se respeita esse interregno, ou essa quarentena ideal, que livra as grandes vidas dos contágios perniciosos das nossas pequenas vidas; e decreta-se uma estátua, como se fosse possível decretar-se um grande homem.

Então, neste vir fora de tempo, ela é historicamente inviável.

E não há golpes de gênio que a transfigurem.

É uma estátua morta.

O grande missionário reconcilia-nos com a Companhia de Jesus.

É o seu maior milagre.

Votada em parte é antipatia de uma forte corrente de sábios e pensadores, como um elemento dispersivo na solidariedade moral dos povos, a instituição, para eles irrevogavelmente condenada, tem, na historia, na feição de José de Anchieta, talvez a sua feição mais atraente.

Inhaltsverzeichnis

In dieser Ausgabe

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16

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