Portugiesisch Ausgabe
Literatur
Luzia-Homem
BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Domingos Olímpio
Um romance regional brasileiro sobre seca, força feminina, sertão, desejo e violência social.
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Bucheinführung
Luzia-Homem
Luzia-Homem retrata o sertão cearense, a seca, a migração e a força física e moral de uma protagonista marcada pelo trabalho e pelo desejo alheio. Domingos Olímpio combina regionalismo, drama social, violência, paisagem nordestina e tensão de gênero em um clássico brasileiro.
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Domingos Olímpio died in 1906, and Luzia-Homem was first published in 1903; these dates support public-domain status for the Portuguese original.
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Luzia-Homem
Domingos Olímpio
Luzia-Homem Domingos Olímpio
O morro do Curral do Açougue emergia em suave declive da campina ondulada. Escorchado, indigente de arvoredo, o cômoro enegrecido pelo sangue de reses sem conto, deixara de ser o sítio sinistro do matadouro e a pousada predileta de bandos de urubus-tingas e camirangas vorazes. Bateram-se os vastos currais, de grossos esteios de aroeira, fincados a pique, rijos como barras de ferro, currais seculares, obra ciclópica, da qual restava apenas, como lúgubre vestígio, o moirão ligeiramente inclinado, adelgaçado no centro, polido pelo contínuo atrito das cordas de laçar as vítimas, que a ele eram arrastadas aos empuxões, bufando, resistindo, ou entregando, resignadas e mansas, o pescoço à faca do magarefe. Ali, no sítio de morte, fervilhavam, então, em ruidosa diligência, legiões de operários construindo a penitenciária de Sobral.
No cabeço saturado de sangue, nu e árido, destacando-se do perfil verde-escuro da serra Meruoca, e dominando o vale, onde repousava, reluzente ao sol, a formosa cidade intelectual, a casaria branca alinhada em ruas extensas e largas, os telhados vermelhos e as altas torres dos templos, rebrilhando em esplendores abrasados, surgia em linhas severas e fortes, o castelo da prisão, traçado pelo engenho de João Braga, massa ainda informe, áspera e escura, de muralhas sem reboco, enteadas em confusa floresta de andaimes a esgalharem e crescerem, dia a dia, numa exuberância fantástica de vegetação despida de folhas, de flores e frutos. Pela encosta de cortante piçarra, desagregado em finíssimo pó, subia e descia, em fileiras tortuosas, o formigueiro de retirantes, velhos e moços, mulheres e meninos, conduzindo materiais para a obra. Era um incessante vai e vem de figuras pitorescas, esquálidas, pacientes, recordando os heróicos povos cativos, erguendo monumentos imortais ao vencedor.
Acertara a Comissão de Socorros em substituir a esmola depressora pelo salário emulativo, pago em rações de farinha de mandioca, arroz, carne de charque, feijão e bacalhau, verdadeiras gulodices para infelizes criaturas, açoitadas pelo flagelo da seca, a calamidade estupenda e horrível que devastava o sertão combusto. Vinham de longe aqueles magotes heróicos, atravessando montanhas e planícies, por estradas ásperas, quase nus, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e palmitos amargos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacável sol incandescente.
Na construção da cadeia havia trabalho para todos. Os mais fracos, debilitados pela idade ou pelo sofrimento, carregavam areia e água; aqueles que não suportavam mais a fadiga de andar amoleciam cipós para amarradio de andaimes; outros menos escarvados amassavam cal; os moços ainda robustos, homens de rija têmpera, superiores às inclemências, sóbrios e valentes, reluziam de suor britando pedra, guindando material aos pedreiros, ou conduzindo às costas, de longe, das matas do sobpé da serra, grossos madeiros enfeitados de palmas virentes, de ramos de pereiro de um verde fresco e brilhante, em festivo contraste com o sítio ressequido e desolado. E davam conta da tarefa, suave ou rude, uns gemendo, outros cantando álacres, numa expansão de alívio, de esperança renascida, velhas canções, piedosas trovas inolvidáveis, ou contemplando com tristeza nostálgica, o céu impassível, sempre límpido e azul, deslumbrante de luz.
Esse concerto esdrúxulo de vozes humanas em cânticos e queixumes, de rugidos da matéria transformando-se aos dentes dos instrumentos, aos golpes dos martelos, de brados de comando dos mestres e feitores, essa melopéia do trabalho amargurado ou feliz, era, às vezes, interrompido por estrídulos assobios, alarido de gritos, gargalhadas rasgadas e as vaias de meninos que se esganiçavam: era uma velha alquebrada que deixara cair a trouxa de areia; um cabra alto de hirsuta cabeleira marrafenta, lambuzado de cal, que escorregara ao galgar uma desconjuntada e vacilante escada, e lançava olhares ferozes à turba que o chasqueava, era a carreira constante das moças e meninas para as quais o trabalho era um brinquedo; eram gritos de dor de um machucado, rodeado pela multidão curiosa e compassiva, ou os gemidos de algum infeliz, tombando prostrado de fadiga, pedindo pelo amor de Deus, no estertor da hora extrema, não o deixassem morrer sem confissão, sem luz, como um bicho.
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— O que mais me admira é que não se diz dela tanto assim afirmou Crapiúna pensativo, riscando com a unha do polegar a ponta do indicador. — É por ser mais velhaca que as outras... Pergunta ao Alexandre... — Que Alexandre? Aquele alvarinto que servia de apontador na obra: e passou depois para o armazém da Comissão?... Aquilo é defunto em pé. Não é qualidade de homem para um como eu. — O caso é que ele gosta dela. Estão sempre perto um do outro, ao passo que o Crapiúna velho foi posto fora, como um cachorro tinhoso, e está aqui gemendo no serviço...
E como o soldado, em cujo coração se derramara fel, ficasse a cismar, Belota afastou-se com um gracejo ferino: — Ali é ver com os olhos e comer com a testa ou lamber vidro de veneno por fora, como rato de botica. Toma o meu conselho. Não te metas com a bruxa que cheiras vara! Crapiúna não o ouviu. Contorcendo-se no martírio de onça acuada, com o coração caldeado no peito, estremecia à suspeita de um rival venturoso na disputa da cobiçada presa.
A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias no extremo passo da miséria - resíduos da torrente humana que dia e noite atravessava a rua da Vitória, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traçado ao lado esquerdo do rio Acaracul, até ao mar, Eram pedaços da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem através do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela ira de Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança, vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes rodomoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.
Luzia viera na enxurrada, marchando, lentamente, a curtas jornadas, e fora forçada a esbarrar na cidade, por já não poder conduzir a mãe doente. Do capitão Francisco Marçal, o homem mais popular da terra, tão procurado padrinho, que contratara com o vigário pagar-lhe uma quantia certa, todos os anos, por espórtulas dos batizados, obtivera, por felicidade, uma casinha velha e desaprumada, onde se aboletou com relativo conforto. A vida lhe correu bem durante seis meses. Havia trabalho e ela ganhava o suficiente para se prover quase com fartura, Mas o coração pressentia, então, com vago terror, o perigo das pretensões de Crapiúna e ela procurava, por todos os meios, evitá-lo. Seu primeiro impulso, depois que lhe ele ousara falar em termos desabridos, foi anoitecer e não amanhecer; emigrar, confundir-se nas levas de famintos em busca das praias ubertosas, com os lagos povoados de curimãs, em cardumes assombrosos, os tabuleiros irrigados por orvalho abundante, cheios de plantações, e confinando, em contraste consolador, com a planície seca e estorricada.
Além se desdobrava o grande, o soberbo mar infindo e glauco, a rugir lamentoso, despejando, envolta em rendas de espuma, a generosa esmola de peixes, moluscos e crustáceos saborosos. Com a proteção de Maria Santíssima venceria a travessia. Vinte léguas galgam-se depressa. Talvez tombasse, como os míseros, cujas ossadas alvejantes, descarnadas pelos urubus e marcarás, iam marcando o caminho das vítimas da calamidade. E a mãe, a querida mãezinha, que era o seu tudo neste mundo? Não era possível abandoná-la a cuidados estranhos, doente, quase entrevada, como estava, a deitar a alma pela boca, quando a acometia o implacável puxado. Os brincos e o cordão de ouro, que lhe dera a madrinha, vendidos aos mascates da miséria, não dariam com que pagar o transporte da pobre velha em carroças puxadas por homens atrelados dois a dois, como animais de tiro. Era esse, naquela quadra de infortúnio, o veículo das famílias abastadas, que já não possuíam cavalos e muares de carga e montaria.
VorschaukapitelPart 3Vorschau
— Você diz isto replicou Teresinha é por estarmos aqui sozinhas. Soldado relaxado... — Olha retrucou Crapiúna enfurecido Toma a bênção ao furriel que está ali na escolta. Se eu não estivesse de serviço te ensinava quem é relaxado, cachorra.... — Cachorra é tua mãe, cabra safado... A esta injúria Crapiúna cerrou os punhos, num gesto bruto de ameaça; mas , à chamada do furriel, teve de partir, dirigindo à moça uma praga obscena.
— Deixa estar que me pagarás. Esta não caiu no chão. Voltando depois para Luzia, trémula e confusa, inanida de surpresa e vergonha, acrescentou, requebrando os olhos congestionados: — Adeus, meu bem... Tenha pena de seu mulato... Me responda; faça uma fezinha para me consolar o peito, sua ingrata... Ai, ai, coração!... Luzia continuava a preparar, automaticamente, a rodilha, não ousando, erguer os olhos para o sinistro homem.
— O demônio te carregue, peste resmungou Teresinha quando Crapiúna se reuniu à escolta Tu só prestas para carregar porcaria de preso. Por estas e outras é que eu não ando de mãos abanando. Era encrespar-se para mim aquele excomungado, metia-lhe no bucho este canivete até o cabo.. . — E tinha corarem? - perguntou Luzia encarando na franzina moça e na fina lâmina da arma, que ela trazia oculta no cós da saia. — Ora, ora, ora!... Fisgava-o sem dó nem compaixão. Não me importava de ser presa, nem tenho a vida para negócio... desgraça por desgraça... Ah! minha camarada, já sofri tudo de ruim deste mundo; passei por vexames e desgostos... Só lhe contando isso por miúdo... Deixe estar que os desaforos daquele cabra miserável não caíram no chão. Paga-me mais cedo ou mais tarde, tão certo como chamar-me Teresa de Jesus...
— Ferir, matar um homem!... Seria horrível. — Qual horrível, qual nada. Já vi gente morrer à minha vista. Não foi uma nem duas criaturas. Tivera eu a sua força, não precisaria de arma: quebrava-lhe a cara safada que ficaria a panos de vinagre. Quando ele me dissesse alguma liberdade, dava-lhe tamanho tabefe... — Vamos que são quase horas de ir para a obra... Ah! nem me lembrava que hoje é dia santo. .. Esta minha cabeça...
— Olhe para mim, Luzia; mire-se no meu espelho Eu já lhe quero bem, como parente minha, por isso falo-lhe assim. Veja como estou pagando os meus pecados; veja a minha desgraça e a quanto estou sujeita... — É pena, você, uma moça branca, andar assim na vida... O céu pálido clareava, e a aurora, que irrompia, punha nas coisas o rúbido fulgor das suas pompas. Ranchos de mulheres e de meninos macilentos se endireitavam à cacimba; e, falando e rindo, os pequenos, quase nus, sacudidos por quintos de tosse rouca, levavam grandes cabaças para colherem o precioso líquido, ainda nas entranhas da terra ressequida e flagelada.
Mal restabelecida da comoção do encontro com Crapiúna, Luzia sentia-se humilhada pelos grosseiros galanteios que ele lhe dirigira sem o menor rebuço, com desabrida petulância e desenvoltura sensual, como se ela fora uma dessas desgraçadas, cujo acesso não é já resguardado pelo prestígio da virtude. Pouco atenciosa à incessante tagarelice de Teresinha, e remordida pela afronta, meditava na turra de Alexandre com o soldado, persuadida de que a defesa de Quinotinha fora o pretexto para a explosão do ódio latente. Seu coração estremecia, vacilante, à idéia de um conflito entre os dois homens, e o júbilo de sentir-se amparada por dedicação superior a todos os sacrifícios.
E flutuava nesse consolador eflúvio de reconhecimento, arrebatada à região dos sonhos, das coisas ideais, sobranceiras ao pélago da tristeza e sofrimentos humanos. Quando chegou a casa, e depôs o grande pote sobre as três garras de uma forquilha de sabiá, fincada no solo, a mãe, sentada à rede armada a um canto do quarto, gemia, à surdina, em atitude de vítima resignada ao martírio da implacável moléstia. — Sua bênção, mãezinha?
Inhaltsverzeichnis
In dieser Ausgabe
- 01Part 1
- 02Part 2
- 03Part 3
- 04Part 4
- 05Part 5
- 06Part 6
- 07Part 7
- 08Part 8
- 09Part 9
- 10Part 10
- 11Part 11
- 12Part 12
- 13Part 13
- 14Part 14
- 15Part 15
- 16Part 16
- 17Part 17
- 18Part 18
- 19Part 19
- 20Part 20
- 21Part 21
- 22Part 22
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