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Portugiesisch Ausgabe

Literatur

Os pescadores

BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Raul Brandão

Prosa portuguesa sobre o mar, comunidades piscatórias, trabalho, paisagem e vida popular.

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Os pescadores

Os pescadores reúne a atenção lírica e social de Raul Brandão às comunidades do litoral português. Esta edição portuguesa original interessa a leitores de literatura marítima, prosa moderna, cultura popular, trabalho, paisagem atlântica e memória social.

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Raul Brandão morreu em 1930 e Os pescadores foi publicado em 1923; estas datas confirmam o domínio público desta edição portuguesa original.

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Os pescadores

Raul Brandão

Raul Brandão

Os Pescadores

“O largo quadro de cor quase uniforme é húmido e salino, oca na areia molhada, escuro nos vestidos e figuras, esverdeado no rolo das ondas que espumam e o enchem de um pó ténue lá para o fundo.”

Raul Brandão

Os Pescadores

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edições

Título: Os Pescadores

Autor: Raul Brandão

Editor: Neolivros | www.neolivros.com

infoçoneolivros.com

Texto original: Paris: Aillaud, 1923; Biblioteca Nacional de Portugal

Revisão e paginação: João Carvalho

Ano da edição original: 1923

Ano de edição: 2018

Capa: Christian PARREIRA, rede em homenagem aos pescadores (CC BY-ND 2.0) — goo.gl/rrJsPW

À MEMÓRIA

MEU AVÓ, MORTO NO MAR

Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos — seis linhas — um tipo — uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar.

Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado... Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. — Eu também nunca mais a esqueci...

FOZ DO DOURO

A CANTAREIRA Abril — 1920

A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte com o rio da vila a atravessá-lo, e a rua da Cerca até ao Farol. O que está para lá não existe... Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco e pouco à vida do mar largo. E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho — a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte. O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo.

Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida.

Ali moravam alguns pescadores e marítimos, o António Luís, a Poveira, as senhoras Ferreiras, a D. Ana da Botica e as Capazorias. E, na Foz e na pensativa Leça, uma gente desaparecida com os navios de vela, os embarcadiços que iam ao Brasil em longas viagens de três meses. As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o

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iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».

Conheço ainda, tão bem como ontem, todos os cantos da casa de minha avó: as escadas com um cabo de navio a servir de corrimão, a sala da frente com dois painéis escuros nas paredes, Jesus crucificado e S. João Baptista, e o estrado onde ela e a tia Iria, todo o dia sentadas, trabalhavam nas almofadas de bilros. A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde — que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam tecendo ternura e espuma do mar... Nesta sala abriam-se duas portas, uma para os quartos interiores, e outra para o corredor onde os rapazes dormiam num armário com beliches.

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Alguns homens ajeitam-se nos bancos, outros fincam os remos nas pedras para afastarem o barco.

Mais perto, sempre mais perto, o bafo salgado... Uma lufada, uma onda, — um ah monstruoso — o clamor negro e espesso — e saímos a barra. Chego-me para o arrais, que não larga da mão a cana do leme, imóvel e atento. Mete-me medo o negrume que não tem limites de escuridão e de vida e de que me separa a espessura de uma tábua. A maré vaza. O arrais manda:

— Iça a vela.

Os homens saltam nos bancos e o pano bate no escuro.

— Óiçalóiçal..

A escota range no moitão e a grande vela triangular sobe, debate-se, enche-se de vento. A catraia mete a borda. Uma hesitação na marcha e logo nos entranhamos na agitação infinita, na noite infinita. À luz da lanterna remexem sombras indecisas.

São os homens que se deitam nos bancos ou no fundo do cavername entre os baldes, os batedoiros, e o grande cabo do mar de oitenta braças, que serve para largar o ancorote quando a barra se fecha à entrada. Só o arrais continua agarrado ao leme, de olhos fixos na agulha de marear. Chego-me mais para ele...

Água negra, respiração negra. Um frémito de vida, uma humidade que se cola à boca e às mãos, e a escuridão, mas a escuridão como um ser imenso que não distingo e de que sinto o

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contacto — um fôlego cego e vivo que remexe lá ao longe, cheio de mistério, deu — u — u desordenado e que desaba em montanhas e salpicos amargos. Vem até mim. Rodeia-me. Quase lhe vejo as mãos enormes. Escuto o negrume cheio de rumores, de vozes, de sombras movediças, que se debruçam para nós como um che... che... mais alto, mais baixo, que não cessa. Um grito parece vir de muito longe, da vida monstruosa e profunda em que me entranho. Mas já me não mete medo o mar. O lampião ilumina a cara do arrais, rude e grave, serena. E a meu lado a água escorrega no costado, chape-que-chape, sempre com o mesmo ruído monótono que adormece e embala.

É da terra que vem a luz. Um livor indeciso e depois um chuveiro.

— À chuva sangra o vento — diz o sota baixinho.

Para acolá a nódoa anda à tona da água como um olhar sem expressão: esparralha-se no céu. Mas para o largo a noite imensa que nos traga redobra de espessura: o negrume aumenta. Só no nascente a claridade se dilui em neblinas, em farrapos e névoas esparsas que flutuam. Sobem, deixam-se cair em véus moles sobre as águas. Escondem o mar. Durante um momento um fio azul estremece à superfície, e logo a cortina vaporosa se mistura à exalação das águas e cerra-se de todo. Esperem... Uma vaga, uma ondulação verde, outra ainda... Mais névoa... luz... um grande farrapo desgrenhado... O estertor não cessa, mas sente-se que a névoa se adelgaça pouco e pouco, enquanto o negrume se concentra e recua mais para longe e o ar adquire uma transparência azulada. Tenho diante de mim só matéria imponderável, cheia de frescura e de vida, donde vai sair a nova criação. O mar não se vê ainda, mas a voz vem das profundas cada vez mais alta, e adivinham-se na espessura da neblina, entre velas despedaçadas que se debatem nos ares, colunas de fantasmas que fogem na cerração dispersa. Só um, maior, teima,

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quer fixar-se, debate-se com a luz e desaparece enfim entre clamores no horizonte ilimitado. Uma paragem sufocada — luz a jorros — e o mar em ondulações verdes, cada vez mais transparentes e com reflexos metálicos.

VorschaukapitelPart 3Vorschau

A parte dos pescadores no areal difere completamente nos tipos, nos costumes e nas casas, naturalmente noutros tempos barracas de madeira construídas sobre estacas. Há quatrocentos pescadores pouco mais ou menos, e cento e trinta e dois barcos varados na praia, todos pintados de vermelho. São maceiras, de fundo chato, tripuladas por dois homens, volanteiras ou lanchas de pescada por doze homens, e barcos de sardinha, que levam cinco ou seis peças de sessenta braças cada uma, e quatro homens. As redes têm estes nomes: peças as da sardinha, volantes as da pescada. Chama-se galricho a uma espécie de nassa com que se apanha a faneca; rastão ao camaroeiro; patelo à rede que

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colhe o caranguejo ou mexoalho; e rasco à da lagosta. As redes da sardinha são do mestre, e as da pescada dos pescadores. Os quinhões dividem-se conforme o peixe.

No Agosto começa a faina do patelo, assim se chama ao mexoalho ou pilado, que se deita vivo à terra para estrume.

Junta-se no mar uma esquadra de barcos, que vêm da Póvoa, de Viana e do Caminha; junta-se na praia uma fiada de carros de todas as aldeias, próximas ou longínquas, que o transportam para o interior das terras. O areal está alastrado de patelo que remexe.

Vende-se a lanço ou a cesto, que leva cada um dois alqueires, e custa três tostões. E por toda a costa neste tempo vai a mesma agitação na apanha do sargaço.

À reentrância que forma a bacia de Âncora e que termina pelo monte da Gelfa com outro forte de Lippe arruinado, segue-se a que vai até à saliência do Montedor, com o farol que se conjuga com o de Vigo e o de Leixões. O mar escachoa em toda a vasta praia eriçada de rochedos onde incessantemente homens e mulheres apanham, secam, dobram em mantas, carregam nos carros, a dorso de jericos, ou simplesmente à cabeça, o sargaço e as algas, que, com o patelo, são o alimento e a fartura destas terras. As mulheres, de gadanho e ancinhos, de saia ensacada e perna à mostra, apanham as algas na flor das ondas ou no fundo das poças quando a maré vaza; rapam-na das pedras esverdeadas; estendem-na no areal a secar ou despejam-na nos carros enquanto os bois pastam as ervas rasteiras e amargas que crescem à beira mar, salpicadas de espuma.

Mas é de Montedor que melhor se abrange este quadro cheio de movimento e de luz, e ao mesmo tempo o panorama, azul para o norte até à Galiza, verde para o sul até Viana. Montedor é uma povoaçãozinha criada ao ar do largo com eiras de palmo e seis espigas amarelas a secar nas eiras. À paisagem imensa a cada hora muda de cor, e o mar infinito acompanha ao longe esta sinfonia maravilhosa. Se eu fosse pintor dava isto com três

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brochas cheias de tinta — uma pincelada, maior, para o mar azul que não tem fim, até à linha doirada do areal — outra para o mar verde e raso dos milharais, na larga planície que vai de Montedor até Viana, — outra enfim verde escura para o biombo recortado que cinge esta faixa desde Caminha à foz do Lima. Por fim dois ou três toques para os montes ensaboados, muito ao longe, e um outro, lilás para um ponto que tremeluz e é talvez Esposende, ou talvez não exista... Fim de tarde. É a hora em que anda errática não sei que alma extasiada, e os montes se tornam transparentes como nuvens. Até aquele morro espesso empalidece e desmaia... Mistura-se pó verde lá longe na água, e um vulcão de fogo entre nuvens torna o horizonte apoteótico.

31 de Agosto

DEIXO esta manhã Viana e os incaracterísticos pescadores da Ribeira e sigo pelo pinhal de Darque, Anhe, S. Romão de Neiva, para Esposende, com o rio à esquerda, por terras vermelhas, donde irrompem alguns tufos de pinheiros majestosos como templos. Ao longe a serra de Arga e as torres de S. Silvestre...

Inhaltsverzeichnis

In dieser Ausgabe

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16
  17. 17Part 17

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