Portugiesisch Ausgabe
Geschichte
O Monge de Cister
BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Alexandre Herculano
Romance histórico de Herculano sobre Portugal medieval, conflitos de poder, vida monástica e consciência moral.
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O Monge de Cister
O Monge de Cister integra o projeto de Alexandre Herculano de recriar literariamente a história medieval portuguesa. A narrativa combina intriga política, vida religiosa, paixões humanas e reflexão moral, aproximando o romance histórico português das grandes tradições europeias do século XIX.
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O Monge de Cister
Alexandre Herculano
De vários livros, pergaminhos, e papeis ajuntei algumas cousas antigas, que estavam já postas do parte, conjecturando, que ordenadas e vestidas de novas cores podiam tornar á praça, e não parecer mal, como arvores de outono com seu renovo.
G. Estaco, Var. Ant. Prol.
Gomo debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam, assim debaixo dos fundamentos de cada cidade grande e populosa das velhas nações da Europa jazem alastrados os ossos da cidade que precedeu a que existe. Como de pães a filhos as diversas gerações se continuam e entretecem sem divisão, semelhantes á túnica inconsutil do Christo, assim a cidade antiga se transmuda imperceptivelmente na nova cidade; e como o octogenário, na vizinhança do tumulo, não vê á roda de si, nem pae, nem irmãos, nem amigos da infância, mas filhos, mas netos, mas existências todas virentes, todas cheias de vida, e sente com amargura que o seu século já repousa em paz e espera por elle que tarda, assim o ultimo edifício da cidade que passou, quando pendido ameaça desabar, olhando â roda de si não vê nenhum daquelles que, ahi perto, campeiavam senhoris e formosos no tempo em que elle também o era. Então, quando a noite de inverno ruge tempestuosa, e a chuva sussurra nas arvores e estrepita nas torrentes, ouve-se um ruído súbito, semelhante ao bater no chão de homem de guerra que morre. É o edifício que solta o seu ultimo arranco e vai ajunctar mais uma ossada a milhares delias que jazem sob os pês da povoação recente. A obra do homem é como o homem; com a differença, porém, de que o período da renovação do género humano conta-se por annos e o da cidade por séculos: mas os annos e os séculos confundem-se e igualam-se diante da vida perpetua do Universo, vigoroso e bello, hoje, ámanhan, d'aqui, talvez, a milhares de eras, como no dia da creação.
Entre todas as cidades herdeiras do nome das suas antepassadas é a nossa Lisboa uma daquellas cujo tronco é mais antigo e cujas renovações têem sido mais frequentes. Além das mudanças que nella devia produzir a suecessão dos tempos, os terremotos, os incêndios e as guerras visitaram-na tantas vezes, que apenas lhe restam raros e quasi apagados vestígios dessas existências de larga vida, desses edifícios monumentaes que nas outras cidades da Europa contam o passado ao presente. Se quereis saber as convulsões violentas, as agonias de trances mortaes em que se tem debatido a filha dos Phenicios, embrenhae-vos no vetustissimo bairro da Alfama;
affrontae-vos com os seus becos tortuosos, sombrios, lodacentos; extraviae-vos no seu labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos, passagens, indelineaveis e enredados como meada a que se perdeu o fio. O aspecto daquelle grande vulto de casas, que parecem atiradas para ahi cegamente em lucta de gigantes, far-vos-ha crer que lá, nas vísceras dessa espécie de povoação estranha embebida no âmago de Lisboa, ha uma vida antiga, um monumento de cada epocha, de cada era, de cada década. Enganar-vos-heis, todavia. Apenas sobre um portal lereis alguma inscripção mutilada em caracteres monachaes e em português do século xiv; apenas vereis uma lapida partida onde a custo descortinareis algumas letras inclusas e disformes dos séculos XII e xiii, e difficultoso será que as bellas formas dos caracteres assentados dos latinos venham lembrar-vos que o solo que pisaes é o de um município romano. Se, ao cabo de muita lida, a boa ventura vos deparar um arco ponteagudo do puro gothico, uma verga florida do renascimento, uma volta de ferradura árabe, achá-la-heis mettid^ e aproveitada ou desaproveitada em edifício de hontem ou vê-la-heis prestes a desabar em pardieiro velho. Tudo o que haveis de encontrar são folhas rasgadas de um livro precioso e único. Depois, ajudando-vos a imaginação de artista e o faro de antiquário, muito fareis se, como os commentadores da litteratura clássica, ajunctardes com essas palavras soltas um capitulo do livro perdido. Comprazervos-heis então na vossa obra; mas, cuidando que reconstruis um pedaço de historia da arte ou dos homens, não fareis, . porventura, senão compor um fragmento de novella.
VorschaukapitelTUDO DESVENTURAVorschau
Tristeza, dor e cuydado, deixae-me : — que mais quereis ?
porventura nam sabeys, que sou já desesperado?
Cancion. de Resende— Trov de L. Henriques.
«Quando tornei a mim — proseguiu o moço cisterciense — estava em cima da cama, em um aposento dos meus paços. A primeira cousa que me lembrou foi chamar por meu pae e por minha irman. Depois recordei-me de que já nem pae nem irman tinha; caleime. Ao lado do meu leito estava um padre :
era o velho abbade que me baptisara e me ensinara a ler. EUe percebeu que tornara a mim : pôs-se em pé : eu estendi para elle as mãos : deu-me uma das suas : apertei-a entre as minhas e levei-a á boca e beijei-a : era des-
VorschaukapitelO MONGE DE CISTER — TOMO I 3Vorschau
20 o MONGE DE CISTER carnada e enrugada como devia ser a de meu pobre pae. Nem elle me dizia nada ; nem eu a elle. Eu por mim não tinha nada que dizer ;
porque o que me estava na alma não era cousa que com palavras se dissesse, aem a que com palavras se respondesse. Depois de largo tempo ouviram os meus ouvidos a minha boca perguntar : — «Que horas são?» — «Quarto de prima» — respondeu o abbade.
Com effeito, o sol começava a tingir-me a cama de todas as cores das vidraças de uma fresta que me ficava fronteira. E eu olhava para a fresta com. os olhos fitos ; parecia tranquillo ; porém cá dentro ia jim tumulto medonho. A imagem de meu pae defunto, de minha irman deshonrada, queimava-me o cérebro. Vingança! Esta palavra sentia-a soar, palpava-a, via-a escripta, affigurava-se-me convertida em effeito. Um cavalleiro estava por terra, o seu peito arquejava debaixo da minha joelheira de ferro, e um punhal me reluzia na mão erguido sobre a garganta do roubador de minha irman. Era um prazer horroroso ! . . .
Desde então para cá sempre cri que podia haver um momento de deleite no meio dos tractos do inferno.
Até ahi nem o nome, nem a imagem de Leonor me tinha passado pelo espirito. Foi o MONGE DE CISTER 21 depois disso que este nome e esta imagem me appareceram como um pensamento do céu. Rebentaram-me então dos olhos as lagrymas: as minhas mãos apertaram com anciã as mãos do abbade, e o pulso bateu-me com vigor febril. Senti que estava em um leito, em um aposento, ante a luz de Deus, entre os homens, na vida.
Disse algumas palavras ao abbade. Este sancto homem me contou então que eu passara a noite inteira em espantoso delido e que elle se encarregara de me vigiar desde a meianoite. Ponderou-me que era necessário tomar algum alimento : recusei : instou. Pedi-lhe então que me chamasse Brites. Primeiro que tudo queria falar com ella.
Brites era uma velha dona que fora minha ama e que ficara depois servindo de cuvi- Iheira de minha mãe. Quando esta falleceu era eu mui moço, e Beatriz uma criança. Meu pae encarregou-a do governo domestico, e nós habituámo-nos a tê-la em conta de segunda mãe: também ella nos amava como filhos.
Apesar de perturbado, notei com dissabor não a ver ao pé de mim.
«Mas Brites ...» — disse o abbade titubeando, e calou-se.
«Mas Brites — repliquei — devia estar juncto 22 o MONGE DE CISTER do pobre Vasco, que, segundo dizia, tanto amava. Também ella foge de mim ?»
«Não, senhor. Eu fui que não consenti que ella aqui estivesse. De que podia servir-vos a pobre dona, senão de accrescentar-vos agastamentos ao coração?»
«Bem pelo contrario ! — atalhei eu. — É a única pessoa que está aqui da minha ...» ia a dizer familia. . . lembrei-me ainda outra vez de que não a tinha. «Emíim — prosegui em tom de quem quer ser obedecido — que Brites venha cá.»
O abbade cravou em mim os olhos: parecia irresoluto e afflicto: um gesto de impaciência que me viu no rosto o resolveu. Saiu vagarosamente.
D'ahi a pouco, pareceu-me ouvir no aposento immediato a voz de Brites, que cantava:
Boa festa, saricta festa, Em que se canta latim :
De festa vestida, ás bodas, A's bodas cantando vim.
Arripiaram-se-me os cabellos. Um psío!
prolongado cortou a cantiga.
Brites entrou: o abbade ti-azia-a agarrada pelo braço. Custou-me a conhecer-lhe as feições: estava inteiramente demudada: tinha o MONGE DE CISTER 23 OS olhos esgazeados, as faces pallidas e encovadas, e por cima de tudo isto um como véu de riso convulso. O abbade olhava para ella com aspecto severo.
«Meu criado, — gritou Brites apenas me viu— mandae embora este máu homem. Tem cara de castelhano. Hoje que é o dia do vosso casamento todos devem ter cara de riso. O senhor Vasqueannes — continuou a desgraçada, chegando-se ao pé do leito e falando em voz baixa, como quem me dizia um segredo — está lá fora deitado em uma cama preta. E sabeis o mais gracioso ? Muitos padres estão ao redor da cama a falar-lhe em latim; mas bem faz elle que finge dormir e não lhes responde nada.
Inhaltsverzeichnis
In dieser Ausgabe
- 01Full text
- 02TUDO DESVENTURA
- 03O MONGE DE CISTER — TOMO I 3
- 0425 O MONGE DE CISTER
- 05A CAÇADA
- 06A FESTA DA MAIA
- 07parte por mouros forros que nos arredores
- 08O MONGE DE CISTER — TOMO 1 7
- 09parte nessas dissensões, nem que entre elle e
- 10A TAVOLAGEM DO BESTEIRO
- 11scena popular era, pelo seu trajo, homem d'ar-
- 12parte na vossa demanda em que se ventila
- 13DOCTOR MATERGALLA
- 14parte o mister de procurador traduzia-se no
- 15VILLÃOS NÓS: RUINS VÓS!
- 16O MONGE DE CISTER — TOMO I 16
- 17QUÂSI SUICIDA
- 18OU A EPOCHA DE D. JOÃO I
- 19DAVID LOPES
- 20DELLO HORIZONTE
- 21; P R Â IT^-N.
- 22FEB 9 1968
- 23UM MINISTRO
- 24O MONGE DE CISTER — TOMO II 2
- 25Ô MOMGE DE CISTER
- 26KVI
- 27Ô MEU ILLUSTRE ÂMIGO
- 28A PROCISSÃO DE CORPUS
- 29parte das mais nobres familias na grave ques-
- 30A TABOLETA DO SAPO AMARELLO
- 31FRACASSO
- 32EXPLICAÇÕES
- 33parte a parte ficou dicto.
- 34parte no contraste que ofterecia a corte do
- 35Ò MONGE DE GISTÉR 147
- 36O MONGE DE CISTER — TOMO U 11
- 37Ô MONGE DÊ CISTER 163
- 38JURAMENTO CONTRA JURAMENTO
- 39UTET ANGUIS
- 40S38 Ò MONGE DE CISTER
- 41O MONGE DE CISTER — TOMO II 16
- 42JUSTIÇA DE SUA SENHORIA
- 43* XXVII
- 44A PROPHECIA DE MESTRE GUEDELHA
- 45A BORDA DO SEPULCHRO
- 46O MONGE DE CISTER — TOMO H 20
- 47PRECITO.
- 48O MONGE DE CISTER 327
- 49Ò MOKGE DE CISTER 329
- 50CONCLUSÃO
- 51P MONGE DE CISTER 345
- 52ÂDDENDA
- 53O MONGE DE CISTER — TOMO 11 24
- 54acto solemne. O sacerdote ajudou a abrir a
- 55MOTA
- 561848.
- 57384 D MONGE DE CISTER .
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