
Portugiesisch Ausgabe
Literatur
Urupês
BooksWhale-Ausgabe auf Portugiesisch von Monteiro Lobato
Contos e retratos do interior brasileiro que tornaram Jeca Tatu uma figura literária duradoura.
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Bucheinführung
Urupês
Urupês reúne narrativas e observações sobre o mundo rural paulista, seus conflitos, costumes e contradições. Monteiro Lobato criou aqui uma imagem influente do Brasil interiorano e de seus debates sociais.
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Urupês foi publicado pela primeira vez em 1918. A publicação anterior a 1931 sustenta o domínio público do texto português original nos Estados Unidos.
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Urupês
Monteiro Lobato
Os Pharoleiros
AVIO?
Dava azo á duvida uma luz vermelha a piscar na escuridão da noite. Escuridão, não direi de breu, que não é o breu de sobejo
escuro para referir um negror daquelles. De cego de nascença
,
vá.
Ceu e mar fundia-os um só carvão, sem fresta nem pique além da pinta vermelha, que, subito, se fez amarella.
— Lá mudou de côr, é pharol.
E como era pharol a conversa recahiu sobre pharóes. Eduardo interpellou-me de chofre sobre a ideia que eu delles fazia.
— A ideia de toda a gente, ora essa!
— Quer dizer, uma ideia falsa. “Toda a gente” é um monstro com orelhas d’asno e miolos de macaco, incapaz d’uma ideia sensata sobre o que quer que seja. Tens na cabeça, respeito a pharol, uma ideia de rua, recebida do vulgo e nunca recunhada na matriz d’uma impressão pessoal. E’rro?
— Confesso-me capaz de estarrecer um auditorio de casaca, conferenciando sobre o thema: mas não affirmo que o pharol decripto se pareça com algum.
— Pois asseguro-te eu, sem menospreço do teu engenho, que tal conferencia, ouvida por um pharoleiro, poria o homem de olho parvo, a dizer como o outro: se percebo, sebo!
— Acredito. E entenderia melhor a tua séca? — retorqui abespinhado.
— E’ de crer. Já vivi uma temporada inesquecivel no pharol dos Albatrozes, e falaria de cadeira.
— Viveste em pharol! — exclamei com espanto.
— E lá fui comparsa n’uma tragedia nocturna de arrepiar cabellos. O escuro desta noite evoca-me o tremendo drama…
Estavamos ambos de bruços na amurada do “Orion”, em hora propicia ao esbagoar d’um dramalhão inedito. Esporeado na curiosidade, provoquei-o:
— Vamos ao caso, que estes negrumes clamam espectros que o povoem. E’ calamidade á Shakespeare ou á Ibsen?
— Assigna o meu drama um nome maior que o de Shakespeare…
— ???
— …a Vida, a grande mestra dos Shakespeares maiores e menores.
Eduardo começou do principio.
— O pharol é um romance. Um romance iniciado na antiguidade, com fogueiras armadas nos promontorios, para norteio das embarcações de remo, e continuado seculos em fóra até nossos possantes holophotes electricos. Emquanto subsistir no mundo o homem, o romance “Pharol” não conhecerá epilogo. Monotono como as calmarias, embrecham-se nelle, a espaços, capitulos de tragedia e loucura — gravuras pungentes de Doré quebrando a monotonia de um
diario de bordo. O caso dos Albatrozes foi um delles.
Gerebita metteu-se no pharol aos vinte e tres annos. E’ raro isso.
— Quem é Gerebita?
— Sabel-o-ás em tempo. E’ raro isso porque no geral só se mettem nas torres maritimos erados, quarentões batidos pela vida e descrentes das suas illusões. Deixar a terra na quadra verdolenga dos vinte annos é apavorante. A terra!… Nós mal damos tento da nossa profunda adaptação ao meio terreno. A sua fixidez, o variegado dos aspectos, o bulicio humano, a cidade, os campos, a mulher, as arvores… Sabem os pharoleiros melhor do que ninguem o valor dessas teias.
Enlurados num bioco de pedra, tudo quanto para nós é sensação de todos os instantes nelles é saudade ou desejo. Cessam os ouvidos de ouvir a musica da terra, rumorejo de arvoredo, vozes amigas, barulho da rua, as mil e uma notas d’uma polyphonia que nós sabemos que o é, e encantadora, unicamente quando uma segregação prolongada nos ensina a lhe conhecer o rythmo. Cessam os olhos de rever as imagens que desde a meninice lhes são habituaes. Para os ouvidos só ha ali, dia e noite, anno e anno, o marulho das vagas ás chicotadas no enrocamento da torre. Para a vista, a eterna massa que ondula, ora torva, ora azul.
Variante unica trazem-n’a as velas que passam de largo, donairosas como garças, ou os transatlanticos pennachados de fumo.
Figura tu a vida de um homem, desraigado á querencia, e assim posto, qual galé, dentro d’uma torre de pedra, grudada como
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Perdi a noção do tempo. Durou muito aquillo? Não sei dizer. Só sei que, a tantas, ouvi, escapo ao peito de Gerebita, um urro de dor, e logo em seguida uma imprecação, “desgraçado”, cujas derradeiras syllabas morreram n’um trincar de dentes atassalhando carnos. Cabrea grugulejou uns roncos que se casaram com o arquejar do peito de Gerebita. A lucta esmoreceu.
Sem palavras na bocca, cegado pela escuridão, eu só ouvia, fóra, os uivos da nortada, e ali, aquelle arquejo do vencedor exhausto,
cahido á beira do vencido. Com os olhos da imaginação eu via esse quadro, que com os da cara enxergava tanto como se tivera a cabeça envolta em velludo negro.
Não te conto os pormenores do epilogo. Obtive luz e o que vi não te conto. Não te descrevo o hediondo aspecto de Cabrea, com a carotida estralhaçada a dente, cahido n’um lago de sangue. Nem te digo o estado de Gerebita, com a cara e o peito vermelhos, a mão sangrenta com um dedo a menos, estatelado no chão sem sentidos. Nem te conto os meus transes diante daquelles corpos martyrisados, áquella hora da noite, daquella terrivel noite, negra como esta e sacudida por um vento do
inferno…
Na manhã seguinte Gerebita pousou a mão no meu hombro e disse:
— “O mar não leva daqui os corpos á praia. O mundo não precisa saber de que morreu Cabrea. Cahiu n’agua, — morte de marinheiro, e o moço é testemunha de que matei para não morrer. Foi defesa. Agora vae jurar-me
que isto ficará entre nós.
Jurei-o lealmente, tocando de leve a mão mutilada. E elle, num accesso de infinito desalento, quedou-se immovel, a olhar para o chão, murmurando insistentemente:
— “Eu bem avisei. Não me acreditaram. Agora, está ahi, está ahi, está ahi…
Nesse mesmo dia veiu buscar-me o Dunga. Mal a “Gaivota” largou, narrei-lhe a morte do pharoleiro, romanceando-a: Cabrea, louco, a despenhar-se torre abaixo e a sumir-se para sempre no seio das ondas.
Dunga, assombrado, susteve no ar os remos.
— “Pois morreu? e louco?
— “Está claro!
— “Claro lhe parece, que a mim…
— “Conhecia-o?
— “Não conhecia outra coisa. Des’que furtou a Maria Rita…
— “Que Maria Rita?
— “Pois a Maria Rita, mulher do Gerebita, então não sabe? que elle seduziu, hom’essa.
Abri a minha maior bocca e arregalei o que pude os olhos.
— “Como sabe disso?
— “E’ boa. Sei porque sei, como sei que aquella gaivota que ali vae é uma e que este mar é mar. A Maria Rila era uma morena de truz, perigosa como o demo. O tolo do Gerebita derreou-se d’amores pela bisca e lá casou. E vae ella, a songuinha, mal o homem sahia no “Puru’s”, mettia em casa ao Cabrea. E nesse jogo viveram até que um dia fugiram juntos para outra terra. O pobre do Gerebita, se não acabou de paixão, é que é teso. Mas entrou para o pharol, o que é tambem um modo de morrer p’r’o mundo. Pois bem. A bola vira, o tempo corre, e vae senão quando quem mette o Governo no pharol, em lugar do defunto Gavriel? Ao Cabrea! Ao Cabrea que tambem andava descrente da vida porque a Rita fugira com terceiro. Coisas do mundo. Agora diz-me V. S. que o homem enlouqueceu e rodou do penedo e lá o róe o peixe. Está bem. Antes assim. Que do contrario era em ponta de faca que aquillo acabaria.
Calei-me. Ha situações na vida em que as ideias embaralham de tal arte que é de bom conselho deixal-as assentarem-se de per si, como liquidos turvos. Eis como…
— … o grande Eduardo foi empulhado por um assassino vulgar!
— Perdão. O facto de se não manejarem floretes não tira áquelle pugilato o caracter de duello.
VorschaukapitelPart 3Vorschau
Aquelle jantar foi o inicio d’uma serie onde o serelepe, hoje “factotum” indispensavel, teve campo de primeira ordem para as evoluções tacticas.
O Major Bentes, entretanto, possuia uma invulnerabilidade: não ria, limitava suas expansões hilares a sorrisos ironicos. Pilheria que levava outros commensaes a se erguerem da mesa atabafando a bocca nos guardanapos, encrespava apenas os seus labios. E se não era a graça de superfina agudeza, o collector mofino desmontava sem piedade o contador.
— Isso é velho, Pontes, já n’um almanaque Laemmert de 1850 me lembra de o ter lido.
Pontes sorria com ar vencido; mas consolava-se dizendo lá por dentro, dos figados para o rim, que se não pegára aquella, outra pegaria.
Toda a sua sagacidade enfocava para o fito de descobrir o fraco do major. Cada homem tem predilecção por um certo genero de humorismo ou de chalaça. Este morre pela pilheria fescenina de frades bojudos. Aquelle pella-se pelo chiste bonacheirão da chacota germanica. Aquell’outro dá a vida pela pimenta da canalhice gauleza. O brasileiro adora a chalaça onde se põe a nu’ a burrice tamancuda de gallegos e ilhéos — o meio mais commodo que a nossa gente achou para demonstrar-se, pelo contraste, que é ella um alho de intelligencia.
Mas o Major? Porque não ria á ingleza, nem á allemã, nem á franceza, nem á brasileira? Qual o seu genero?
Um trabalho systematico de observação e uma methodica exclusão de generos já provados inefficientes, levaram Pontes a descobrir a fraqueza do rijo adversario. O major lambia as unhas por casos de inglezes e frades. Era preciso, porém, que viessem juntos. Separados negavam fogo. Exquisitices de velho. Em surgindo bifes vermelhos, de capacetes de cortiça, roupa enxadrezada, sapatões formidolosos e cachimbo, e ao lado frades redondos, namorados da pipa e amigos da polpa feminina, lá abria o major a bocca, e interrompia o serviço da mastigação, como criança a quem acenam com cocada; e quando o lance comico chegava, elle ria com gosto, abertamente, embora sem exaggero capaz de lhe transtornar o equilibrio sanguineo.
Pontes, com infinita paciencia, bancou nesse genero, e não mais sahiu dali. Augmentou o repertorio, a gradação do sal, a dóse de malicia, e bombardeou systematicamente a aorta do major com os productos da sua habil manipulação.
Quando o caso era longo, porque o narrador o florejava no intento de esconder o desfecho e realçar o effeito, o velho interessava-se vivamente e nas pausas manhosas pedia esclarecimentos ou
continuação
:
— “E o raio do bifstek?” “E dahi?” “Mister John apitou?”
Embora tardasse a gargalhada fatal, o futuro collector não desesperava, confiado no apologo da bilha que de tanto ir á fonte lá ficou.
Não era máu o calculo. Tinha a psychologia por si, e teve tambem por si a quaresma
.
Certa vez, findo o carnaval, o major reuniu os amigos em torno d’uma enorme piabanha recheiada, presente do escrivão.
O entrudo desmazorrára a alma dos commensaes, e a do amphitrião, que estava naquelle dia contente de si e do mundo, como se houvera enxergado o passarinho verde.
O cheiro vindo da cosinha, valendo por todos os aperitivos de garrafaria, punha nas caras um enternecimento estomacal.
Quando o peixe entrou scintillaram os olhos do major. Pescado fino era com elle, inda mais cozido pela Gertrudes. E naquelle brodio primára a Gertrudes n’um tempero que excedia ás raias da culinaria e se guindava ao mais puro lyrismo. Que peixe! Vatel o assignaria com a penna da impotencia molhada na tinta da inveja, disse o escrivão, sujeito lido em Brillat-Savarin e outros praxistas do paladar.
Entre goles de rica vinhaça era o peixe introduzido nos estomagos com religiosa uncção. Ninguem se atrevia a quebrar o silencio da bromatologica beatitude.
Pontes presentiu opportuno o momento da cartada. Trazia engatilhado um caso de inglez, sua mulher e dois frades barbadinhos, anecdota que elaborára á custa da melhor materia cinzenta do seu cerebro, aperfeiçoando-a constantemente em longas noites de insomnia. Já de dias a tinha de tocaia, aguardando sempre um momento em que tudo concorresse para obter della o effeito maximo.
Inhaltsverzeichnis
In dieser Ausgabe
- 01Part 1
- 02Part 2
- 03Part 3
- 04Part 4
- 05Part 5
- 06Part 6
- 07Part 7
- 08Part 8
- 09Part 9
- 10Part 10
- 11Part 11
- 12Part 12
- 13Part 13
- 14Part 14
- 15Part 15
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