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ポルトガル語 エディション

文学

Aves Migradoras

ポルトガル語 BooksWhale エディション · Fialho de Almeida

Fialho de Almeida reúne páginas de observação e reflexão, explorando ambientes, figuras e contrastes da experiência social portuguesa.

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Aves Migradoras

A escrita de Fialho de Almeida percorre pessoas, lugares e estados de espírito com atenção às diferenças que atravessam a vida quotidiana. O olhar descritivo aproxima a paisagem das relações sociais, alternando impressões, reflexão e intensidade narrativa. Este volume em português permite acompanhar uma prosa que encontra nos detalhes dos ambientes e dos comportamentos matéria para pensar a experiência humana.

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Fialho de Almeida morreu em 1911. A edição parte do original português em domínio público disponível no Project Gutenberg; esta base não abrange acréscimos editoriais nem ilustrações posteriores.

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Aves Migradoras

Fialho de Almeida

プレビュー章AVES MIGRADORASプレビュー

—Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as mãos n'uma supplica desolada. Devias ter dó d'esta fatalidade que me leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d'elle tira-me o somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás portas dos ricos. Um verão agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi morta, uns cavadores que passavam, foram levar-me a casa da minha madrasta. Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensação Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade, uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira já precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do pequenito, substractos de muitissimas aspirações. Na quinta, os trabalhadores ás vezes perguntavam-lhe:

—Queres ser amiga além do menino?

Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabeça que sim. Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente perfeito. Tinha já essa attitude desinteressada d'enthusiasmos, indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. As suas mãos davam cobiça, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura dos labios, todas as florações mysteriosas d'uma ascendencia patricia—bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e de mulher pela doçura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores das esgarçaduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expressão dos seus olhos era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.

Á enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flôr de estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo d'idéa, e a graça grave, indecifravel cambiante, da esphinge que contempla, sem desmentir jámais a prega austera da bocca. Era já, n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos, fria, correcta, com preguiças d'ataxica e relampagos de crueldade na pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a mania do bibelotage, e antegostando, como todos os homens da sua familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo testemunho das suas impressões prevaricadas, a sensibilidade reputada normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em passageiras allucinações. Indole toda de nuances, refrangida d'um sangue com predominio de soro, como uma luz coada através da sêda d'um biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste macabra dos nevrosados, cuja vida o tédio do vulgar envenena. Por seu lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raça, mercê das allianças consanguineas em que esta teimára immobilisar-se. Em cinco annos, nada restava já da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os pés enlameados, coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna de beiços rubros, dentes pequenos, com fórmas d'esculptura e sadias destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella não tinha na casa occupações definidas. Conservavam-n'a, um pouco por gratidão, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um bocado de tudo—leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolér-mór, creada de mesa e bordadora—e assim podera conservar a sua selvageria d'origem, tão familiar aos serviços da propriedade.

プレビュー章O SINEIRO DE SANTA-AGATHAプレビュー

Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa, ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia: quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora, sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?

Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda a banda.

Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e mais um velho creado que me seguia a cavallo.

Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular, desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.

Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao desastre.

Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras, n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de sino distinctamente.

—Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está chamando. Onde é, cocheiro?

O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.

—Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.

—Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa do diabo?

Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.—Ninho de demonios e malfeitores! Em trinta e tres, a guerra civil correra lá, farejando as riquezas do culto—as freiras tinham debandado pelas serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos macerados—por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios—e diz que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.

Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:

—Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem bispos!

—Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já volto!

—Mas onde é que o senhor vae?

—Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, lá longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a nossa berlinda de viagem.

目次

このエディションの内容

  1. 01Full text
  2. 02AVES MIGRADORAS
  3. 03O SINEIRO DE SANTA-AGATHA
  4. 04PEQUENO DRAMA NA ALDEIA
  5. 05A PROVINCIA
  6. 06O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER
  7. 07CORONADO
  8. 08A EMINENTE ACTRIZ

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