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ポルトガル語 エディション

文学

Numa e a Ninfa

ポルトガル語 BooksWhale エディション · Lima Barreto

Lima Barreto’s political satire of parliament, ambition, patronage, journalism, marriage, and the machinery of power.

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Numa e a Ninfa

Numa e a Ninfa satirizes the Brazilian political world through careerism, newspaper influence, personal dependence, and the private arrangements behind public speeches. Lima Barreto turns parliamentary ambition into a sharp comedy of bureaucracy, vanity, and social maneuvering.

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Lima Barreto died in 1922, and Numa e a Ninfa was first published or composed in 1915; these dates support the public-domain basis for this edition.

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Numa e a Ninfa

Lima Barreto

a Irineu Marinho

"Cette nation (l'Egypte) grave et sérieuse

プレビュー章connut d'abord la vraie de la politique,プレビュー

qui est de rendre la vie commode et les

peuples heurex"

プレビュー章BOUSSETプレビュー

O grande debate que provocara na Câmara o projeto de formação de um novo Estado na federação nacional apaixonou não só a opinião pública, mas também (é extraordinário) os profissionais da política.

Em torno do projeto, interesses de toda a ordem gravitavam. Um grande número de cargos políticos e administrativos iam ser criados; e, se bem que a passagem do projeto de lei não fosse para já, os chefes, chefetes, subchefes, ajudantes, capatazes políticos se agitavam e pediam, e desejavam, e sonhavam com este e aquele lugar para este ou aquele dos seus apaniguados.

目次

このエディションの内容

  1. 01Full text
  2. 02connut d'abord la vraie de la politique,
  3. 03BOUSSET
  4. 04De resto, além desse resultado palpável do projeto, havia nele outro alcance que só os profissionais da política entreviam. Com a criação de um novo Estado nasceria naturalmente uma nova bancada da representação nacional no Senado e na Câmara; e o partido dominante, republicano radical, temia não eleger a totalidade dela.
  5. 05Deputados houve que cortaram as relações amistosas, tão somente porque, no calor da discussão, um aparte mais veemente um deles proferira, quase sem reflexão.
  6. 06Dizia-se à boca pequena que o projeto tinha por fim acrescer a representação federal de jeito que, na próxima legislatura, tivesse o Congresso os dois terços necessários para rejeitar o "veto" ao projeto de venda de um dos mais importantes próprios nacionais. Cochichavam que tal influência receberia tanto; que tal outro já havia recebido metade da gratificação prometida; que a esposa de um diplomata também tinha interesse no negócio, além de apontarem outros padrinhos, já conhecidos por todos, como protetores de tais cambalachos.
  7. 07Dizia A Aurora : "O debate sobre a formação do Estado de Guaxupé (projeto 244-A), se outro serviço não prestou, pelo menos teve a vantagem de ter revelado ao país um poderoso orador. O sr. Numa Pompílio, até agora considerado como uma perfeita excrescência parlamentar, produziu ontem um discurso cheio de critério, em que se notam saber, elegância e propriedade de frases."
  8. 08Desceram assim os dois lentamente a rua, parando aqui e ali, gozando aos goles o licor inebriante do triunfo. Cumprimentos não faltavam. Numa era detido por este e aquele, mas, dos muitos que o cumprimentaram. um ele apreciou sobremodo. As palavras do Inácio Costa foram-lhe ao fundo d'alma. A mulher não as ouvira bem, ficara atendendo outro conhecimento e Costa passara a dizer:
  9. 09Costa e Bastos eram crentes, fanáticos com a mania de catequese de qualquer jeito e não discutiam a sua fé.
  10. 10De quando em quando, arranjava um emprego efêmero, lições e munia-se de roupa. Formou-se aos vinte e quatro anos, tendo vivido desde os dezesseis sobre si.
  11. 11Demais, pode dizer-se que nunca vira um livro. Todo o seu curso fora feito estudando nas apostilas, cadernos e pontos, organizados por outrem. Decorava aqueles períodos mastigados, triturados e os repetia palavra por palavra ao lente. Prevenia-se para a prova, imaginando as perguntas do professor, e organizava as respostas, citando autoridades de vários países.
  12. 12Vendo que nada obtinha, deixou os penates paternos e veio em busca da fortuna. Em breve tempo, graças à sua insistência junto a um dos potentados da República, Numa foi despachado promotor de uma comarca de Estado longínquo. Aos poucos, com aquele seu faro de adivinhar onde estava o vencedor - qualidade que lhe vinha não de uma sagacidade natural e própria, mas de uma ausência total de emoção, de imaginação e orgulho inteligente - foi subindo até juiz de Direito.
  13. 13Durante toda a sua passagem pela magistratura, Numa adquirira fama de talento. Fundava jornais onde escrevia panegíricos aos chefes, organizava bandas de música e animava representações teatrais em pequenos teatros de fortuna.
  14. 14Cogominho sabia que esse seu afastamento do Estado não era bem visto pelos semi-rebeldes do seu domínio. Uma vez ou outra, acusavam-no pelas rubras folhas oposicionistas de ter um imenso desprezo pelo torrão natal e só lembrar-se dele para obter vantagens políticas.
  15. 15De indústria, o juiz se mantivera até então solteiro. Esperava, com rara segurança de coração, que o casamento lhe desse o definitivo empurrão na vida. Aproveitara sempre o seu estado civil para encarreirar-se. Ora ameaçava casar com a filha de Fulano e obtinha isto; ora deixava transparecer que gostava da filha de Beltrano, e conseguia aquilo; e se estava chefe de polícia, devia ao fato de ter julgado o Coronel Flores, poderosa influência do município de Catimbao, que Numa pretendia casar-se com a filha dele.
  16. 16Com toda firmeza, com aquela firmeza que empregou para formar-se, Numa tratou de casar-se com a filha de Cogominho e não viu diante dele obstáculo algum, como aquele não vira quando tratou de casar-se com a filha do capitalista Gomes.
  17. 17Como castelã, sonhara sempre casamentos excepcionais; e, a todos que lhe insinuavam, certos rejeitava por prosaicos; e outros, por serem desproporcionados. Talvez se iludisse a si mesma; talvez já tivesse achado um que era do seu amor, mas não era de sua prudência. A castelã mais uma vez se fizera burguesinha...
  18. 18Conhecendo a fama do rapaz no Estado, a sua influência, o seu atrevimento, o seu despudor em fazer do seu cargo judicial instrumento das ambições políticas do partido e de opressão para os adversários, Cogominho percebeu bem que era melhor tê-lo por aliado, antes que se unisse a Flores quase sempre disposto a não lhe obedecer totalmente.
  19. 19Devido à celeuma que o caso levantou no Rio, houve processo e Numa, apesar das testemunhas, apesar de todas as provas, despronunciou Flores e seus sequazes.
  20. 20Como esta, eram muitas as causas em que o juiz se fizera criatura do caudilho e seu casamento com a filha deste dar-lhe-ia uma força extraordinária na política do Estado. O braço juntar-se-ia à cabeça...
  21. 21De volta do enterro de uma parenta, a mulher de Numa vinha satisfeita. Nem sempre isso acontece, mas muitas vezes se dá, apesar de nós. Não se colhem bem os motivos, as razões profundas de se ter passado de uma emoção à contrária, o certo é que se tem como que um alívio n'alma, a impressão que se diminuíram os nossos pecados; ficamos melhor diante de nós mesmos, mais de acordo com Deus e com o Mistério.
  22. 22Com preguiça e mansidão, o marido objetou:
  23. 23— É.
  24. 24Lembrava-se bem da casa, caiada, meio de telha vã, meio forrada, com um largo quintal, tendo, aqui e ali, uma árvore, um cajueiro e os urubus teimosos misturados com as aves domésticas. E agora? Habitava um palácio, no meio da abundância, ao lado de uma linda mulher bem educada, onde iria... Muito pode a formatura! Se ele não se fizesse doutor, que seria?... Bem lhe pareceu desde menino, que a carta era a chave da riqueza, uma chave mágica a abrir todas as fechaduras da vida, suavemente, docemente, rapidamente, sem o mais tênue ruído. Uma gazua...
  25. 25Lá, após o passeio, encontravam conhecidos, e, como sempre, achavam-se já sentados a uma das mesas catitas, Mme. Forfaible, esposa do general do mesmo nome, acompanhada de uma amiga, e o primo Benevenuto.
  26. 26Mme. Forfaible concluiu:
  27. 27Calaram-se e puseram-se a tomar o chá que esfriava nas xícaras.
  28. 28Voltando precipitadamente o proprietário que fora prevenido dos desvios dos seus bens, levado a efeito pelo procurador infiel, reclamou imediatamente a restituição dos haveres, sob pena de queixar-se à polícia. Fuas foi ter com o chefe de Estado que ordenou ao Tesouro fornecer-lhe os fundos necessários. Daí em diante sua fortuna estava feita e os seus processos de foliculário firmemente estabelecidos. Nunca mais lhe faltou dinheiro, e muito sempre obteve, por este ou aquele meio escuso e cínico. Apesar disto, a sua folha sempre andava em concordatas, devendo ao pessoal; o que, a todos, causava admiração, pois Fuas, ao que diziam, tinha até aí, recebido de vários governos do Brasil cerca de três mil contos. Não é de espantar, quando se considera que só da vez que em que seu viu atrapalhado com o antigo proprietário do Diário , ele conseguiu em dias, graças às ordens do Presidente da República, obter quase mil e quinhentos contos. Todo esse dinheiro que ele cavava , empregava em aparentar largueza, peitar disfarçadamente os influentes e mais depressa perdia cinqüenta contos no jogo do que pagava, dos três em atraso, um mês à reportagem. Era preciso não perder a linha...
  29. 29Conhecia todos os poderosos, os que se faziam de poderosos, os que se iam fazendo e prometiam sê-lo, e a nenhum se acanhava de pedir isto ou aquilo. À proporção que subiam, subiam os seus pedidos; e, dessa forma, quando no fastígio podia pedir-lhe o que quisesse.
  30. 30Lendo os jornais, fumando teimosamente, sem sentir a olente fragrância dos jasmins e a rua pitoresca, Fuas chegou à residência do parlamentar.
  31. 31Vasto de fato era, e as seis janelas da frente e a situação ao centro do jardim, mais amplo que os comuns, com velhas fruteiras nodosas, corrigiam de algum modo a indigência de sua arquitetura. Tinha uma certa imponência e, demais, com o fundo para a escarpa verde-negra dos contrafortes do Corcovado, o casarão ressaltava, saía, adquiria certa distinção solarenga entre as jovens e acanhadas edificações dos arredores. Não era novo; pertencera aos avós da mulher de Numa e fora edificado aí pelos meados do século passado.
  32. 32Lembrou-se de que era republicano, e seu tio, o Coronel Fortuna, amigo íntimo de Deodoro, tomou conta do seu Estado natal e ele foi feito deputado, enquanto os seus primos, concunhados, sobrinhos, aderentes e afins ocuparam outros cargos no Estado, implantaram nele o domínio dos Cogominhos de que ele se fez chefe por morte do venerando Fortuna.
  33. 33Cogominho não abandonou o casarão de Botafogo e só o deixou de habitar continuamente quando casou a filha. Assim mesmo tinha nela aposentos, mas dera para ficar em Petrópolis, onde antigamente costumava passar só três ou quatro meses.
  34. 34Dissera mesmo isso à mulher; ela, porém, lhe recomendara que não desse atenção e lhe captasse a boa vontade.
  35. 35D. Romana, a tia-avó, ficava no interior e tinha pelos velhos trastes, pelas velhas terrinas rachadas, por tudo quanto era alfaia velha ou utensílio antigo, um interesse de depositária do passado. Não deixava pôr fora um móvel bichado, um bule sem tampa, só se de todo não lhe fosse possível esconder em qualquer socavão da casa.
  36. 36D. Edgarda viu com prazer a visita de Fuas. Estava no fundo do quintal, mas de lá mesmo pode reconhecê-lo pelo automóvel. Continuou, porém, na chácara e não notou a saída do jornalista.
  37. 37Lucrécio, ou melhor: Lucrécio Barba-de-Bode, por sua alcunha, que tão intempestivamente interrompia o almoço do deputado Numa Pompílio, não era propriamente um político, mas fazia parte da política e tinha o papel de ligá-la às classes populares. Era um mulato moço, nascido por aí, carpinteiro de profissão, mas de há muito não exercia o ofício. Um conhecido, certo dia, disse-lhe que ele era bem tolo em estar trabalhando que nem um mouro; que isso de ofício não dava nada; que se metesse em política. Lucrécio julgava que esse negócio de política era para os graúdos, mas o amigo lhe afirmou que todos tinham direito a ela, estava na Constituição.
  38. 38Lucrécio tomou nota da coisa e continuou a aplainar as tábuas, de mau humor. Que diabo? Para que esse esforço, para que tanto trabalho?
  39. 39Vivia de expedientes, de pedir a este ou aquele, de arranjar proteção para tavolagens em troco de subvenções disfarçadas. Sentia necessidade de voltar ao ofício, mas estava desabituado e sempre tinha a esperança de um emprego aqui ou ali, que lhe haviam vagamente prometido. Não sendo nada, não se julgava mais operário; mesmo os de seu ofício não o procuravam e se sentia mal no meio deles. Passava os dias nas casas do congresso; conhecia-lhe os regimentos, os empregados; sabia dos boatos político e das chicanas eleitorais. Entusiasmava-se nas cisões por ofício e necessidade. Era este o Lucrécio que, ao entrar, fez com tos jovialidade:
  40. 40Ia assim o almoço já ao fim, quando a cadelinha apareceu na sala. Correu para junto da dona, com acentuados trejeitos de contentamento; festejou-a e a moça afagou-a, dizendo:
  41. 41Levantaram-se da mesa e D. Edgarda pode dizer:
  42. 42Calou-se um instante; com o dorso da mão esquerda, assentou melhor a blusa na cintura delgada e continuou a viúva mais melodiosa.
  43. 43Lembrou-se bem do fim do almoço e ficou segura de que o fim do mundo estava indefinidamente adiado.
  44. 44Desde muito que D. Ana Forfaible não visitava a sua amiga Mariquinha. Era terça-feira, dia morto para a rua do Ouvidor; os cinemas não tinham mudado de programa; ela vestiu-se e resolveu-se a ir ver a amiga. Certamente estava em casa, pensou ela; Mariquinhas é caseira, tem filhos; demais, o marido ainda é tenente e não pode andar em passeios. Não tinha muito que esperar para melhorar, pois as coisas iam mudar. Mme. Forfaible desejava ardentemente a prosperidade do marido da sua amiga. Ele era engenheiro militar, tinha um bom curso, sabia bem matemática, não podia estar a lidar com soldados, a fazer serviço de quartel. O seu lugar era ocupar uma boa comissão, dessas que os paisanos têm, esses paisanos que não sabem nada....
  45. 45Muito bem vestida, enluvada, fechou o rosto na sua importância, radiou a patente de seu marido e seguiu para a casa da amiga. Chegou.
  46. 46Mme. Foirfable perguntou:
  47. 47Costa esquecia-se muito de quem fora Frederico e de quem era o General Bentes; mas Benevenuto não lhe quis lembrar.
  48. 48Inácio Costa despediu-se e correu atrás de um amigo a quem desenrolou o manifesto para o qual pedia assinaturas.
  49. 49Continuou a caminhar, fatigou-se, não quis entrar em café conhecido. Procurou um fora da Avenida e da rua do Ouvidor. Comprou um jornal da tarde onde nada leu de novo. Era de maravilhar isto, pois corriam tantos boatos, tantas versões, havia tanta ansiedade, como as folhas não se apressavam em dizer alguma coisa? Calavam-se; calavam-se como se tivessem medo de despertar o monstro que dormitava.
  50. 50Lucrécio cumprimentou Benevenuto e seguiu com os companheiros em direitura ao largo de São Francisco. Anoitecia e o largo tinha um maior movimento. Os sinos da igreja soavam Angelus ; soavam quase sem ser ouvidos pelos transeuntes apressados, correndo atrás desse ou daquele bonde. A igreja, porém, continuava imóvel, a anunciar, como fazia há séculos e tanto, as Ave-Marias. Barba-deBode lembrou-se de ir para casa, jantar e voltar. Uma força estranha o prendia no centro da cidade. Não se cansava de andar deste para aquele ponto, de subir e descer as escadas da Câmara e dos escritórios, de estar de pé horas e horas; fatigava-se da monotonia do interior, do sossego da sua rua pobre, sem bonde, sem trânsito algum, povoada à tarde pelos brincos das crianças da vizinhança.
  51. 51Lucrécio olhou o relógio e despediu-se dos companheiros. Não gostava daquela hora ali no largo, preferia-a na Avenida, onde sempre encontrava um conhecido ou outro que lhe oferecia de beber. De resto, precisava saber o "bicho" que dera no jogo noturno; e não convinha, se tivesse ganho, que os outros soubessem. Passou em uma casa de "bookmaker" e verificou. Tinha ganho no grupo. Eram vinte mil réis. Poderia levar alguma coisa para casa. De que servia? Tinha tanta dívida... O melhor era aproveitar a "sorte", a "maré". Jantaria primeiro e depois arriscaria o restante. Tomou uma "abrideira", um cálice de cachaça; e procurou um hotel onde jantou vagarosamente, e com apetite. Acabado o jantar, adquiriu um charuto barato e deu umas voltas e, dentro em pouco, arriscava as sobras no jogo. Houve alternativas de ganho e de perda. Por fim ganhou, e, à uma hora, estava em casa.
  52. 52Lucrécio morava na Cidade Nova, naquela triste parte da cidade, de longas ruas quase retas, com uma edificação muito igual de velhas casas de rótula, porta e janela, antigo charco, aterrado com detritos e sedimentos dos morros que a comprimem, bairro quase no coração da cidade, curioso por mais de um aspecto.
  53. 53Muito baixo e comprimido entre as vertentes e contrafortes de Santa Teresa e a cinta de colinas graníticas - Providência, Pinto, Nheco - ainda hoje as chuvas copiosas do estio teimam em encontrar depósito naquela bacia, transformam as vias públicas em regatos barrentos, saltam dos leitos das ruas, invadem, por vezes, as casas; os móveis bóiam e saem pelas janelas ainda boiando, para se perderem no mar, ou irem ao acaso encontrar outros donos.
  54. 54Irregular como é o Rio, não se pode dizer que fique bem ao centro da cidade; é, porém, ponto obrigado de passagem para a Tijuca e adjacências, S. Cristóvão e subúrbios.
  55. 55Como em todas as partes, em todas as épocas em todos os países, em todas as raças, embora se dê, às vezes, o contrário, sendo mesmo condição vital à existência e progresso das sociedades - os inferiores se apropriam e imitam os ademanes, a linguagem, o vestuário, as concepções de honra e família dos superiores. Toda invenção social é criação de um indivíduo e grupo particular propagado por imitação a outros indivíduos e grupos; e, quem disso não tem que se amofinar com os bailes da Cidade Nova ou fazer acreditar que sejam batuques ou sambas, que lá os há como em todos os bairros. É exceção.
  56. 56De manhã, quando Lucrécio saiu do quarto, toda a família já estava de pé. A irmã lavava ao tanque, no quintal; a mulher já varrera a casa e preparava o almoço e o filho fora em busca do O Talismã , famoso jornal de palpites do "bicho", em que toda a casa tinha fé. Não havia dia que não o comprassem e bem duas horas levavam a decifrá-lo, a estudá-lo, para afinal jogarem aquelas pobres mulheres um cruzado, se tanto.
  57. 57Lucrécio, depois de banhar-se, pediu à mulher que lhe desse de almoçar; queria sair cedo.
  58. 58Lucrécio ergue-se, com os olhos fora das órbitas, rilhando os dentes e expectorou:
  59. 59Desvencilhou-se da mulher; ela, porém, ainda o deteve na sala de visitas, quase chorando.
  60. 60Com as melhores disposições para o trabalho honesto, imigrou, foi para uma colônia, derrubou o mato do lote que lhe deram, construiu uma palhoça; e, aos poucos, uma casa de madeira ao jeito das "isbas" russas.
  61. 61Desprezando as amargas profecias do intérprete da colônia, pôs-se o imigrante a trabalhar na terra com decisão. Plantou milho e fez uma horta em que semeou couves, nabos, repolhos.
  62. 62De fato, veio o milho rapidamente, mas as espigas, quando foram colhidas, estavam meio roídas pelas lagartas; a horta deu mais resultado; a "rosca" e piolho, porém, estragaram grande parte dos canteiros.
  63. 63Durante muito tempo, a fortuna do Brasil veio do pau de tinturaria que lhe deu o nome, depois do açúcar, depois do ouro e dos diamantes; alguns desses produtos, por isso ou por aquilo, aos poucos foram perdendo o valor ou, quando não, deixaram de ser encontrados em abundância remuneradora.
  64. 64Mais tarde vieram o café e a borracha, produtos ambos que, por concorrência, quanto ao primeiro, e também, quanto ao segundo, pelo adiantamento das indústrias químicas, estão à mercê de desvalorização repentina. Viu bem isso tudo.
  65. 65Viam-se criadas a lavar, homens em trajes de banho, casais que almoçavam - todas essas cenas familiares iam sendo desvendadas pelo elétrico que rodava devagar, quase roçando as bordas do velho aqueduto do conde de Bobadela.
  66. 66Contudo, no instante, a sua meditação se resumiu em sentir a inanidade das nossas criações e teve a imensa visão do inútil dos nossos esforços para o bem e para o mal.
  67. 67Macieira tinha nas Palmeiras a posição que seu pai em tinha Sepotuba e admirava-se que a sua família consentisse naquela partida, em vésperas de grandes acontecimentos políticos. Bentes já declarara pelos jornais que era candidato, deixando até o ministério. Xisto, o outro ministro que era candidato oficial, resignara a candidatura; e, pelo que diziam, tratava de aderir a Bentes, como estava fazendo toda a gente, oposicionistas e governistas. Não julgava de bom alvitre Macieira abandonar o Centro e deixar que Bentes fosse cercado pelos seus adversários. Não lhe diria nada. Que tinha com isso? Seu pai já devia ter tomado as precauções necessárias e era o bastante. Quanto ao marido, ela estava sossegada, pois o seu pai saberia escorá-lo. O terremoto não chegaria a abalá-lo; e ele, até ali tão assustado, vivia tranqüilo e sem medo algum. Ainda agora, pouco antes de sair, tivera ocasião de verificar. Vestia-se quando ouviu que a chamavam:
  68. 68Compôs-se um pouco, escondeu entre as rendas da camisa as suas firmes espáduas, e foi ver o marido no aposento aproximo.
  69. 69Disse-lhe, e Numa continuou tranqüilamente a estudar o discurso que devia pronunciar brevemente. A mulher ainda se demorou um pouco a ouvi-lo, a apreciar o seu minucioso estudo da peça, que ele recitava, quase de cor, com a sua voz, às vezes áspera, mas volumosa, articulando nitidamente as palavras.
  70. 70Desceu a pequena escada e veio abrir o portão que dava para a rua.
  71. 71Via-o já formado, colocado, casado, subindo e compreendeu então a natureza de seu amor e a razão de sua complacência.
  72. 72D. Celeste, após uma pausa, refletiu:
  73. 73D. Alice, a mãe do senador, vinha entrando, ereta, alta, lembrando ainda o gesto senhorial e distinto, o donaire que devia ter em moça. As massagens não conseguiam disfarçar as rugas da velhice, mas as pinturas davam aos cabelos o vivo negror natural.
  74. 74Contudo, havia nos olhos alguma coisa de moço; um certo calor, uns fortes reflexos luminosos que aqueciam a sua fisionomia que nevava. Ainda era uma bela velha, cheia de naturalidade, de gestos e encanto de maneiras.
  75. 75Depois dos cumprimentos, D. Edgarda perguntou à velha D. Alice:
  76. 76D. Edgarda já estava no bonde que parou um pouco adiante para dar entrada a um senhor alto que todos os passageiros cumprimentaram. O senador Carlos Gerpes entrou no veículo com agilidade e desempeno. Olhou com aquele seu fino olhar os circunstantes, olhar sempre para a frente, de quem beira precipícios. Não tardou em dar com Edgarda e veio colocar-se num banco, adiante, de modo que lhe pudesse falar.
  77. 77D. Edgarda explicou melhor por que não tinha ido ver a famosa atriz:
  78. 78Casas há ainda mais favoráveis aos que amam fora da lei; são as que tem duas ou mais entradas para ruas diferentes. Essas, porém, só são achadas nas ruas centrais, onde o temor de encontrar conhecidos não permite que os apaixonados prudentes as procurem.
  79. 79Contudo, os mais afoitos e menos cautelosos não as desprezam; e, das ruas centrais, escolhem aquelas mais compridas, as que se alongam até o Campo de Santana, em cujas proximidades, então, armam seus ninhos amorosos.
  80. 80— É.
  81. 81Casada, um pouco das suas idéias de menina e de moça evoluiu; se os desejos de notoriedade do marido, não se foram também, é porque neles havia muito de seu amor próprio pessoal e o seu casamento fora determinado por esse mesmo sentimento.
  82. 82De volta de Sepotuba, esquecida ou já não tão dominada pelas suas primeiras concepções, acolheu o primo com grande efusão, admirou-o, apagando toda a ponta de diabolismo que encontrava nele e amaram-se sem saber como, sem determinar o começo, ora parecendo amor antigo, ora um recente capricho.
  83. 83Mas, para isso devem exagerar, exagerar tudo, o prestígio que têm.
  84. 84Com os novos governantes, o pavor do começo transformou-se em uma falsa alegria de encomenda. Os jornais pululavam; nasciam e morriam, com a publicação do retrato do herói; os ágapes, os banquetes eram diariamente anunciados, telegramas e cartas congratulatórias eram publicadas, e poliantéias e biografias. Pelino Guedes fazia discípulos e eram legião. Todos riam-se, mas riam falso. Um riso de prostitutas em orgia sesquipedal. Houve a indústria das manifestações e Lucrécio aproveitou muito com ela, enquanto os seus serviços não eram encaminhados mais eficazmente. Havia necessidade de fazer crer que o povo, que a opinião desejava ardentemente a emissão do Messias nas rédeas do Estado, e o povo faz-se, graças à necessidade, graças à ilusão do Estado e à simplicidade dos esmagados.
  85. 85Lucrécio não ouvia a mulher, mas estremecia com a lembrança dela e fazia fugir a má profecia com argumentos tirados dos jornais da situação. O russo não se entusiasmava; vivia e por viver foi que prometeu ir à manifestação que se fazia a Neves Cogominho naquela noite.
  86. 86Inácio Costa, com quem travara conhecimento, era presidente da comissão e dissera:
  87. 87Desde menino, sentira bem que era preciso não perder de vida a submissão aos grandes do dia, adquirir distinções rápidas, formaturas, cargos, títulos, de forma a ir se extremando bem etiquetado, doutor, sócio de qualquer instituto, acadêmico ou coisa que o valha, da massa anônima.
  88. 88De resto, ganhara corpo, o ventre lhe crescera e junte-se tudo isso ao masolucos, para se ver como ele era impróprio para montar a cavalo e repetir aquela proeza cinegética. Quitério, que tivera notícias dela, não a esquecera no seu artigo e foi a paridade encontrada por ele muito gabada pelos entendidos em psicologia, filosofia, semântica e escrituração por partidas dobradas.
  89. 89Lá estava também o J. F. Brochado, um curioso tipo de político, como quase todos os da sua raça, seco d'alma, mas, como pouco deles, agitado a fazer praça de honesto, tendo sempre uma cauda de bajuladores, ariturários, engenheiros e carimbadores, conforme fosse o momento, a ocasião, a vaga, sem atender a saber ou o que quer que fosse.
  90. 90Costale, o Xandu - como era conhecido entre os políticos - julgava-se ianque e isto por dois motivos: por falar muito depressa e usar o bigode raspado, moda que pode ser romana ou napoleônica.
  91. 91Desde muito que o casarão do velho Gomes não era aberto assim de par em par e não recebia tanta gente. Neves sempre fora parco em recepções e não gostava das grandes, em que uma multidão se move em suas salas, quase sempre de desconhecidos. Sua tia, D. Romana, gostava desse aspecto da vida familiar e tinha a simplicidade roceira de receber quem quer que fosse prazenteiramente.
  92. 92Mme. Costale, esposa do Xandu, aventou por aí:
  93. 93Com a resignação do presidente, houve grande mudança nos altos cargos políticos; essa mudança, porém, não se deu imediatamente. O substituto, temendo não satisfazer todos os seus amigos, insistira para que os antigos detentores ficassem. Poucos aceitaram e assim mesmo interinamente, para não criar tropeços ao novo governo. Davam-se vagas e era uma dificuldade preenchê-las. Acontecia que nem sempre o candidato de Bastos era de Bentes; e, às vezes, o de Bastos era inimigo de Bentes e o de Bentes era inimigo de Bastos, coisa vulgar. Um único obteve a concomitância dos dois poderosos padrinhos, fora Xandu, que estava à espera do antigo deixar a pasta para ocupá-la. Quanto à de chefe da polícia, o novo executivo reservara a nomeação para si. Escolheu entre os seus amigos um velho compadre roceiro, arruinado, que precisava dos proventos do cargo para resgatar hipotecas. Era o Dr. José Dias Chaveco, mais conhecido por Juca Chaveco que, naquele instante, expunha a Bogoloff as suas doutrinas policiais.
  94. 94Inácio Costa, suando, lenço ao pescoço, fungando o seu teimoso defluxo, vinha à frente, berrando, agitando o chapéu, bem junto de Canto Ribeiro, celebridade dos "meetings" e manifestações, tipo da cidade, renitente orador, cuja oratória consistia em berrar as mais gastas chapas do Orador Popular . Era também empreiteiro de manifestações, e, como todo o empreiteiro que se preza, tinha o seu pessoal adestrado. Além de um núcleo forte de bravos, possuía a seu serviço moços limpos; estudantes, pequenos empregados, aspirantes a empregos - gente iludida com promessas de lugares e promoções.
  95. 95Vendo essa gente miserável, degradada física e moralmente, tão contentes com a política, parecia que ela não tinha por fim fazer os povos felizes...
  96. 96Inácio Costa tomou a palavra, e, em nome da comissão organizadora, disse:
  97. 97Canto Ribeiro berrou fortemente — Apoiado! Inácio Costa continuou com entusiasmo:
  98. 98Depois desta manifestação do seu saber matemático, o futuro chefe da seção precipitou o seu discurso, rematou-o, dizendo:
  99. 99Canto Ribeiro e Inácio Costa, vendo que a coisa podia degenerar em conflito, pois já havia uma disputa em um canto, gritaram:
  100. 100Lucrécio deitou sobre o poderoso político um súplice olhar de desgosto e Macieira não achou mau dar uma demonstração de tolerante bondade pelos humildes. Disse com bonomia:
  101. 101Chaveco consertou melhor o busto e indagou convictamente:
  102. 102D. Romana voltou com o embrulho; Chaveco agradeceu, levantou-se, despediu-se e disse para Bogoloff:
  103. 103Logo que o russo entrou e o chefe também, o motorista perguntou-lhe o destino do carro:
  104. 104Com o auxílio do intérprete, Bogoloff pode responder:
  105. 105Logo que Bogoloff percebeu o sentido, ficou indignado e disse:
  106. 106Disse-lhe o russo então que não era, nem nunca tinha sido, mas o homem não acreditou e insistiu:
  107. 107Mostrou Bogoloff os documentos; e, afinal, depois de muita hesitação por parte da autoridade pode pisar a terra onde viera procurar liberdade e sossego, mais que fortuna e felicidade.
  108. 108Lembrou-se ainda Bogoloff das dificuldades do seu desembarque... A lembrança se esbatia no tempo; as suas linhas tinham perdido a nitidez... Como estava longe! Olhou o céu. A lua se mostrava por entre os flocos de nuvens que corriam doidas. A cidade dormia tranqüila, serena, satisfeita e a vontade dele era de que ela continuasse a dormir assim pelos séculos em fora...
  109. 109Xandu era rico e tinha, como todos, a sua vaidade. A dele era julgar-se com o estofo de grande ministro e o seu erro vinha em supor que o seria fecundo em obras, por espalhar decretos a mancheias. Pretendia fazer isto e aquilo; apanhava inspiração na boca de parentes, de amigos e punha toda a sua esperança na legislação. Não há dúvida que ela pode influir; ele exagerava, porém, o seu alcance e os seus resultados. Feito ministro, o seu primeiro trabalho foi instalar luxuosamente a sua secretaria e gabinete; cortinados, sanefas, mobílias, bustos, quadros - tudo ele colocou do maior luxo. Em seguida, espalhou o seu retrato e biografia pelos jornais e revistas, especialmente por essas pequenas revistas pouco conhecidas e lidas.
  110. 110Moravam ainda na mesma casa da Cidade Nova e era hábito almoçarem juntos antes que as outras pessoas da família o fizessem. Tendo de onde tirar o dinheiro, o primeiro cuidado de Lucrécio foi por o filho na escola e o pequeno raramente o via nos dias úteis da semana. O serviço do pai não era marcado. Aparecia na polícia e demorava-se por lá, à espera que houvesse um "meeting", um discurso subversivo na Câmara, para perturbar as aclamações espontâneas e desinteressadas. A mulher e a irmã continuavam a temer semelhante espécie de emprego; Lucrécio, porém, as sossegava dizendo:
  111. 111Campelo juntara-se-lhe desde muito e Totonho punha muita esperança na estrela do doutor. De resto, este era delicado, acessível, apertava a mão de toda a gente, vestia-se bem, supondo-se até bonito; e com tantas qualidades não podia deixar de ir longe.
  112. 112Lucrécio não sentia absolutamente pesada a hospedagem do russo; queria, porém, que a sua educação e instrução tivessem outro âmbito. Respeitava o saber do moscovita e sentia a sua alvura e os seus cabelos louros deslocados ali.
  113. 113Inácio da Costa parecia não dormir. A toda hora do dia e da noite, era encontrado na rua, falando e gesticulando em grupos, discutindo nos bondes, lendo jornais, nos cafés, visitando redações. A todos, prometia um governo de Salento e ameaçava com excomunhão os prudentes duvidosos. Com o seu fraque abanando, o seu coco, fungando com força, pondo em relevo as rugas do rosto, o Inácio não se cansava de dizer que a sã política é filha da moral e da razão.
  114. 114Lucrécio e Bogoloff logo o encontraram na primeira esquina, pouco depois de saltarem do bonde. Estava limpo, banhado e o seu olhar era jubiloso e esperançado.
  115. 115Macieira temia muito que o sucesso presidencial não lhe fosse favorável e dar-se-ia isto se caísse em Xisto. Logo que ela assim se anunciou, ajudou a fazer cautelosas insinuações no ânimo de Bentes e viu com prazer tomar outro curso os acontecimentos. Por isso, tinha no interregno que se seguiu à resignação do presidente grande influência e preponderância;
  116. 116Das dores de tantos milhões de seres, das suas agruras, dos seus padecimentos, da sua morte, só aquelas unidas e mudas águas guardavam memória, e só elas evocavam o drama de que foram palco.
  117. 117Lucrécio, julgando o companheiro triste com o resultado da expedição tratou de consolá-lo.
  118. 118Lucrécio falou-lhe ao ouvido:
  119. 119Dizia-se mesmo que a tal francesa tinha um grande ascendente sobe o ânimo de Macieira e influía decisivamente no curso dos vastos negócios encaminhados nas repartições públicas. Os homens de concessão, os agentes de casas poderosas sabiam dessa influência da "francesa" e tratavam de obter as suas boas graças mediante porcentagens grandiosas. Fuas Bandeiras conhecia-a, fazia-lhe ofertas de valor e contava-se que Campelo sempre a interessava nos seus reconhecimentos mal sucedidos.
  120. 120Murmuravam nas confeitarias uma curiosa história de que a "francesa" fora eixo. Já vivia em "collage" com Macieira, nesse tempo deputado, fraco de recursos, mal podendo sustentar as duas casas com o subsídio. O seu fraco era jogar pôquer e, nas rodas de pôquer, conhecera Fuas Bandeira, com quem travara amizade. Os dois aos poucos, firmaram relações solidamente e jogavam clandestinamente de parceirada. Um belo dia, o amigo dissera-lhe:
  121. 121Macieira prosperou e foi fazendo a sua carreira na política e nos arredores da política: gorjetas em concessões, advocacias duvidosas e o mais semelhante. Essa pequena anedota poucos conhecem, mas a sua ligação era quase pública.
  122. 122Macieira era insinuante, jeitoso, tenaz e prestativo e, com a patrulha avançada de Arlete, conseguia tirar da política o que esta não devia dar.
  123. 123Morava no Flamengo e tinha uma casa principesca e risonha, que saltava de um jardim bem tosado, olhando Jurujuba do outro lado. Recebia, dava pequenas festas, jogava-se em sua casa e muita moça de boa família teve desejos de lhe ver as salas.
  124. 124Macieira a tinha deixado naquela manhã, sem mesmo almoçar, quando ela foi interrompida na leitura de uma brochura francesa. Anunciaram-lhe a visita de uma senhora. Foi vê-la e logo gostou daquela senhora bem apessoada, elegante, com uns sedutores olhos negros, moça ainda, que ficara de pé com tanto donaire. A visita também gostou daquela velha francesa que se movia na sua sala com tanto esquecimento de que era dela mesmo.
  125. 125Lucrécio Barba-de-Bode sabia perfeitamente do valimento dessa dama no ânimo de vários políticos, mas não quis incomodá-la, visto poder pedir diretamente a Macieira . O senador não gostaria que o fizesse e ele, cuidadoso em manter a boa vontade dos enfastiados, não os contrariava nessas pequenas coisas de temperamento.
  126. 126Como Lucrécio não pudesse ir ao dia seguinte à casa de Macieira, Bogoloff foi só. Lucrécio tinha passado toda a noite, com outros de sua dedicação a impedir que fossem afixados pelas esquinas da cidade, boletins em que se diziam duras verdades sobre Bentes; e, tendo falado a respeito com Macieira, o russo podia procurá-lo sem susto.
  127. 127Macieira não lhe respondeu logo. Levantou-se da cadeira e respirou com força como se desde muito a preocupação não o deixasse respirar. Era alto e pesado de corpo, tendo uma cabeça redonda e os cabelos embranqueciam devagar. Foi até a janela, atirou fora a ponta do charuto e respondeu:
  128. 128Xandu continuava a olhar embevecido o russo admirável; e este aduziu com toda convicção.
  129. 129Xandu mudou de posição, recostou-se na cadeira; e, brincando com o monóculo, disse:
  130. 130Xandu esteve a pensar, a considerar o tempo perdido, olhou o russo insistentemente por detrás do monóculo e disse:
  131. 131Dentro de dias Gregory Petrovich Bologoff era nomeado diretor da Pecuária Nacional.
  132. 132Com o ascendente dos diplomatas, nesse instante aliados aos guerreiros, Bentes ganhava prestígio e parecia ir ser o executor do pensamento de ambos os grupos. Há, porém, entre os militares uma corrente mais forte que a daqueles que querem um exército adestrado, automático, garboso e eficiente; é a dos políticos. Não que eles sejam eleitores ou deputados; o que eles são é crentes nas virtudes excepcionais da farda para o governo e para a administração. A farda, a longa e pesada tradição que representa e evoca promete muito a todos que a vestem; e os militares não pesam os meios de que dispõem para realizar esse muito que lhe és prometido. Para eles, o uniforme dá qualidades especiais; todos são honestos, todos são clarividentes, todos são enérgicos. A tradição de Floriano, sempre mal analisada e sempre falseada em grandeza e poder, muito concorre para isso e faz repercutir no povo a concepção quarteleira.
  133. 133Com uma docilidade espantosa, foi ao encontro das sugestões e as acatava. Um jornal, pela pena de seu cronista militar, por ocasião de um revista, disse que Bentes, a cavalo, pequeno busto, era bem um qualquer general japonês. Bentes gostou da lembrança, e como esse general tivesse o vício do havana que não largava da boca, esforçou-se ele também por não largá-lo dali em diante.
  134. 134Depois, passado o espanto, houve a irritação causada com aquela súbita fortuna. A opinião só as admite assim, as de dinheiro; ,mas as outras, que ela está habituada a ver obtidas lentamente, passo a passo, quando o são de outra forma, chocam e ferem as noções que o consenso geral já tem firmes no espírito.
  135. 135Lucrécio tinha nas faces o temor estampado e, de vez em quando, olhava os lados cautelosamente.
  136. 136Lucrécio sentou-se e contou os pormenores da execução popular. Zeca era antigo aprendiz de marceneiro. Alistara-se no bando de Totonho, fizera diversas desordens e mesmo mortes. Tinha andado sossegado um pouco, devido à polícia; ultimamente, porém, voltara mais terrível. Extorquia dinheiro a todos do bairro, de revólver em punho, especialmente dos negociantes, gostando também de fazê-lo alta noite aos jogadores felizes. As queixas eram muitas, a polícia o prendia, mas sempre o Dr. Campelo ou Totonho soltavam-no. Naquela noite, no largo do Machado, intimara um cocheiro de carro a dar-lhe algum dinheiro. O "Capote", tal era o apelido do cocheiro, não acedera e Zeca matara-o a facadas. Perseguido pelos colegas do morto, outros populares se vieram a juntar e, quase em frente ao palácio do Catete, fora morto a tiros de revólver.
  137. 137Inácio não viu bem como legava esse acontecimento ao destino da candidatura de Bentes. Pareceu-lhe ver naquela atitude dos populares, alguma coisa de mais efetivo na manifestação de sua opinião; e notem que Lucrécio estava amedrontado, assustado, como se o povo estivesse a gritar sempre: Mata! Mata! Lincha!
  138. 138Com que direito? Em nome de quê? Não eram interesses secundários que se sobrepunham, com baionetas, garruchas, facas, à manifestação de vontade de um país inteiro? Não era um sindicato profissional que queria tirar de Bentes os lucros de seu monopólio? A maldição viria sobre ele e sobre ela também que, por simples vaidade, não falava claramente... Mas, se fizesse, que havia de ser, que adiantaria? Numa não voltaria deputado; ela não seria a esposa do eloqüente parlamentar; as outras não a olhariam com respeito e a sua fortuna não teria essa moldura; seria a fortuna vulgar, corriqueira, da mulher de um negociante qualquer.
  139. 139Consertou o monóculo na arcada orbitária e continuou com calor:
  140. 140Vencido esse pequeno tropeço, Bogoloff procurou o ministro, a quem apresentou o orçamento.
  141. 141Despediu-se Bogoloff do homem tão ativo e voltou ao seu gabinete de Quadruplicação de Bois, que era no próprio edifício da secretaria. Fuas esperou o resultado durante um mês e o trabalho do russo na Direção da Pecuária Nacional limitava-se, durante esse tempo, tão somente assinar os registros de estábulos e cocheiras da cidade.
  142. 142Inútil é dizer que Bogoloff não tinha nenhum interesse em por em prática as suas fantásticas idéias. Foi ver a casa e fez um relatório completamente desfavorável. Nem outro podia ser. A casa era um pardieiro arruinado e o quintal tinha para pastagem algumas touceiras desse capim a quem chamam "pés de galinhas". Aconselhou-lhe o ministro por essa ocasião:
  143. 143Verificaram que nada tinha com o caso, soltaram-no. Rolou de cidade em cidade depois de ter perdido o pai, por fim veio para o Brasil para sossegar e morrer.
  144. 144Continuou a descer, encaminhou-se para a cidade. Avenida. O Teatro Municipal enterrava-se um pouco mais. Tubos de borracha sobre patins de roda lavavam o asfalto e os lavadores viam com indiferença a sua vagabundagem atormentada.
  145. 145De onde em onde, uma máquina dos bombeiros, arrastada por muares, abria, por entre a multidão excitada, um sulco, deixando um rastilho de fogo.
  146. 146Liberato era coronel da Guarda Nacional e o velho chefe político de uma longínqua freguesia do Rio de Janeiro. Nela, em Cambuci, estava habituado a vencer ou simular vencer, sem protesto, as eleições. De uns tempos a esta parte, porém, o seu prestígio decaía e os eleitores se insurgiam contra o seu mando infecundo e nocivo. Tendo chegado a época de escolher novos vereadores, Liberato temeu uma derrota mais completa, tanto mais que Cambuci, como o resto do país, se rebelava contra a ascensão de Bentes. Liberato, logo em começo, avariado como estava no seu prestígio, tratou de hipotecar seus préstimos a Bentes, por intermédio de Campelo. Escusado é dizer que foram bem recebidos e em troca ele pode contar com o apoio incondicional dos promotores da candidatura Bentes.
  147. 147D. Edgarda, mulher de Numa, não andou muito contente uns dias; ela os passou recolhida à sua biblioteca a ler e a pensar.
  148. 148Continuava Bogoloff a trabalhar intensamente no ressurgimento da pecuária nacional. O seu campo de experiência era limitado a um salão e os laboratórios eram constituídos por um armário cheio de regulamentos que Xandu expedia a mancheias.
  149. 149Desde a manhã até às quatro horas, passava a ler, assinando de quando em quando um ofício que o secretário trazia, porque a Diretoria estava constituída do diretor, secretário e ror de escriturários. De bois ainda não se cogitava; e Bogoloff não se aborrecia.
  150. 150Curioso é que na Rússia os avançados sonhassem com constituintes, tribunais independentes, ministros responsáveis e os que aqui se julgavam avançados não quisessem todo esse aparelho governamental...
  151. 151De resto, aquela superstição de virtudes especiais do militar tinha uns restos de concepção de nobreza, de classe privilegiada, muito de admirar na mentalidade de um republicano.
  152. 152Lucrécio Barba-de-Bode que ainda descansava dos muitos vivas que dera a Bentes, quando foi a um prado de corridas, leu a notícia em casa, pois agora mais se demorava nela pela manhã em fora.
  153. 153Morava na mesma casa da Cidade Nova e tinha as mesmas pessoas em sua companhia, exceto Bogoloff que resolvera morar numa pensão do Catete, depois de ter sido feito Diretor da Pecuária. Quisera este obter para Lucrécio um lugar na sua diretoria, mas só os havia de escriturário e Barba-deBode não quisera aceitar, por não saber escrever correntemente.
  154. 154Com o tempo Lucrécio ganhara certa inteligência política. Ele que, a custo, tinha ido até a tabuada, ficou sabendo muito da difícil arte de governar os povos. Passara muito além a sua inteligência do capítulo dessa arte que trata das desordens nas eleições e "meeting", com assassinatos conseqüentes: Lucrécio já compreendia certas manobras da alta estratégia dos deputados.
  155. 155Lendo a notícia, lobrigou Barba-deBode alguma coisa de anormal nela. Como toda gente, ele estava habituado a considerar Palmeiras como sendo de Macieira, porque cada Estado era de certos e determinados que o presidente dava. Não se dizia até que Bentes tinha dito ao Crescêncio:
  156. 156Lucrécio nada respondeu. Deixou pender a cabeça sobre as mãos, apoiados os cotovelos no joelho, e esteve a olhar muito tempo o soalho encardido de sua casa velha.
  157. 157Macieira vestiu-se apressadamente e encaminhou-se para a casa de Neves Cogominho. A situação delicada da política exigia movimentos rápidos, a ação pronta e o chefe da polícia de Sepotuba resolvera deixar Petrópolis. Habitava agora a casa de Humaitá, que ficava próximo da de Bentes, podendo em minutos alcançar este, aparar o golpe que lhe quisessem desferir. Neves Cogominho não aceitara a candidatura de Bentes com muita satisfação. O processo pelo qual o general se impusera, tirava a força e o valor políticos dele, Cogominho. Compreendia perfeitamente que ele e os seus colegas não tinham feito mais que ratificar uma escolha de quartéis e imposta sob disfarçada ameaça de uma revolução. Bentes estaria sempre disposto a apelar para a violência, para a coação da força, e desprezar portanto os conchavos de votos, as compensações políticas. Sentia como certo que o bastão de chefe ia escapar-lhe das mãos; sentia também que lhe escaparia da mesma forma se se tivesse recusado a homologar a imposição. Aderindo, simulando admirador de Bentes, ao menos podia salvar alguma coisa, se não de toda a sua autoridade política, ao menos amparar o genro que começava agora a carreira.
  158. 158Lendo, porém, aquele "suelto", Neves Cogominho verificou que as suas considerações podiam ser burladas. O processo estava claramente indicado. Um repórter levantava o nome de um coronel, parente ou não de Bentes, para presidente, e, naturalmente, o general, por camaradagem e espírito de classe, dava a mão forte a esse coronel. Chegado este ao poder não iria com toda certeza receber o santo e a senha dos chefes, mas agir a seu modo, com a arrogância de militar e inspirar-se na crença íntima de que era infalível por ser militar.
  159. 159Cogominho olhou muito seriamente para Macieira, como se tivesse entendido mais do que as palavras diziam.
  160. 160D. Edgarda veio cumprimentar a visita do pai;
  161. 161Macieira não acabou de dizer isto, quando Numa exclamou vitorioso.
  162. 162Como quase todo o jornal do Rio de Janeiro, era deficiente e pouco preocupado com outros assuntos que não fosse política; mas, assim mesmo, dava fortunas, fortunas, que Fuas gastava com a liberalidade e a constância de um nababo oriental.
  163. 163Como Macieira esperava, Fuas Bandeira estava no seu gabinete de trabalho, escrevendo em mangas de camisa. O charuto não o deixava.
  164. 164Macieira não sabia coisa alguma dessa influência poderosa sobre o ânimo de Bentes. A descoberta alegrou-o e ele a pôs de parte como um trunfo forte para ganhar a partida. Fuas fumava recostado na cadeira, batendo as mãos sobre o ventre farto:
  165. 165Deixou-o o senador a escrever uma local em que se pedia ao Congresso que votasse afinal o crédito para instalação da Estação Experimental de Reversão Animal e Quadruplicação dos Bois. Não se compreendia como até ali não tinha sido feito e como é que o governo pagava empregados que não tinham o que fazer, visto lhe faltarem os meios adequados. A fazenda, laboratórios, aparelhos, e demais pertences não chegariam a alcançar o preço insignificante de quatrocentos contos de réis; e não se devia deter o patriotismo dos parlamentares em votar semelhante crédito, desde que levassem em consideração a utilidade da instituição. Fuas era entusiasmado dos projetos de Bogoloff; e, partilhando o seu saber e os seus planos, aconselhara-o a fazer suas compras em uma certa casa, até mesmo se encarregara de fazê-las diretamente.
  166. 166D. Florinda, tendo fundado associação tão útil encontrou dos poderes públicos a maior boa vontade . Foi subvencionada e, graças ao jeito que tinha para agradar, todos a julgaram muito útil em sanar as dificuldades e procuravam-na, aderindo à sua proveitosa associação.
  167. 167Corria que os caboclos eram duvidosos; que eram desertores de regimentos do exército, estacionados no Paraná e Rio Grande do Sul; o certo é que, como caboclos, eles se portavam nas visitas que faziam com a preceptora.
  168. 168D. Florinda, porém, não desanimava de levá-los às recepções de Bentes e de Bastos, dar-lhe hábitos civilizados; e ambos, muito republicanos e brasileiros, não se podiam negar a receber tão autênticos e autotônicos representantes da pátria. Os hurons, porém, embriagavam-se lamentavelmente.
  169. 169D. Florinda tinha muitos caboclos e sempre aumentavam conforme a sua fortuna. Dentre todos, porém, ela estimava sobremodo um chamado Tupini. Era um índio alto com uma cabeleira de apóstolo; calçava com dificuldade as botinas, e os seus pés debaixo delas eram só ossos. Tinha as pernas arqueadas e o caiapó bem parecia ser familiar à montaria do cavalo. Tupini veio assistir à lição ao lado de D. Florinda. Começou a professora por asseverar que o guarani era a língua mais antiga, mais bela do mundo; e exemplificou:
  170. 170D. Florinda voltou-se para o índio e respondeu em guarani:
  171. 171Músicas militares, de espaço em espaço, tocavam elegias; os lampiões de gás semi acesos, cobertos de crepe, davam um ar fúnebre às ruas; e D. Florinda, com a sua choregiada de caboclos entoava nos intervalos um fúnebre hino tupi.
  172. 172Maenram pico?
  173. 173Maenran pico?
  174. 174Maeran pico?
  175. 175Maenran pico?
  176. 176Mal terminavam de cantar a quadra, o coro repetia em longa e profunda toada:
  177. 177Maenran pico
  178. 178Maenran pico
  179. 179De novo as trombetas guinchavam e o préstito caminhava lentamente, em direção ao cemitério. Houve quem dissesse que o hino de D. Florinda era uma canção erótica de origem paraguaia; entretanto, esse detalhe não foi notado e os adeptos de Bentes muito prezaram tão bela homenagem à memória de seu tio.
  180. 180Ciranda, cirandinha!
  181. 181Vamos todos cirandar!
  182. 182Vamos dar a meia volta,
  183. 183Volta e meia vamos dar!
  184. 184Inácio Costa, com o seu - "À bala" - apoiado em um dos estribos, do alto da sela, olhava com severidade patriótica para as moças que se espantavam com seu vestuário bicolor; e, só na altura do Catete, pode desfazer a carranca, quando cumprimentou sorridente Benevenuto, que via aquele desfile com um assombro de idiota chumbado no rosto.
  185. 185AO ALMIRANTE CONSTÂNCIO
  186. 186Camões. Canto III XXI
  187. 187Daquele que faz que nos juntemos!
  188. 188Dos fortes patriotas se juntaram
  189. 189do passado as lembranças majestosas.
  190. 190Da República - termo sacrossanto!
  191. 191Inácio Costa
  192. 192Xandu passou no desfile, sentado sobre o selote de uma "charrua-tílburi", que governava com a naturalidade e elegância de quem guia um "tonneau" num parque de luxo. Um popular cochichou a outro:
  193. 193De há muito quisera dizer-lhe que Numa não podia por muito tempo representar o papel; que era necessário que ficasse na fama; que não forçasse a sagacidade dos outros? mas vieram essas atrapalhações políticas e o orador do bando de Neves tinha que se manifestar de quando em quando.
  194. 194Demais, com os absurdos que Bentes e os seus avançavam, o trabalho de justificá-los forçava de tal forma a inteligência que era bem preciso uma mentalidade totalmente diferente da humanidade para defender as proposições dos partidários do general com alguma vantagem.
  195. 195Mme. Foirfable e a sua amiguinha tomaram o bonde, Benevenuto acompanhou-as com o olhar, pensando nas causas que tinham determinado esse despertar, em tantos generais e coronéis, exímias capacidades políticas; e também nas que tinham provocado os próceres lembrarem-se deles assim de uma hora para outra.
  196. 196Chegou à travessa. Entrou. Na sala, a mãe e a filha costuravam. As duas faziam a sua tarefa com resignação e cuidado. De onde em onde, uma delas deitava a cabeça, colocava de certo modo a costura e a examinava com alegria nos olhos. Um instante, Benevenuto julgou que ofendia com seu amor a miséria daquelas mulheres; afastou o pensamento, cumprimentou e entrou. Edgarda já estava lá e livre da "toilette" pública . Abraçaram-se muito e ela teve um gesto de choro. O primo quis afastar-lhe a emoção:
  197. 197Inácio Costa tinha ainda o seu traje verde e amarelo e na cabeça a esfera azul com estrelas de papel branco. Não trazia mais a terrível lança - "À bala" - mas continuava a distribuir os versos que trazia nas fundas algibeiras da vestimenta.
  198. 198De caminho para casa, viu no bonde que descia o senador Macieira. O homem vinha triste e certamente a tristeza lhe trouxeram as cogitações políticas.
  199. 199De fato, Macieira tinha jogado mal a cartada. A sua resignação do cargo dera azo a que os seus adversários lançassem a candidatura de Contreiras. Seria lógico que os adversários de Macieira, que apoiava e desejava a presidência de Bentes, não a apoiassem nem a quisessem. Os adversários do senador de Palmeiras queriam, entretanto, a presidência de Bentes. Nesse ponto eram correligionários.
  200. 200Macieira punha as mãos na cabeça e pedia a Fuas que escrevesse denunciando o plano dos adversários. No dia seguinte, ele lia o artigo de Bandeiras e também a notícia da remessa de mais um batalhão para a capital das Palmeiras. Macieira corria ao Ministro da Guerra e este lhe dizia:
  201. 201Macieira sossegava um pouco; mas, daí a dias, recebia telegramas que alguns dos seus correligionários, deputados estaduais, tinham aderido a Contreiras. A mulher de Lussigny não chegava; quis adiar a eleição; os deputados simpáticos a Contreiras não deram número e o projeto ficou encalhado. A mulher de Lussigny não chegava...
  202. 202Dias antes da apuração pela Assembléia estadual os oposicionistas armaram uma passeata de crianças; e por detrás dela começaram a hostilizar a polícia. Os milicianos fizeram fogo e um dos infantes morreu. Macieira foi chamado de assassino, de vampiro e os soldados do Exército alagaram a cidade, ameaçaram os amigos de Macieira e Contreiras foi reconhecido e proclamado governador do Estado das Palmeiras.
  203. 203Macieira admirou-se que Bentes julgasse necessárias a estima e a popularidade para governar um país ou mesmo um Estado.
  204. 204Xandu, no dia seguinte, não tomou de desgosto e apreensão o seu banho de frio, que tanta atividade lhe dava. Chegou ao seu gabinete amuado, triste, não assinou sequer um aviso e mandou ao fim de alguns minutos chamar o Dr. Bogoloff.
  205. 205Xandu perguntou, virou-se um pouco na cadeira, descansou a cabeça sobre o braço que se apoiava na mesa pelo cotovelo.
  206. 206Como não tivesse Bogoloff predileção por este ou aquele Estado, pôs dentro da copa do chapéu vinte pedaços de papel com o nome deles e mandou que um dos seus contínuos tirasse um dos tais pedaços. Caiu-lhe por sorte justamente o Estado das Palmeiras, para onde partiu em breve.
  207. 207De quando em quando, o jorro luminoso do farol da Rasa cobria um instante o navio. Não havia quase fosforescência e as hélices escachoavam ritmicamente.
  208. 208De repente, um grito quebrou aquele augusto silêncio:
  209. 209Vendo o capitão, entre o tom de pedido e o de ordem, ele disse:
  210. 210Chaveco mostrou-se muito hábil na gestão policial da cidade. Não se podia imaginar que aquele caipira tão simples, tão bonachão, de aspecto tão medroso, procedesse de forma tão profundamente política e atual.
  211. 211Chaveco era homem grato e não se detinha em consideração alguma de ordem moral ou intelectual para provar a sua gratidão. Dizia mesmo:
  212. 212Lucrécio foi acusado de dar tiros, a polícia pôs-se em campo e afirmou que não era possível que ele tivesse feito semelhante coisa, a não ser com os pés, pois não tinha as mãos. Barba-de-Bode apareceu durante alguns dias com os braços dentro do casaco, pedindo, nos botequins que lhe levassem a bebida aos lábios.
  213. 213Moravam ainda na mesma casa da Cidade Nova e não havia por ela mais abundância do que em outros tempos. Aquela vida era precária; e o dinheiro que Lucrécio recebia ia logo para pagamentos e despesas.
  214. 214Imediatamente Ângela pensou que ali estivesse um dos graúdos para os quais o marido trabalhava. Sem detença, abriu a rótula e fê-lo entrar para a sala, onde os santos ser amontoavam no oratório sobre a cômoda, com o ramo de arruda, na água, ao lado.
  215. 215Lucrécio, que tinha ficado à janela, lembrou-se qualquer coisa e chamou o engenheiro:
  216. 216Voltou-se logo o velho funcionário e perguntou:
  217. 217Lucrécio informou à mulher do que o engenheiro desejava. Teve ela uma grande alegria com a importância que o marido ia ganhando, mas , ao mesmo tempo, lembrou-se:
  218. 218Vestiu-se Lucrécio e desceu com pressa à cidade, para passar um telegrama empenhando-se com Contreiras pelo engenheiro. Interessava-se deveras por aquele homem simples, formado, preterido, que fora ao seu encontro pedir justiça. Desceu a rua do Ouvidor com pressa; mas logo ao chegar à rua Primeiro de Março, teve que cumprimentar a Mme. Forfaible.
  219. 219Mme. Forfaible chamou Lucrécio e perguntou muito naturalmente:
  220. 220Despediram-se e Lucrécio seguiu em direitura à Central dos Telégrafos. Se bem que fosse amigo de Macieira, não estava incompatível com Contreiras, a quem mesmo dissera que não trabalhava em seu favor por ser camarada leal do adversário dele. Não havia nenhum obstáculo em pedir pelo engenheiro que há muitos anos não passava do mesmo lugar, portanto, em tal sentido, telegrafou:
  221. 221Contreiras, logo que tomou conta do governo do Estado, mandou empastelar o jornal da oposição; e, em seguida, fez um inquérito em que o seu delegado procurava demonstrar que haviam sido os proprietários do jornal os autores do empastelamento.
  222. 222Viu-se o Diretor da Pecuária muitas vezes seguido por tipos suspeitos, e à vista disso, declarou a sua qualidade de oficial e pediu uma audiência ao governador. Ele lha deu sem muita mora e Bogoloff pode encontrar-se com um homem muito comum, de feições e inteligência. Não lhe pode sacar nem uma idéia sobre a administração e o governo. Só lhe dizia:
  223. 223Despedindo-se do governador, Bogoloff prometeu no dia seguinte ir assistir a uma sessão da Câmara dos Representantes.
  224. 224Chegavam e espalhavam-se pelas bancadas, conversando e fumando. Junto de Bogoloff, havia dois, uma dos quais lia, à meia voz, um artigo de jornal para o outro ouvir.
  225. 225Lida a ordem do dia, foi anunciado o expediente, e um deputado gritou do fundo da sala:
  226. 226Vergonha maior para um país não se concebe e não se compreende a inteligência desses oficiais. soldados, sargentos, cabos, faxinas, que se julgaram ofendidos por ser acusado um capitão de não pagar suas contas.
  227. 227Com a aproximação da posse de Bentes, essa excitação geral do povo despertou a Câmara dos Deputados, onde as discussões foram renhidas.
  228. 228Campelo fora eleito deputado em uma das vagas, para enfrentar o célebre orador da oposição Júlio Barroso. A erudição deste, a sua voz cortante, a sua honestidade de proceder e de vida davam força e um prestígio extraordinário às suas orações.
  229. 229Campelo fazia também discursos; tinha uma voz agradável, mas não tinha nem o saber, nem a força de Barroso. Se se tratasse de canto, podia-se dizer que Campelo tinha uma voz de salão, um bom timbre, mas sem extensão de volume. Quando se anunciava um discurso de Barroso, a Câmara enchia-se; enchiam-se as galerias, os corredores, as tribunas; Lucrécio e seu pessoal ajudavam a encher o edifício e, tal era o poder de sedução do orador, a fascinação da sua palavra, que eles o aplaudiam candidamente. Campelo, tendo notado isso, resolveu tomar um alvitre. Como deputado, ficava no recinto, bem perto do orador, e de lá fazia sinais a Lucrécio quando devia protestar com o seu pessoal. Assim mesmo, o orador conseguia vencer os obstáculos e ficou resolvido que os governistas o interrompessem com constantes apartes.
  230. 230CARACOLES - V. Exa. não pode dizer isso. Poco me faltó para fallecer cuando llegué a casa de Melisa: de todos los poros me brotaba el sudor frio, se me cerraban los ojos, y costó gram trabajo hacerme recobrar el conocimiento.
  231. 231Como o aparte anterior, este foi recebido delirantemente. Campelo fez um sinal e houve palmas na galeria.
  232. 232VÁRIOS DEPUTADOS - Muito bem! Muito bem!
  233. 233Contou-lhe Numa então toda a história e a necessidade que havia de fazer um discurso no dia seguinte. A mulher concordou e dispôs-se a compô-lo completo e perfeito. Numa descansaria, acalmar-se-ia; e, de madrugada, depois do repouso, estudá-lo-ia, e estaria resgatado. Jantaram; Numa mais calmo e a mulher mais esperançada. Os criados tiveram ordem de dizer que os patrões tinham saído. O deputado foi dormir e a mulher trancou-se na biblioteca trabalhando na oração do marido.

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