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Literatura

A Filha do Arcediago

Edição BooksWhale em português por Camilo Castelo Branco

Clássico de Camilo Castelo Branco: A Filha do Arcediago, uma obra de romance histórico publicada pela primeira vez em 1854.

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Introdução do livro

A Filha do Arcediago

Leia A Filha do Arcediago de Camilo Castelo Branco, um clássico de romance histórico, literatura de língua portuguesa e património cultural.

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Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.

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Camilo Castelo Branco morreu antes de 1926 e A Filha do Arcediago foi publicado antes de 1931; estes dados apoiam uma verificação conservadora do domínio público da edição original.

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A Filha do Arcediago

Camilo Castelo Branco

Capítulo de préviaCAPITULO IPrévia

Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração, que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.

Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.

É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)

Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.

Como veio esta menina para a casa do negociante?

Da seguinte maneira:

Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago:

--Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!

--Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.

--Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...

--Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?

--Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talhar futuros por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...

Capítulo de préviaCAPITULO IIPrévia

Na tão indecente como attribulada situação, em que deixamos o senhor Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar vesperas no côro da Cathedral.

O cálido negociante resfollegava como um tubarão, e improvisava uma ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos Deus, leitores, que muito amargo é o dizer a verdade inteira! Ha momentos em que o escriptor publico se vê forçado a córar. Se me visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.

O arcediago, porém, não se mostrou surprendido da attitude tragicamente afflictiva do seu amigo. Cálido tambem, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos pés vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.

--Fostes a minha desgraça!-regougou o senhor Antonio, abanando o ventilador com a mão esquerda, e enxugando com a toalha de mãos os humidos torcicollos do pescoço.

--Fui a tua desgraça! Pois que é?-replicou o beneficiado, tapando com o indicador da mão direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma solemne pitada.

--Que é? ainda m'o perguntas? É a tua filha que me faz de fel e vinagre! É uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe faço meiguices!

--Ora deixa estar, que o remedio não está em Roma. Eu já te disse que sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou não queres casar com ella, Antonio?

--Perguntas-m'o agora que já não sei por onde me anda a cabeça!... Dava trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto parece que foi inguiço, que me fizeram!...

--Eu te quebrarei o inguiço...

--Não sei como. A pequena, seja lá pelo que fôr, não me póde vêr, ha um anno para cá. Aqui anda dente de coelho... Não sei, mas desconfio que ella namora o filho do João Retrozeiro, que me está sempre a lêr por detraz dos vidros.

--Devéras?

--Parece-me que sim. A minha Angelica já o desconfiou, e ralhou-lhe. A senhora Rosinha levantou a cabeça, e disse que não dava satisfações a ninguem.

--Ah! ella disse isso? Ora deixa-me com ella...

--Ouviste, Leonardo? não quero que lhe ralhes. É muito creança, e póde ser que minha irmã se enganasse. Serão escrupulos de Angelica, que me defumou com herva sancta e trevo nove vezes para me quebrar o feitiço em que me tinha a criada Thereza. É uma pateta mulher. Não lhe digas nada por ora a tal respeito. Aconselha-a que case comigo, e que me tenha amor, que eu prometto dar-lhe todo o ouro e vestidos que ella quizer. Hei de até leval-a ás comedias italianas, e não haverá fidalga que lhe bote a barra adiante em aceios.

Já vêem, pela energia da expressão, que dôr tão sublime não devia ser a que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquencia! O senhor Antonio José da Silva, superior á sua classe, sentia-se arrojadamente grande pela angustia d'uma repulsa. Trinta mil cruzados déra elle pelo amor de Rosa Guilhermina! Promettia leval-a ás comedias! Galardoava o seu amor com vestidos que fizessem morder de inveja as fidalgas do Porto! Eu quizera que Rosa lhe exigisse uma carruagem. Se o senhor Antonio accedesse ao extravagante pedido, então, leitores seria eu o primeiro a pedir uma data gloriosa, um cantinho, na historia da civilisação da rua das Flores, para o senhor Antonio José.

A nada, porém, se movera a esquiva donzella.

O arcediago, commovido pela exclamação do seu futuro genro, subiu ao segundo andar, e procurou, meio-colerico, a filha rebelde, que ensinava o papagaio a dizer: _é o rei que vai á caça_.

--Á caça andava eu de ti...--disse affavelmente o pae, chegando uma cadeira para junto de sua filha tambem risonha, que lhe beijava a mão.

Sumário

Nesta edição

  1. 01Full text
  2. 02CAPITULO I
  3. 03CAPITULO II
  4. 04CAPITULO III
  5. 05CAPITULO IV
  6. 06CAPITULO V
  7. 07CAPITULO VI
  8. 08CAPITULO VII
  9. 09CAPITULO VIII
  10. 10CAPITULO IX
  11. 11CAPITULO X
  12. 12CAPITULO XI
  13. 13CAPITULO XII
  14. 14CAPITULO XIII
  15. 15CAPITULO XIV
  16. 16CAPITULO XV
  17. 17CAPITULO XVI
  18. 18CAPITULO XVII
  19. 19CAPITULO XVIII
  20. 20CAPITULO XIX
  21. 21CAPITULO XX
  22. 22CAPITULO XXI
  23. 23CAPITULO XXII
  24. 24CAPITULO XXIII
  25. 25CAPITULO XXIV
  26. 26CAPITULO XXV
  27. 27CAPITULO XXVI
  28. 28CAPITULO XXVII
  29. 29CAPITULO XXVIII
  30. 30CAPITULO XXIX

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