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Literatura
A Viúva Simões
Edição BooksWhale em português por Júlia Lopes de Almeida
Um romance de memória, luto e desejo sobre uma viúva que tenta reconstruir a própria vida.
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Introdução do livro
A Viúva Simões
Júlia Lopes de Almeida mostra como a reputação feminina é moldada por parentes, vizinhos e convenções enquanto a protagonista procura autonomia.
Edição BooksWhale
Como esta edição foi preparada
Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.
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Júlia Lopes de Almeida died in 1934, and this portuguese source text was published in 1897; it is public domain.
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Capítulo de préviaPart 1Ler prévia
A Viúva Simões
Júlia Lopes de Almeida
Apesar de moça e de rica, a viúva Simões raras vezes saía; dedicava-se absolutamente à sua casa, um bonito chalet em Santa Tereza. Vivia sempre ali; inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados: a Benedita, cozinheira preta, ex-escrava da família; o Augusto, copeiro, francês, habituado a servir só gente de luxo; a lavadeira Ana, alemã, de rosto largo e olhos deslavados; o jardineiro João, português; homem já antigo no serviço, e uma mulatinha de quinze anos, cria de casa, a Simplícia, magra, baixa, com um focinho de fuinha e olhos pequenos, perspicazes e terríveis.
Não era fácil dirigir pessoal tão diferente em raças e em educação. A viúva; modesta, e um pouco indolente para os deveres exteriores, consumia ali, dentro das suas paredes, toda a sua atividade.
Em vida do marido freqüentara algum tanto a sociedade; mas depois que ele partiu sozinho para o outro mundo, ela encolheu-se com medo que se discutisse lá fora a sua reputação, coisa em que pensava numa obsessão quase nevrótica.
Adquirira fama de menagère exemplar; e então levava o escrúpulo a um ponto elevadíssimo para não desmerecer nunca do conceito de boa dona de casa. Levantava-se cedo; percorria o jardim, a horta, o pomar, o galinheiro; censurava o hortelão pelo menor descuido; via bem até as mais insignificantes ninharias: a grama precisava ser aparada... As roseiras careciam de poda; porque não se enxertavam estes ou aqueles pés de fruta? O homem respondia que já tinha deliberado aquilo mesmo, e ela passava adiante, sempre com perguntas ou ordens.
No interior era um chuveiro de recriminações. A cozinha tomava-lhe horas. Passava os dedos nas panelas e nos ferros do fogo, a ver se estavam limpos; cheirava as caçarolas; obrigava a Benedita a arear de novo tachos e grelhas, a lavar a tábua dos bifes e o mármore das pias e da mesa. Se havia alguma torneira pouco reluzente ou alguma nódoa no chão, detinha-se, exigindo que se corrigisse a falta logo ali, à sua vista. E era assim por todos os compartimentos, minuciosa, ativa, severa.
Lamentava-se da falta de método, que a obrigava a ter em casa tantos criados; mas se pensava em despedir algum deles, achava-o logo indispensável. A casa era grande e o dia curto para observá-la em todas as suas exigências. A viúva não fazia outra coisa senão mandar; entretanto não lhe sobrava tempo para mais nada!
Tinha de vez em quando as suas horas tristes, em que a inteligência se lhe revoltava contra a monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais em tudo, sempre iguais... O corpo cansado não reagia, e o pensamento nadava preguiçosamente em idéias vagas, coloridas pelo romantismo da idade em que as alegrias e entusiasmos da mocidade já não existem, e em que as friezas da velhice ainda não chegaram... Ela tinha uma filha, Sara, que era o seu conforto e a sua agonia. Por causa dela renunciava aos divertimentos do mundo, exagerando as suas atribuições caseiras. Tinha medo de apaixonar-se um dia, fugia do perigo de amar, de trazer para casa, para o gozo do seu corpo e da sua alma, um padrasto para a filha, um estranho com quem tivesse de repartir os seus cuidados e as suas riquezas.
O seu temperamento, aparentemente frio, dava-lhe por vezes momentaneamente, um ar de rija autoridade, muito em contradição com o seu tipo moreno, de brasileira. No trato comum era calma, e tinha sempre o cuidado de não trair as suas horas de desfalecimento, em que lhe passavam pela mente desejos e idílios irrealizáveis...
Capítulo de préviaPart 2Prévia
Luciano! Sim. Era ele quem se anunciava! Que vinha fazer à sua casa, após dezenove anos de ausência e de completa indiferença? Que saudades vinha revolver ou que idílios acordar?
Ao mesmo tempo que estes pensamentos se atropelavam no seu espírito, ela, por um movimento em que entrava tanto de coquetterie como de nervosismo, ergueu-se, apoiou a mão no espaldar baixo de um fauteuil, impelindo com o pé, para o lado, a longa cauda do seu vestido de viúva. Houve um silêncio; o coração bateu-lhe com força. Soaram passos pelo corredor encerado, esses passos foram abalados na alcatifa da saleta contígua, onde a voz do Augusto indicou:
- Tenha a bondade de passar a outra sala...
Ela voltou-se com um sorriso desbotado e viu destacar-se, no fundo bronzeado do reposteiro, a figura elegante e correta de Luciano Dias...
Ele avançou, e curvando-se diante dela:
- Minha senhora...
A viúva Simões estendeu-lhe a mão que a comoção gelava e ele elegantemente beijou a mão que se lhe oferecia.
Lá fora, entre os murtais, continuavam as gargalhadas das moças, e na doida alegria da luz, voavam os pombos por sobre as árvores e o telhado do chalet.
Sentados um em frente do outro, a viúva Simões observava que o Luciano Dias de então era bem diverso do Luciano de outrora! Tinha os cabelos grisalhos, embora fartos, o que lhe dava um novo encanto à fisionomia viril; já não era esbelto: o seu corpo perdera a graciosa flexibilidade dos vinte anos, tornara-se um pouco grosso, o ventre arredondara-se-lhe, e no seu rosto expressivo e simpático, havia vestígios de cansadas insônias.
Por seu turno ele analisava a viúva. Achava-a com certeza muito menos fresca, mas talvez mais encantadora. Agora tinha a graça consciente, um pouco amaneirada, em todo o caso cativante. As faces tinham descaído um pouco mas o corpo era agora mais airoso e ondeante.
Se as olheiras se haviam acentuado e os cabelos negros estriado de um ou de outro fio branco, ao menos o sorriso tornara-se mais fino, mais inteligente e perspicaz, e para ele, homem de sociedade, no saber sorrir estava toda a arte e ciência da mulher de salão.
Ao princípio houve um certo embaraço na conversa. Esboçavam-se frases que morriam depressa. Ele não justificava a visita; ela encolhia-se com reserva. Luciano, era, aparentemente, já quase um estranho! Trocaram-se falas banais.
Se a viagem tinha corrido calma... se não achava agora o Rio uma cidade feia...
Ele respondia num modo cerimonioso e discreto e ambos, escondendo com todo recato os seus pensamentos e lembranças, afetavam indiferença e sossego.
Um gesto, um olhar, um suspiro quebram às vezes os mais firmes propósitos.
Fios há que parecendo de ouro são de seda: se lhes querem prolongar muito a tensão - estalam. Foi o que sucedeu.
Luciano, depois de um pequeno silêncio, fixando a viúva nos olhos, deu-lhe os pêsames pelo seu luto.
Houve um estremecimento.
Sem saberem como, de fato em fato, vieram a falar do tempo antigo. A evocação desses dias de mocidade foi como que um pouco de sol que derretesse o gelo entre ambos, e chegou mesmo um instante em que ele, enlanguescendo a voz e os olhos murmurou baixo:
- Ernestina!
Era o nome dela. A viúva Simões levantou-se muito vermelha, atravessou a sala até a um gueridon que ficava em frente, mudou ali a posição de uma camponesa de biscuit, sem perceber mesmo porque fazia aquilo, e voltando a sentir-se perto de Luciano, disse, olhando para os zig-zags da alcatifa:
- Estou velha!
- Formosa velhice.!
- Trinta e seis anos...
- E eu trinta e nove...
- Os homens são sempre moços...
Luciano não respondeu; contemplava agora, com muita atenção o retrato a óleo do finado comendador Simões.
Capítulo de préviaPart 3Prévia
- Sara é m anjo
- Muito parecida com o pai!
- Ora.
- Antes tivesse saído à mãe, concluiu Luciano, seria muito mais formosa e menos...
- E menos?
- Quero dizer - mais agradável para mim.
Ernestina, apesar dos esforços por encobrir a tristeza que essas palavras provocaram, deixou-a transparecer e Luciano despediu-se com uma certa frieza, como se estivessem amuados.
- Então você foi hoje à Santa Tereza? perguntou o Rosas a Luciano Dias.
- Fui...
- E então, que tal?
- Ainda fresca! Bonita!
- É bonitona, é.
Conversavam acerca da viúva Simões.
O Rosas acabava de jantar com o amigo regaladamente, na sua saleta do pavilhão, no Flamengo, com vista para o mar. Estavam sós; o criado levara o café e eles tinham acendido os charutos.
A tarde caía serena e bela num esmaecimento de tons delicados. Diante da porta aberta do pavilhão, a rua larga e arenosa do jardim estendiase com uma brancura pálida, sem brilho, e nos largos canteiros relvados, batidos de sombra, as palmeiras ornamentais abriam muito as folhas, como enormes mãos espalmadas. Entre o verdor enegrecido das plantas, sorriam de vez em quando rosas claras, cor de carne moça, e os arbustos das azaléias brancas destacavam-se muito, todos cobertos com as suas flores de neve.
Do outro lado, pelas janelas abertas, vinha o marulho das ondas a morrerem na praia.
- Já tenho licor... disse Luciano, respondendo a um gesto do Rosas, que tornara a encher o seu cálice e passava a garrafa ao amigo.
- É bom; isto reanima e conforta o estômago. E depois de um trago em que esgotou o cálice:
- Pois você fez mal em ir à Simões... pode comprometer-se e depois não ter remédio, senão...
- Casar?
- Casar.
- Qual!
- Veja o que aconteceu comigo!
O Rosas, homem já dos seus cinqüenta anos, gordo e calvo, cansado do seu viver de solteirão, tinha-se casado, para um ano depois separar-se da mulher, com grande escândalo.
A pobrezinha tinha sido uma cabeça tonta e bonita. Passara a mocidade a ler novelas dos jornais e a fazer crochet à janela da casa do pai, em S. Cristóvão.
Montépin lançou-lhe no espírito a semente da inveja das fidalgas loiras, de mãos de cetim e olhos de veludo turquesa. O crochet dava-lhe tempo para remoer mentalmente cenas de amor adúltero deslizadas nos parques alfombrados de castelos provincianos. Quando casou, o Rosas tinha ainda todos os gostos do negociante pacato e burguês. Como isso fosse por 1890, no período efervescente do jogo da bolsa, em que os luxos se assanharam até o desmando, não custou muito transformá-lo. Foi ela, portanto, quem o acostumou àqueles jantares no pavilhão, quem o obrigou a comprar carro, a freqüentar o lírico, até que um belo dia - zás! Lá se foi mar em fora com um primo dele, levando todas as jóias e deixando por despedida algumas linhas mal escritas.
Entretanto, aquele golpe não o desesperou; tinha mesmo facilidade extrema em aludir a ele. Chegava a ponto de constranger os amigos. Um deles notou-lhe um dia:
- Homem! há certas infelicidades que se escondem...
- Ao contrário, respondeu-lhe o Rosas, há certas infelicidades que devem ser espalhadas para servirem de exemplo!
Lá tinha o seu modo de ver.
- Há muitos meses que não vejo a Simões, prosseguiu o dono da casa, fincando o cotovelo na mesa e erguendo até a altura da calva a mão gorda e curta, em que luzia um enorme brilhante.
- Eu, já agora hei de morrer solteiro, disse Luciano pausadamente. Conheci por alguns anos a vida de família, fui tão feliz quanto podia ser nas condições em que me achava, e isso bastou-me.
- Alguma ligação.
- Sim. Uma rapariga por quem me apaixonei... vivemos quatro anos juntos. Hei de ter sempre saudades desse tempo... ela era linda e era um anjo!
Sumário
Nesta edição
- 01Part 1
- 02Part 2
- 03Part 3
- 04Part 4
- 05Part 5
- 06Part 6
- 07Part 7
- 08Part 8
- 09Part 9
- 10Part 10
- 11Part 11
- 12Part 12
- 13Part 13
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