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Literatura

Alves & Cia.

Edição BooksWhale em português por Eça de Queirós

Uma suspeita de adultério abala uma sociedade comercial e expõe a distância entre honra pública, desejo e conveniência.

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Introdução do livro

Alves & Cia.

Nesta novela póstuma de Eça de Queirós, a crise conjugal de Godofredo Alves ameaça transformar-se em escândalo e conflito empresarial. Com humor fino, o autor observa como orgulho, reputação e cálculo financeiro moldam as decisões privadas. A narrativa curta condensa a ironia social que tornou Eça um dos grandes romancistas portugueses.

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Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.

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The original work was first published in 1925; Eça de Queirós died in 1900. The source text is in the public domain under the applicable author-life-plus-term rules. This edition is the original-language text.

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Alves & Cia.

Eça de Queirós

Capítulo de préviaCapítulo IPrévia

Nessa manhã, Godofredo da Conceição Alves, encalmado, soprando de Ter vindo do Terreiro do Paço quase a correr, abria o batente de baetão verde, do seu escritório num entressolo da rua dos Douradores, quando o relógio de parede pôr cima da carteira do guarda-livros batia duas horas, naquele tom, cavo, a que os tetos baixos do entressolo davam uma sonoridade dolente, e cava. Godofredo parou, verificou o seu próprio relógio preso pôr uma corrente de cabelo sobre o colete branco, e não conteve um gesto de irritação vendo a sua manhã assim perdida, pelas repartições do Ministério da Marinha: e era sempre assim quando o seu negócio de comissões para o Ultramar o levava lá: apesar de Ter um primo de sua mulher, diretor-geral, de escorregar de vez em quando uma placa na mão dos contínuos, de ter descontado a dois segundos oficiais letras de favor, eram sempre as mesmas dormentes esperas pelo ministro, um folhear eterno de papelada, hesitações, demoras, todo um trabalho irregular, rangente e desconjuntado de velha máquina meio desparafusada.

— Sempre o mesmo encaranguejamento - exclamou ele, pousando o chapéu sobre a carteira do guarda-livros. - Dá vontade de os espicaçar como aos bois: Eh Ruço para diante! Eh Malhado!

O guarda-livros, um moço de ar amarelado e doente, sorriu. Espalhou areia sobre a larga folha que acabava de escrever, e disse, sacudindo-a:

— O sr. Machado deixou um bilhete lá dentro... diz que ia ao Lumiar.

Então Godofredo, que limpava a testa com o lenço de seda, sorriu também, de leve, passando logo pelo bigode o lenço, escondendo o sorriso... Depois examinou a correspondência, que o guarda-livros continuava a polvilhar de areia.

Um momento uma carroça, fora, atroou a rua estreita, com um ruído de ferragens sacudidas: depois tudo caiu num silêncio. Um caixeiro, agachado diante dum caixote enorme, escrevia um nome sobre a tampa. A pena de pato rangia, por cima o relógio batia um tic-tac forte. E naquele grande calor do dia, no abafamento dos tetos baixos, subia dos caixotes, de dois fardos, do pó da papelada, um cheiro vago de ranço, e de mercearia.

O sr. Machado estava ontem em D. Maria -disse então o guarda-livros, sem cessar de escrever.

Alves largou logo a carta que lia, interessado, com o olhar mais vivo:

— Que ia ontem?

— O Trapeiro de Paris...

— Que tal?

O guarda-livros ergueu os olhos da carta para responder:

— Eu gostei muito do Teodorico...

Alves ainda ficou esperando algum outro detalhe, uma apreciação. Mas o guarda-livros retomara a pena, e ele recontinuou a sua leitura. Depois o trabalho do caixeiro agachado interessou-o um instante. Seguia o pincel, gozava as curvas das letras.

— Ponha-lhe um til. Fabião tem um til...

E, como o caixeiro se embaraçou um momento, ele próprio se abaixou, tomou o pincel, deu o seu til a Fabião. Fez ainda uma recomendação ao guarda-livros sobre uma remessa de baetão vermelho para Luanda e, empurrando outro batente verde, descendo dois degraus - porque naquele entressolo os pavimentos eram de níveis diferentes, penetrou enfim no seu gabinete, pôde desabotoar o colete, estender-se enfim numa poltrona de reps verde.

Fora, um dia de julho abrasava, faiscava na pedra dos passeios: mas ali, naquele gabinete, onde nunca dava o sol, assombreado pelos altos prédios fronteiros, havia uma frescura; as persianas verdes estavam corridas fazendo uma penumbra; e o verniz das duas carteiras, a dele e a do seu sócio, a esteira que cobria o chão, o reps verde da cadeira bem escovado, uma moldura de ouro encaixilhando uma vista de Luanda, a alvura dum grande mapa, tinham um ar de arranjo, de ordem, que punha como um repouso, uma frescura maior. Havia, mesmo, um ramo de flores, que sua mulher, a boa Lulu, lhe tinha mandado havia dias - compadecida de o saber toda uma daquelas manhãs de calma, no abafamento dum escritório, sem uma cor de flor para alegrar os olhos. Ele tinha posto o ramo sobre a carteira do Machado. Mas, sem água, as flores murchavam.

Capítulo de préviaCapítulo IIPrévia

AO ESTREMECER do reposteiro, Ludovina vira-o, deu um grito, saltou instintivamente para longe do sofá. E Godofredo ouviu aquele grito: mas não se podia mexer, sem saber como, achara-se caído sobre uma cadeira ao pé da porta, e tremia, tremia, como numa sezão, e todo frio. E, através do rumor de febre que lhe enchia a cabeça, o deixava sem idéias, ele sentia toda a atrapalhação que ia dentro na sala. Passos fortes pisavam o tapete, houve algumas palavras, palavras trocadas num sopro, e com angústia: depois o ferrolho da porta que dava para a escada correu; e depois um silêncio. Então, subitamente, a idéia que eles tinham fugido ambos restituiu-lhe bruscamente a força, um furor apoderou-se dele, dum salto arremessou-se para dentro da sala. Mas tropeçou numa pele de raposa que ornava o limiar, foi-se estatelar ridiculamente sobre o tapete; quando se ergueu, furioso, com os punhos cerrados, o reposteiro da porta da escada balouçava-se, à margem, e a escada desenrolava-se, sob a luz da clarabóia, solitária, com o seu grande ar de decência. Então, alucinado, precipitou-se para a janela. Pela rua fora, a passadas de côvado, afastava-se o Machado, com o seu guarda-sol na mão. Onde estava ela então? Quando se voltou, no meio da sala, estava a Margarida, espantada, com o seu cartucho de bolos na mão.

— Onde está ela? - gritou o Godofredo.

Ao princípio a criatura não compreendeu; mas, subitamente, deixou cair o cartucho, levou o avental à cara, rompeu a chorar. Ele repeliu-a, quase a atirou para o chão; correu à cozinha. Com a porta fechada, cantando alto para o saguão, e escamando o seu peixe, a cozinheira não ouvira nada, não sabia nada. Então Godofredo arremessou-se contra a porta do quarto de Ludovina. Estava fechada.

— Abre, ou arrombo!

Não houve resposta: ele colou a orelha à madeira; vinha de dentro como um vago soluçar, um confuso sopro de angústia e de terror.

— Abre, ou arrombo - gritou ele, com uma punhada à porta, como se fosse já sobre o corpo dela que batesse, todo com idéias de sangue e de morte.

Então uma voz aflita disse de dentro , num grito de súplica:

— Mas não me faças mal.

— Juro-te que te não faço mal... Abre, abre!

A chave rangeu. Ele precipitou-se enquanto Ludovina, no seu grande penteador branco, se refugiava pôr trás da cama, apertando as mãos, com os olhos arregalados de pavor, e cheios de lágrimas.

E então, diante daquela mulher que chorava, ele ficou com a garganta estrangulada, sem obter uma palavra, dardejando-lhe um olhar de louco, e quase chorando também.

Então ela deu dois passos lentos para ele, com os braços abertos, tremendo-lhe a voz, tremendo ela toda, gritou por entre as lágrimas :

— Oh Godofredo, pela tua saúde, perdoa, eu não tinha feito mal nenhum, e era só a primeira vez...

E ele com a garganta estrangulada articulava apenas com os dentes cerrados:

— A primeira vez, a primeira vez...

A sua cólera subia, fez explosão, num berro:

— E que fosse a primeira, que tem fosse a primeira? E então com quem, infame! E com quem! O que eu devia era matar-te. Vai, vai-te embora, sai daqui, deixa-me, criatura... Vai-te, vai-te.

Ela saiu, num choro desesperado. Então voltando-se, ele viu à porta do corredor a cozinheira, que olhava, curiosa, com o olho aceso, e mais na sombra do corredor, inquieta, e encolhida, mas espreitando também, a Margarida.

— Que faz vossemecê aqui - gritou ele. - Já para a cozinha! Se há aqui um pio vai tudo para a rua.

E atirou com a porta, ficou passeando furiosamente no quarto, onde o grande leito, com as duas travesseirinhas unidas, ostentava a sua brancura. E através do sangue que lhe fervia na cabeça, as suas idéias fixavam-se, decidia-se a bater-se com o Machado, num duelo de morte; e a ela, mandá-la para casa do pai. Pensou também num convento. Mas pareceu-lhe mais digno ir simplesmente restituí-la ao pai. E apenas mediu, pesou, fixou estas duas resoluções, a sua grande cólera calmou-se.

Sumário

Nesta edição

  1. 01Full text
  2. 02Capítulo I
  3. 03Capítulo II
  4. 04Capítulo III
  5. 05Capítulo IV
  6. 06Capítulo V
  7. 07Capítulo VI
  8. 08Capítulo VII
  9. 09Capítulo VIII
  10. 10Capítulo IX

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