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Literatura
A Rosa do Adro
Edição BooksWhale em português por Manuel Maria Rodrigues
Um romance sentimental de aldeia combina amor contrariado, honra familiar e os costumes portugueses do século XIX.
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Introdução do livro
A Rosa do Adro
A narrativa coloca a paixão e as expectativas da comunidade em rota de colisão, usando o espaço da aldeia e a igreja como cenários de memória e julgamento social. A Rosa do Adro tornou-se um marco popular do romance sentimental português oitocentista.
Edição BooksWhale
Como esta edição foi preparada
Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.
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Publicado em 1870. Manuel Maria Rodrigues morreu em 1899; a obra original está em domínio público nos principais mercados considerados. Confirmar que a fonte não acrescenta prefácio ou notas modernas protegidas.
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A Rosa do Adro
Manuel Maria Rodrigues
Capítulo de préviaCAPÍTULO 1Prévia
A umas cinco ou seis léguas do Porto, e no fundo montanhoso de uma colina, surge, como por encanto, de entre as bouças de pinheiros e carvalhos, a pequena mas pitoresca aldeia de... forma ela um gracioso montão de pequenas casas, com as suas paredes brancas de neve e os seus telhados vermelhos de sangue, sobrepujados por outras tantas chaminés, das quais respiram de vez em quando uns rolos esbranquiçados de fumo, que se desfazem nos ares ao mais leve sopro da viração.
Do centro deste interessante grupo sobressai, majestosa, uma igreja de modesta e simples arquitetura, do cimo da qual se ergue, desafogada, uma grande cruz de granito, que eleva para o céu os seus toscos braços enegrecidos pelo tempo e pelos anos.
É belo e cheio de poesia tudo aquilo!
Aquele acervo de modestas habitações, tão estreitamente aconchegadas umas às outras, assemelham-se a pobres e tímidas fugitivas que, abandonando pressurosas o bulício das cidades, ali vieram apertar-se num terno abraço, procurando a paz e o descanso eterno em derredor daquela carinhosa mãe, que as abriga com a sua sombra e as protege do alto com os braços abertos, como para as livrar de qualquer perigo.
Depois, ao longe, lá se levanta ainda sobre a relva dos campos uma ou outra casa, que parece espreitar invejosa, por entre a folhagem verdejante do arvoredo, aquela feliz fraternidade das suas companheiras.
Enfim, as pequenas florestas, as viçosas planícies, as pitorescas encostas da colina, os estreitos e límpidos regatos serpenteando por toda a parte, o trinado alegre das aves na alvorada, o canto monótono e sentido do pegureiro, ao pôr do Sol, quando conduz os rebanhos, o mugido lastimoso das vacas que pascem, e uma outra infinidade de harmonias da natureza em toda a sua plenitude de rusticidade, dão àqueles lugares um aspeto de paz e felicidade inconcebíveis.
Em uma das pequenas casas que mais se aconchegavam à igreja, e distanciada desta apenas por um pequeno largo, a que chamam adro, habitava em outro tempo, em companhia da sua avó, única parente que então lhe restava, a mais alegre, linda e engraçada rapariga daqueles arredores.
Chamava-se Rosa, e tinha apenas dezoito anos.
Não era uma dessas corpulentas mocetonas, de faces vermelhas e roliças, de grandes olhos castanhos e cabelos de azeviche, de que o nosso belo Minho nos dá tão apreciáveis exemplares. A Rosa do Adro, como lhe chamavam, era, muito ao contrário, alta e de compleição delicada; tinha o rosto um pouco comprido, as faces aveludadas e cobertas de um ligeiro rosado, os lábios finos e vermelhos, os dentes pequenos e brancos, os olhos cor do céu, umas vezes travessos, outros meigos e de uma languidez angelical, os cabelos louros e nédios, e as mãos e os pés pequenos e bem conformados.
Era um conjunto de belezas e graças que enfeitiçavam os olhares mais descuidados e indiferentes.
Fazia gosto vê-la ao domingo, na missa do dia, vestida com a sua saia baeta- crepe, a cabeça caprichosamente envolta num lenço de cambraia, cuja alvura mais deixava sobressair o alourado dos seus cabelos e o rosado das faces, os virgíneos seios cuidadosamente recatados por um grande lenço de flores vermelhas, simetricamente encruzado, e cujas pontas vinham unir-se, por um nó, atrás, na cintura delicada e flexível, já apertada por um colete de fustão amarelo, salpicado de pequenas flores encarnadas, os braços cobertos até aos pulsos pelas mangas largas de uma camisa alvíssima e os pequenos pés semi- calçados num as apuradas chinelas de duraque com biqueiras de verniz.
Quando ela e a sua avó, dirigindo-se para a igreja, apareciam no adro, um rumor surdo, uma exclamação de alegria exalava-se de todas as bocas.
Capítulo de préviaCAPÍTULO 2Prévia
Cerca de um quarto de légua distante da igreja, e por detrás de um pequeno monte coberto de castanheiros velhos, estendia-se a rica herdade chamada do Capitão, nome que lhe viera dos avoengos do atual possuidor, o Sr. José da Costa, o mais abastado lavrador daquelas redondezas, homem honrado em toda a aceção da palavra, um pouco rude, sim, mas que nem por isso deixava de exercer, havia oito anos, com toda a consciência e retidão, o importante cargo de juiz eleito da freguesia, sendo, além disso, juiz, mesário ou irmão de quantas confrarias e irmandades ali existiam.
Tinha ele um filho, único herdeiro dos seus haveres, chamado Fernando, a quem, por mera deliberação sua, mandara aos catorze anos para o Porto estudar preparatórios para se formar em medicina.
Fernando, que não passara até então de um pobre rapaz, sem ilustração nem pretensões, acostumou-se depois por tal forma aos hábitos da cidade e àquela vida livre e risonha de estudante, que dentro em pouco tempo tornara-se o mais alegre, espirituoso e casquilho de todos os seus condiscípulos, pois que para tudo lhe dava de sobra a recheada bolsa do seu pai, sempre aberta às suas mais pequenas necessidades e exigências.
Apesar disso, Fernando não desaproveitava o tempo, e, como era dotado de uma bela inteligência e aplicado ao estudo, tornara-se ao mesmo tempo um aluno distinto nas aulas que frequentava, recebendo por vezes, com grande contentamento dos seus pais, algumas distinções e prémios pelo seu bom aproveitamento.
Aos vinte e três anos achava-se já matriculado no quarto ano da Escola Médica, tendo até ai dado provas bem patentes da sua feliz vocação para a carreira a que se destinava.
É nesta época que precisamos travar com ele conhecimento.
Terminara o ano letivo, e Fernando, depois de fazer os competentes actos, viera passar o resto das férias junto da sua família, a quem no ano antecedente não visitara por causa dos seus trabalhos, tomando-se por isso a sua visita mais apetecida e festejada.
Seus pais receberam-no, como de costume, de braços abertos e com as lágrimas nos olhos, revendo-se com ufania naquele esbelto rapaz, que fazia o orgulho da família, não só pelo seu comportamento exemplar como pela posição distinta que em pouco deveria ocupar na sociedade.
-- Estás um rapaz como um cravo -- dizia a boa da mãe do estudante, olhando-o de alto a baixo e com esses bigodes assim retorcidos à moda dos sobrados... -- Aquelas senhoritas lá do Porto não hão de ter folgado nada contigo, hem, que digo eu?
Fernando limitava-se a responder àqueles gracejos maternos com um ligeiro sorriso, enquanto que o seu pai exclamava com um ar bondosamente sério:
-- Anda, meu tratante, que me estás por um bom par de moedas; ainda assim, louvado Deus, não tens sido dos piores, não, porque enfim sempre estudaste e aproveitaste o tempo, que é o que eu desejava; lá do mais, vocês são rapazes, gostam de figurar e de estroinar... é verdade, eu na vossa idade fazia o mesmo; vamos, não tens sido dos piores... Para o ano, se Deus quiser, já teremos um cirurgião cá na aldeia, não é verdade?
-- Assim o creio, meu pai -- respondeu o rapaz. -- Para o ano termino o curso, e então já terá um filho médico-cirurgião.
-- Eh, eh, eh! -- respondeu o José da Costa, rindo-se -- um médico- cirurgião, dizes tu; diz antes um mata-gente! Eh, eh, eh!
-- Oh, meu pai!...
-- A propósito -- continuou o pai de Fernando, rindo-se. -- Tu já serás capaz de dar aí um remédio para um doente cá da casa?
-- Então quem é que está doente?
-- Ora quem há de ser? É a pobre da nossa égua preta, que deu aqui há dias um tropeção e ficou com uma perna aleijada; já a levei ao ferrador, mas o diabo tanto lhe fez como nada.
Sumário
Nesta edição
- 01Full text
- 02CAPÍTULO 1
- 03CAPÍTULO 2
- 04CAPÍTULO 3
- 05CAPÍTULO 4
- 06CAPÍTULO 5
- 07CAPÍTULO 6
- 08CAPÍTULO 7
- 09CAPÍTULO 8
- 10CAPÍTULO 9
- 11CAPÍTULO 10
- 12CAPÍTULO 11
- 13CAPÍTULO 12
- 14CAPÍTULO 13
- 15CAPÍTULO 14
- 16CAPÍTULO 15
- 17CAPÍTULO 16
- 18CAPÍTULO 17
- 19CAPÍTULO 18
- 20CAPÍTULO 19
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