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Literatura

A Correspondência de Fradique Mendes

Edição BooksWhale em português por Eça de Queirós

Cartas literárias de cosmopolitismo, ironia, crítica cultural e elegância intelectual.

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Introdução do livro

A Correspondência de Fradique Mendes

A Correspondência de Fradique Mendes apresenta uma figura literária cosmopolita por meio de cartas que combinam ironia, estilo, crítica cultural e imaginação biográfica.

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Eça de Queirós morreu em 1900, e A Correspondência de Fradique Mendes foi publicado em 1900. Essas datas sustentam o domínio público desta edição original portuguesa.

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A Correspondência de Fradique Mendes

A correspondencia de Fradique Mendes

por Eça de Queirós

A correspondencia de Fradique Mendes — Eça de Queirós

A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Páscoa, — justamente na semana em que ele regressara da sua viagem à África Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admirável datava de Lisboa do ano remoto de 1867. Foi no Verão desse ano, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, num número já amarrotado da Revolução de Setembro, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam.

Os temas («os motivos emocionais», como nós dizíamos em 1867) dessas cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o título de LAPIDÁRIAS, tinham logo para mim uma originalidade cativante e bem-vinda. Era o tempo em que eu e os meus camaradas de Cenáculo, deslumbrados pelo Lirismo Épico da Légende des Siècles, «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey» — decidíramos abominar e combater a rijos brados o Lirismo íntimo, que, enclausurado nas duas polegadas do coração, não compreendendo dentre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias de Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monótona e interminável confidência de glórias e martírios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre sem igual da Légende des Siècles, iam, numa universal simpatia, buscar motivos emocionais fora das limitadas palpitações do coração — à História, à Lenda, aos Costumes, às Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além disso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poético que me seduzia — o da Modernidade, a notação fina e sóbria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos testemunhar ou pressentir nas ruas que todos trilhamos, nas moradas vizinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes.

Esses poemetos das LAPIDÁRIAS desenrolavam, com efeito, temas magnificamente novos. Aí um Santo alegórico, um Solitário do século VI, morria uma tarde sobre as neves da Silésia, assaltado e domado por uma tão inesperada e bestial rebelião da Carne, que, à beira da Bem-aventurança, subitamente a perdia, e com ela o fruto divino e custoso de cinquenta anos de penitência e de ermo: um corvo, facundo e velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira pelas Gálias, num bando alegre, as legiões de César, depois as hordas de Alarico rolando para a Itália, branca e toda de mármores sobre o azul o bom cavaleiro Percival, espelho e flor de Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura de ouro, correndo o mundo, desde longas eras, à busca de S. Graal, o místico vaso cheio de sangue de Cristo, que, numa manhã de Natal, ele vira passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanás de feitio germânico, lido em Espinosa e Leibnitz, dava numa viela de cidade medieval uma serenada irônica aos astros, «gotas de luz no frio ar geladas»... E, entre estes motivos de esplêndido simbolismo, lá vinha o quadro de singela modernidade, as Velhinhas, cinco velhinhas, com xales de ramagens pelos ombros, um lenço ou um cabaz na mão, sentadas sobre um banco de pedra, num longo silêncio de saudade, a uma réstia de sol de Outono.

Não asseguro todavia a nitidez destas belas reminiscências. Desde essa sesta de Agosto, no Martinho, não encontrei mais as LAPIDÁRIAS: e, de resto, o que nelas então me prendeu, não foi a Ideia, mas a Forma — uma forma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o verso marmóreo de Leconte de Lisle, com um sangue mais quente nas veias do mármore, e a nervosidade intensa de Baudelaire, vibrando com mais norma e cadência Ora precisamente, nesse ano de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros camaradas tínhamos descoberto no céu da Poesia Francesa (único para que nossos olhos se erguiam), toda uma plêiade de estrelas novas onde sobressaiam, pela sua refulgência superior e especial, esses dois sóis — Baudelaire e Leconte de Lisle. Victor Hugo, a quem chamávamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo Todo-Poderoso», não era para nós um astro — mas o Deus mesmo, inicial e imanente, de quem os astros recebiam a luz, o movimento e o ritmo. Aos seus pés Leconte de Lisle e Baudelaire faziam duas constelações de adorável brilho- e o seu encontro fora para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade de hoje, positiva e estreita, que pratica a Política, estuda as cotações da Bolsa e lê George Ohnet, mal pode compreender os santos entusiasmos com que nós recebíamos a iniciação dessa Arte Nova, que em França, nos começos do Segundo Império, surgira das ruínas do Romantismo como sua derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de Leconte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de Dierx, de Mallarmé, e de outros menores: e menos talvez pode compreender tais fervores essa parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e de Taine, e que procura com ânsia e agudeza exercer a crítica, onde nós outrora, mais ingênuos e ardentes, nos abandonávamos a emoção. Eu mesmo sorrio hoje ao pensar nessas noites em que, no quarto de J. Teixeira de Azevedo, enchia de sobressalto e dúvida dois cônegos que ao lado moravam, rompendo por horas mortas a clamar a Charogne de Baudelaire, trêmulo e pálido de paixão:

Capítulo de préviaPart 2Prévia

— Juro! — gritou Vidigal, levantando a mão verídica às acácias que nos cobriam. E imediatamente, para demonstrar a verosimilhança daquela glória, já altíssima para Fradique, contou-me outra, bem superior, e que cercava o estranho homem duma auréola mais refulgente. Não se tratava já de ser estimado por um homem excelso — mas, coisa preciosa entre todas, de ser amado por uma excelsa mulher. Pois bem! Durante dois anos, em Paris, Fradique fora o eleito de Ana de Léon, a gloriosa Ana de Léon, a mais culta e bela cortesã (Vidigal dizia «o melhor bocado») do Segundo Império, de que ela, pela graça especial da sua voluptuosidade inteligente, como Aspásia no século de Péricles, fora a expressão e a flor!

Muitas vezes eu lera no Fígaro os louvores de Ana de Léon, e sabia que poetas a tinham celebrado sob o nome de Vênus Vitoriosa. Os amores com a cortesã não me impressionaram decerto tanto como a intimidade com o homem das Contemplações: mas a minha incredulidade cessou — e Fradique assumiu para mim a estatura dum desses seres que, pela sedução ou pelo gênio, como Alcibiades ou como Goethe, dominam uma Civilização, e dela colhem deliciosamente tudo o que ela pode dar em gostos e em triunfos.

Foi por isso talvez que corei, intimidado, quando Vidigal, reclamando outro sorvete de leite, se ofereceu para me levar ao surpreendente Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que também assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas de Hegel — perguntei a Vidigal se o poeta das LAPIDÁRIAS residia em Lisboa... Não! Fradique viera de Inglaterra visitar Sintra, que adorava, e onde comprara a quinta da Saragoça,no caminho dos Capuchos, para ter de Verão em Portugal um repouso fidalgo. Estivera lá desde o dia de Santo Antônio: — e agora parara em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher a Paris, seu centro e seu lar. De resto, acrescentou Marcos, não havia como Fradique ninguém tão simples, tão alegre, tão fácil. E, se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia. domingo, às duas, depois da missa do Loreto, à porta da Casa Havanesa.

— Valeu? Às duas, religiosamente, depois da missa!

Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como Novalis no patamar de Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia. às duas, religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havanesa!

A correspondencia de Fradique Mendes

por Eça de Queirós

A correspondencia de Fradique Mendes — Eça de Queirós

II

Gastei a noite preparando frases, cheias de profundidade e beleza, para lançar a Fradique Mendes! Tendiam todas à glorificação das LAPIDÁRIAS. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado e repolido esta: — «A forma de V. Ex.a é

um mármore divino com estremecimentos humanos!»

De manhã apurei requintadamente a minha toilette como se, em vez de Fradique, fosse encontrar Ana de Leon — com quem já nessa madrugada, num sonho repassado de erudição e sensibilidade, eu passeara na Via Sagrada que vai de Atenas a Elêusis, conversando, por entre os lírios que desfolhávamos, sobre o ensino de Platão e a versificação das LAPIDÁRIAS. E às duas horas, dentro de uma tipoia, para que o macadame regado me não maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havanesa, pálido, perfumado, comovido, com uma tremenda rosa de chá na lapela, éramos assim em 1867!

Marcos Vidigal já me esperava, impaciente roendo o charuto. Saltou para a tipoia; e batemos através do Loreto, que escaldava ao sol de Agosto.

Na Rua do Alecrim (para combater a pueril emoção que me enleava), perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique as LAPIDA RIAS. Por entre o barulho das rodas, Vidigal gritou:

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Dizia estas coisas enormes numa voz lenta, penetrante — que ia recortando os termos com a certeza e a perfeição dum buril. E eu escutava, varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de corte, permanecesse nos cimos da Poesia Francesa, com a sua Ode à Tomada de Namur, a sua cabeleira e a sua férula, quando o nome do poeta da Lenda dos Séculos fosse como um suspiro do vento que passou — parecia-me uma dessas afirmações, de rebuscada originalidade, com que se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente classificava de insolente. Tinha mil coisas, abundantes e esmagadoras, a contestar: mas não ousava, por não poder apresentá-las naquela forma translúcida e geométrica do poeta das LAPIDÁRIAS. Essa cobardia, porém, e o esforço para reter os protestos do meu entusiasmo pelos Mestres da minha mocidade, sufocava-me, enchia-me de mal-estar: e ansiava só por abalar daquela sala, onde, com tão bolorentas opiniões clássicas, tanta rosa nas jarras e todas as moles exalações de canela e manjerona-se respirava conjuntamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia.

Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, naquela conversação com o familiar de Mazzini e de Hugo, miúdos reparos sobre o Pedro Penedo e o carrascão das Camelas. E na justa ambição de deslumbrar Fradique com um resumo crítico, provando as minhas finas letras, recorri à frase, à lapidada frase, sobre a forma do seu verso. Sorrindo, retorcendo o buço, murmurei: — «Em todo o caso a forma de V. Ex.a é um mármore...» Subitamente, à porta que se abrira com estrondo, surgiu Vidigal:

— Tudo pronto! — gritou. — Despachei o defunto!

O ministro, homem de poesia e de eloquência, interessara-se francamente por aquela múmia dum «colega», e jurara logo poupar-lhe o opróbrio de ser tarifada como peixe salgado. S. Ex. tinha mesmo ajuntado: —«Não, senhor! não, senhor! Há de entrar livremente, com todas as honras devidas a um clássico!» E logo de manhã Pentaur deixaria a Alfândega, de tipoia!

Fradique riu daquela designação de clássico dada a um hierograma do tempo de Ramsés — e Vidigal, triunfante, abancando ao piano, entoou com ardor a Grã-Duquesa. Então eu, tomado estranhamente, sem razão, por um sentimento de inferioridade e de melancolia, estendi a mão para o chapéu. Fradique não me reteve; mas os dois passos com que me acompanhou no corredor, o seu sorriso e o seu shake-handes, foram perfeitos. Apenas na rua, desabafei: — «Que pedante!»

Sim, mas inteiramente novo, dessemelhante de todos os homens que eu até aí conhecera! E à noite, na Travessa do Guarda-Mor (ocultando a escandalosa apologia de Boileau, para nada dele mostrar imperfeito), espantei J. Teixeira de Azevedo com um Fradique idealizado, em que tudo era irresistível, as ideias, o verbo, a cabaia de seda, a face marmórea de Lucrécio moço, o perfume que esparzia, a graça, a erudição e o gosto!

J. Teixeira de Azevedo tinha o entusiasmo difícil e lento em fumegar. O homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço e teatral. Concordou no entanto que convinha ir estudar «um maquinismo de pose montado com tanto luxo!»

Fomos ambos ao Central, dias depois, no funda duma tipoia. Eu, engravatado em cetim, de gardênia ao peito. J. Teixeira de Azevedo, caracterizado de «Diógenes do século XIX», com um pavoroso cacete ponteado de ferro, chapéu braguês orlado de sebo, jaquetão encardido e remendado que lhe emprestara o criado, e grossos tamancos rurais!... Tudo isto arranjado com trabalho, com despesa, com intenso nojo, só para horrorizar Fradique — e diante desse homem de cepticismo e de luxo, altivamente afirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral do remendo e a filosófica austeridade da nódoa! Éramos assim em 1867!

Sumário

Nesta edição

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16
  17. 17Part 17
  18. 18Part 18
  19. 19Part 19

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