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Encarnação
葡萄牙语 BooksWhale 版本 · José de Alencar
Um romance tardio de Alencar sobre memória, idealização feminina, amor e identidade.
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图书简介
Encarnação
Encarnação retoma temas caros a José de Alencar: paixão, imagem ideal, vida doméstica e conflito entre presença e lembrança. Publicado postumamente, o romance amplia o conjunto de suas narrativas urbanas e sentimentais.
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José de Alencar morreu em 1877, e Encarnação foi publicado pela primeira vez em 1893; essas datas sustentam a base de domínio público desta edição no idioma original.
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Encarnação
José de Alencar
Conheci outrora uma família que morava em São Clemente.
Havia em sua casa agradáveis reuniões de que fazia os encantos uma filha, bonita moça de dezoito anos, corada como a aurora e loura como o sol.
Amália seduzia especialmente pela graça radiante e pela viçosa e ingênua alegria, que manava dos lábios vermelhos como dos olhos de topázio, e lhe rorejava a lúcida beleza.
Sua risada argentina era a mais cintilante das volatas que ressoavam entre os rumores festivos da casa, onde à noite o piano trinava sob os dedos ágeis da melhor discípula do Arnaud.
Acontecia-lhe chorar algumas vezes por causa de um vestido que a modista não lhe fizera a gosto, ou de um baile muito desejado que se transferia; mas essas lágrimas efêmeras que saltavam em bagas dos grandes olhos luminosos, iam nas covinhas da boca transformar-se em cascatas de risos frescos e melodiosos. Tinha razão de folgar.
Era o carinho dos pais e a predileta de quantos a conheciam. Muitos dos mais distintos moços da Corte a adoravam.
Ela, porém, preferia a isenção de menina; e não pensava em escolher um dentre tantos apaixonados, que a cercavam.
Os pais, que desejavam muito vê-la casada e feliz, sentiam quando ela recusava algum partido vantajoso. Mas reconheciam ao mesmo tempo que formosa, rica e prendada como era, a filha tinha o direito de ser exigente; e confiavam no futuro.
Outra e bem diversa era a causa da indiferença da moça.
Amália não acreditava no amor. A paixão para ela só existia no romance.
Os enlevos de duas almas a viverem uma da outra não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real.
Tinha sobre o casamento idéias mui positivas.
Considerava o estado conjugal uma simples partilha de vida, de bens, de prazeres e trabalhos.
Estes, não os queria; os mais, ela os possuía e gozava, mesmo solteira, no seio de sua família. Era feliz; não compreendia, portanto, a vantagem de ligar-se para sempre a um estranho, no qual podia encontrar um insípido companheiro, se não fosse um tirano doméstico.
Estes pensamentos, Amália não os enunciava, nem os erigia em opiniões. Eram apenas os impulsos íntimos de sua vontade; obedecendo a eles, não tinha a menor pretensão à excentricidade.
Ao contrário, como sabia do desejo dos pais, aceitava de boa mente a corte de seus admiradores. Mas estes bem percebiam que para a travessa e risonha vestal dos salões, o amor não era mais do que um divertimento de sociedade, semelhante à dança ou à música.
Conservando sua independência de filha querida, e moça da moda, Amália não nutria prejuízos contra o casamento, que aliás aceitava como uma solução natural para o outono da mulher.
Ela bem sabia, que depois de haver gozado da mocidade, no fim de sua esplêndida primavera, teria de pagar o tributo à sociedade, e como as outras escolher um marido, fazer-se dona de casa, e rever nos filhos a sua beleza desvanecida.
Ate lá, porém, era e queria ser flor. Das suas lições de botânica lhe ficara bem viva esta recordação, que o fruto só desponta quando as pétalas começam a fanar-se; se vem antes disso, eiva.
Esta moça pertencia a uma variedade de mulher, que se pode bem classificar como o gênero rosa. São elegâncias que só florescem bem
no clima ardente do baile, ao sol do gás. A luz é a alma de sua formosura. Na sombra desfalecem e murcham.
Amália vivia no salão; só o deixava para repousar. Seu dia era a noite com os lustres por astros. Quando em toda a cidade não havia divertimento algum que a atraísse, ela passava a noite em casa; mas com o seu piano, o seu contentamento e a sua graça improvisava uma festa.
预览章节VI预览
No dia seguinte á partida, pelo fim da tarde, a familia Veiga achava-se reunida como de costume na varanda, que ficava á esquerda, no centro
do edificio.
Tinham-se levantado da mesa de jantar e tomavam
café gosando da fresca.
D. Felicia conversava com o marido ácerca do Dr. Henrique Teixeira. Tinha ella notado o interesse e attenção que a filha mostrara ao medico, á quem vira na vespera pela primeira vez; assim como a rapida intimidade que se estabelecêra
entre ambos.
Talvez que esse impulso da moça tão voluvel e caprichosa sempre com os outros, e ainda mais com os seus apaixonados, fosse o indicio de uma inclinação nascente. O Sr. Veiga acolhia pressuroso essa esperança, felicitando-se com a mulher pela realização do seu mais ardente desejo e, como
homem positivo, pensava já nos meios praticos de
effectuar o negocio:
— Amanhã
mesmo vou tirar informações, disse elle, e accrescentou logo: Por cautela! Mas
estou convencido de que hão de ser das melhores.
Pareceu-me homem sério.
Emquanto os pais, á meia voz, se occupavam do seu futuro, Amalia percorria a varanda, repetindo de memoria, somezzo, a sua parte do dueto, cantado na vespera. Avivava assim a recordação dos applausos que a tinham saudado nos trechos mais lindos; e ao mesmo tempo apreciava
severamente a sua execução
para corrigil-a e dar-lhe maior realce.
Approximava-se ás vezes do balaustre onde collocára a taça de porcellana e molhava no café já frio os labios, que ella sugava depois com um gesto gracioso para continuar os seus exercicios
de vocalisação.
Em uma dessas occasiões seus olhos cahiram sobre a casa visinha, que muitas outras vezes lhe tinha da mesma fórma interceptado a vista, sem que excitasse o menor reparo de sua parte. Era um edificio como qualquer de tantos que povoavam
a rua por todos os lados.
Nesse momento porém, seu espirito recebeu uma impressão mais definida. Lembrou-se de que era aquella habitação desse Carlos, de quem na vespera lhe fallára com tanta amizade e calor o
Henrique Teixeira.
Todas as particularidades de sua conversação com o medico lhe acudiram á mente. Esquecendo o dueto, repassou de memoria as palavras que ouvira ácerca do viuvo e então, como já não estava dominada do sestro de motejar e metter á ridiculo tudo quanto era sentimental, compenetrou-se
mais das observações do doutor e dos
factos por elle referidos.
Quando absorta nestes pensamentos olhava o edificio meio occulto pelos bambús e avermelhado pelo arrebol, viu Hermano que passava entre as
arvores, e aproximava se do banco favorito.
A moça, disfarçando a sua curiosidade, recolheu o airoso busto na penumbra da columna, para observar o solitario passeiador, que sentára-se á pequena distancia do muro da chacara, em lugar
onde ella o via perfeitamente por entre a folhagem.
Impressionada pela narração de Teixeira, examinou a phisionomia, e notou que ella não tinha nesse momento a expressão de recolhimento e abstracção propria do homem que está só. O seu olhar não era de contemplação; animava-o o raio
do espirito em communicação com outro espirito:
não era o olhar que vê, mas o olhar que falla, que
transmitte a impressão em vez de recebel-a.
Uma vez Hermano ergueu-se; foi até a platibanda, colheu uma flor, um lírio, e tornando a seu lugar,
conservou-o na mão com o gesto expressivo de quem o mostrasse a outrem sentado à sua direita.
Então operou-se em Amália um fenômeno psicológico, estranho para ela que vivia unicamente no presente, porém em si mui natural e freqüente. Assim como na tela de um transparente as figuras assomam de repente quando as colocam a contraluz, da mesma forma na memória da moça desenharam-se cenas da infância
esquecidas por tantos anos.
预览章节D. Felícia voltou-se para o seu hóspede, e disse-lhe com um sorriso:预览
-- Pode; ele está no gabinete.
Guiado pelo aceno de D Felícia, Hermano dirigia-se ao gabinete do Sr. Veiga, que tinha por costume fazer diariamente a sua caixa particular antes do chá.
Ninguém ouvira na sala o breve diálogo dos dois namorados; e menos a pergunta que Amália transmitira à mãe, calando aliás a verdadeira intenção que Hermano lhe havia dado. Mas as pessoas presentes suspeitavam que se tratava do pedido formal de um casamento, que todas já previam.
Quanto a D. Felícia, tinha certeza do fato. A confusão da filha e o alvoroço que se traia na voz e nas palpitações do seio, revelavam bem o sentido da pergunta de Hermano e a significação do seu ato.
Amália, para esquivar-se à curiosidade geral que lhe interrogava a atitude e a expressão da fisionomia, fora sentar-se ao piano; e tocava com um brio nervoso. para dissimular na agitação do exercício musical e na excitação da fadiga os sobressaltos involuntários bem como os rubores que lhe abrasavam as faces e o colo.
Pelo seu gosto se teria retirado da sala; mas Hermano devia ressentir-se dessa ausência, e ela mesma não podia privar-se da sua presença pelo resto da noite. Sair para voltar depois da decisão era expor-se ainda mais ao reparo.
Durou meia hora a expectativa.
Ouviu-se abrir a porta do gabinete e todos os olhos volveram-se para o corredor, com exceção dos de Amália que se abaixaram a pretexto de decifrar uma frase.
Ela não viu nada, nem ali, nem no papel, nem em torno; tinha uma névoa nos olhos. Ouviu, porém, uma voz comovida pronunciar seu nome e sentiu que lhe apertavam a mão.
Quando recobrou-se desse soçobro e ergueu-se correndo a sala com o olhar, Hermano partia.
Voltara ele do gabinete grave e sombrio; despedira-se de Amália e da dona da casa com um aperto de mão, cortejara as outras pessoas e retirou-se sem uma explicação daquele procedimento estranho.
Fora tal a surpresa, que ninguém, nem D. Felícia, tivera a presença de espírito necessária para fazer a menor observação. Não havia para este fato senão uma interpretação: e foi a que todos lhe deram imediatamente, apesar de a considerarem inadmissível. Hermano tinha sofrido uma repulsa do Sr. Veiga.
Mas como era isso possível, sabia-se do desejo que tinha o capitalista de casar a filha; e dos avanços que a família fazia ao pretendente, e tão a contento da moça?.
D. Felícia foi ao encontro do marido que entrava na sala e perguntou-lhe a meia voz, com sofreguidão, o que se havia passado com Hermano.
— Nada, respondeu o Sr. Veiga mais admirado do tom do que da pergunta. Ofereceu-me recomendações para a Europa e prometeu dar-me algumas informações úteis para a viagem.
— Só? perguntou a senhora.
— Só.
O pasmo foi geral. D. Felícia não se pôde conter.
— Não se precisa das suas informações; ele que as guarde e nos livre de sua presença.
O Borges encartou a sua mofina:
— Eu sempre o tive por maluco.
O Sr. Veiga dissera a verdade. Quando Hermano estava no gabinete, o capitalista estava no meio de uma adição.
Para não perder o trabalho começado, e usando já da liberdade de futuro sogro; pediu ao hóspede o favor de esperar um instante, dois minutos, enquanto fechava a conta.
Mal sabia ele que estes dois minutos iam decidir da felicidade da filha.
Hermano esperou, com a emoção que assalta todo homem de caráter ao tomar grande responsabilidade. Não era a primeira vez que tinha essa emoção. Lembrou-se do momento em que pedira a mão de Julieta. O passado, que parecia morto, ressurgiu e apoderou-se dele.
目录
本版本内容
- 01Full text
- 02VI
- 03D. Felícia voltou-se para o seu hóspede, e disse-lhe com um sorriso:
- 04D. Felícia voltando à conversa que interrompera