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Mistérios de Lisboa

葡萄牙语 BooksWhale 版本 · Camilo Castelo Branco

Um vasto romance folhetinesco de identidade, segredo familiar, paixão, crime e destino.

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图书简介

Mistérios de Lisboa

Mistérios de Lisboa é um dos grandes romances narrativos de Camilo Castelo Branco, cheio de revelações, identidades ocultas, paixões, conventos, vingança e destinos cruzados. A obra combina melodrama, crítica social, aventura sentimental e arquitetura folhetinesca de grande alcance.

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Camilo Castelo Branco died in 1890, and Mistérios de Lisboa was first published in 1854; these dates support public-domain status for the Portuguese original.

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Mistérios de Lisboa

Camilo Castelo Branco

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Era eu um rapaz de quatorze annos, e não sabia quem era, Vivia na companhia de um padre, e de uma senhora, que diziam ser irmã do Padre, e de vinte rapazes, que eram meus condiscipulos. D'estes, algum mais cultivado em conhecimentos do mundo, perguntava-me se eu era filho do padre. E eu não sabia responder-lhe. Ora este padre parecia um homem muito virtuoso; mas nem por isso seria extraordinario eu ser seu filho. Não o ouvira eu nunca psalmear na harpa cantares. de contrição; mas é rigorosamente logico que não haja David sem harpa ? ! Muitas vezes sentio atrevido impetode dizer-lhe :—<Mestre ! perguntam-me se sois meu pae;. deverei responder que não, para me deixarem ?> “Nunca, porém, fiz isto, porque entendi que não meJó. M ysterios de Lisboa “era uma das primeiras necessidades da vida saber de “quem era filho. :

Propenso para cogitações elevadas, erguendo os olhos -ao céo, via eu, muitas vezes, voar um passarinho. E di-zia - commigo: «perguntem lá áquella creatúra de Deus quem é seu pae? Como ella corta por tão alto um espaço que é todo deila! Que liberdade, e que independencia! 'O meu espirito é como aquella andorinha ! Eu tenho um mundo tão amplo para voejar com elle! Se eu - podér subir, subir, subir até Deus, não terei encontrado . meu pae? isto da terra parece-me uma cousa tão air quena!...> Seria isto uma frioleira de criança; mas eu pensava assim, e não gostava que me acordassem n'estê meu “berço, em que eu proprio me embalava, como se assim -quizesse indemnisar-me de carinhos, que nunca recebera ao pé do berço da minha infancia. «Quem mais vezes me inquietava; nestas ociosas; illu-sões era o padre. Eu aborrecia o latim e a logica e os livros e a sciencia. A andorinha era o meu modelo, e a “andorinha não sabia latim. «Isto de que serve,—dizia eu Tolheando, aborrecido, o Tito-Livio-—será necessario devorar meia existencia, consumil-a em um luxo de palavrões estereis, para no fim de tudo ficar o mesmo homem, sem ao menos ter descoberto o sexto sentido do Corpo humano?»

«Não affirmo que Fase textualmente assim o meu raciocinio; mas, afóra as palavras que a sociedade me ensinou, e que eu lhe não agradeço, a idéa era aquella. “Mas a idéa do padre-era outra. Constrangia-me a estudar,. e especialisava-me, entre os meus condiscipulos. Se o carinho. fosse symptoma. de paternidade, nunca eu devia inspirar suspeitas de ser filho do-mestre.- Eu não y Mysterios de Lisboa | 17 tinha férias, nem passeios, nem premios, nem elogios, Era um pária, um bastardo de pae, de mestre, de todo o mundo.

E, comtudo, dizia-me a pobre irmã do padre, que eu era o discípulo amado de seu irmão. Explicava, a seu modo, aquella theoria de amar, e chegava á triumphal conclusão de que, sendo a sciencia o meu patrimonio, quanto mais cultivado o recebesse das mãos do mestre, mais sagrados titulos recebia para a minha gratidão. - Custava-me a perceber isto; mas, sem grande esforço de intelligencia, comprehendi que era pobre. Não me apaixonava por isso. A andorinha passava núa nas campinas do céo; e adormecia á tarde, sem grangear o alimento da manhã seguinte.

Estas razões, dadas assim áquella boa D. Antonia, faziam-a chorar. A sensivel mulher chorava com qualquer cousa, e mais não conhecia ainda o mundo... ou parecia não conhecel.o. Mas a andorinha não remediava todas as minhas ancias de curiosidade. Eu queria saber quem era. Grandezas não me passavam pelo pensamento, nem eu podia phantasial-as. Sem subsidio, sem adulação, sem uma dadiva mysteriosa, que me fizesse scismar em um segredo de familia, que tinha eu com a grandeza tão da desmentida pela minha jáqueta ordinaria !.

预览章节livro de sete sélios, que só poderia ser aberto pela mão预览

de um cadaver, como elle me disse, cuidando curar-me com veneno a ferida que pedia balsamo. Para que viera aquelle anjo limpar-me as lagrimas da orphandade ? Para substituir a estas as mais amargas de um filho, que tem a consciencia das torturas mysteriosas de sua mãe sem. poder acudir-lhe, sem poder suavisar-lh'as com a esperança de um futuro melhor ! Eu principiei muito cêdo a recolher o meu espirito. “ em dolorosas meditações, improprias da minha idade. Não: "soube o que era viço de infancia, nem ideal de ventu“ras sonhadas n'essa quadra de innocentes desejos. A;

Lad realidade em mim principiou commigo, porque não ha. poesia nos pezares, nem elevações extaticas para O céo,. “quando se pisam espinhos, onde deveram desabrochar-. 492 Mysterios de Lisboa E, portanto, eu não podia distrahir os meus cuidados -do viver afflictivo de minha mãe. A tristeza tornára-se uma doença, que eu sentia enervar-me a vida, e exhaurir-me de alentos para esperar lhe remedio. Ha dores silenciosas, que nos incutem respeito, quando o que as -“soffre nos não pede compaixão para ellas; a minha dor "era assim. | No fim de tres mezes, soube que minha mãe vivia: "mas poucas linhas revelam que vida era a sua. O padre leu-me este bilhete, porque as palavras, que contimha, não devia eu sabel-as todas:

«Este homem suspeitou do creado Bernardo, e despe-diu-o. liquei privada d'esse bom creado, que era a mi-. nha esperariça, e que tanto me custára a movel-o em meu favor. Não tenho podido achar um meio de lhe es«crever. Estas mesmas linhas escrevo-as a tremer, porque mão sei se irão caír na mão do conde. Este barbaro inventa caprichos de maldade para flagellar-me. Sinto-lhe um desejo diabolico da minha morte. Não se decide a matarme!... Será uma cobardia? Será o prazer de “ver-me penar? E meu filho? Falla-lhe de mim ? Tenho-o tão impresso na imaginação!... Se eu não sentisse este “amor de mãe, que me abraza o coração, bastaria O reflexo do amor, da saudade... oh meu Deus!... da saudade de um anjo, que foi d'este mundo, legando-me a herança de lagrimas, que em breve legarei ao nosso infeliz filho! Snr. padre e por caridade não poupe carinhos a esse menino! Seja-lhe pae pelo amor, pela religião, pela piedade, e pelo bom coração que Deus lhe deu.»

O padre, terminando a qeituira incompleta d'este bilhete, abraçou- me com extraordinaria effusão, e chorou “ «comigo. Mysterios de Lisboa | 43 No dia seguinte disse-me D. Antonia, que um creado de farda me procurava; mas que, sem licença de seu irmão, não consentia que eu lhe fallasse, O creado instava que não era pessoa suspeita; mas a tímida senhora não podia transgredir os preceitos de seu irmão. Ora O padre estava fóra de casa, e não era certa a hora em que recolhia.

Quando vi entretida D. Antonia, corri para o creado, que não conheci. Perguntou me o meu nome, porque elle tambem me não conhecia. Certificou-se de mim, perguntando me se eu estava certo de ter sido procura«do por uma senhora que se dizia minha mãe. Esta pergunta fez-me vacillar na resposta, porque não sei como imaginei que aquelle homem era um enviado «do algoz de minha mãe. O creado vendo-me em embaraços nada semelhantes à decisão com que viera fallar-lhe, disse-me que não re“ceiasse dizer a verdade, porque elle era o confidente de minha mãe no tempo em que ella viera ver-me.

E, de resente, lembrou-me o escripto que ouvira ler um dia antes, e o nome do creado que minha mãe lamentava ter perdido. — Como se chama ?—lhe disse eu. — Bernardo. — Ah! então de certo é meu amigo!...E tomando-me nos braços, onde eu me lançára com alegria, o pobre homem apertava-me, e soluçava não sei que palavras, que bem se via lhe vinham do fundo do “coração. | — O filho da minha querida senhora ! — exclamava elle—O filho d'aquella santa, que vae d'este mundo tão passada de dores!

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本版本内容

  1. 01Full text
  2. 02LIVRO PRIMEIRO.
  3. 03livro de sete sélios, que só poderia ser aberto pela mão
  4. 04ARE A )
  5. 05AA 5 RR |
  6. 06E — MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. 1 | 7
  7. 07| MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. 1 3
  8. 08MYSTESIOS DE L'SBOA — VOL. 1 RS E
  9. 09) A PRC
  10. 10parte, declaro-lhé que esta senhora não precisa de al |
  11. 11Livro Negro que o rir do conde de Santa Barbara era
  12. 12— MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, I I4
  13. 13€ 30 DE AGOSTO DE 1832
  14. 14XXI A
  15. 15FIM DO LIVRO PRIMEIRO
  16. 16LIVRO SEGUNDO
  17. 17LE 4 NR =:
  18. 18FIM DO PRIMEIRO VOLUME
  19. 19ASTEL )
  20. 20OBRAS
  21. 21CAMILLO CASTELLO BRANCO
  22. 22EDIÇÃO POPULAR
  23. 232 LITII
  24. 24VOLUME II
  25. 25TYPOGRAPHIA DA PARCERIA
  26. 26ANTONIO MARIA PEREIRA —
  27. 27RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48
  28. 28CAMILLO CASTELLO BRANCO
  29. 29MYSTERIOS
  30. 30FISBOA
  31. 31VOLUME SEGUNDO
  32. 32PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
  33. 33LIVRARIA EDITORA
  34. 34LISBOA
  35. 35OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
  36. 36———— << IO0O€C—
  37. 37LIVRO SEGUNDO
  38. 38AM DR PR
  39. 39MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, à 2
  40. 40| COPO.
  41. 41BR. . LM N
  42. 42Iê MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, I1 RP =
  43. 43FIM DO LIVRO SEGUNDO
  44. 44LIVRO TERCEIRO
  45. 45Ê — MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II 9
  46. 46CERCO,
  47. 47Livro Negro, que se acha já publicado na sua maio
  48. 48— MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II XI
  49. 49- MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. 12
  50. 504 MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, II I4
  51. 51NOTA
  52. 52BERSIEROS DE, LISBOA.
  53. 53LIVRO QUARTO
  54. 54VII E
  55. 55; MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. 16
  56. 56FIM DO SEGUNDO VOLUME
  57. 57CAMILLO |
  58. 58RIA ANTÓNIO MARIA PEREIR
  59. 59OBRAS
  60. 60— “CAMILLO CASTELLO BRANCO
  61. 61EDIÇÃO POPULAR
  62. 62>-< EPE ERVA
  63. 63- VOLUME HI
  64. 64TYPOGRAPHIA DA PARCERIA
  65. 65ANTONIO MARIA PEREIRA —
  66. 66RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48
  67. 67PAREI
  68. 68“OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
  69. 69CAMILLO CASTELLO BRANCO
  70. 70MYSTERIOS
  71. 71VOLUME TERCEIRO
  72. 72| PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
  73. 73LISBOA
  74. 74LIVRO QUARTO
  75. 75- MÁNEL, THÁCES, PHÁRES.
  76. 76— MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II 3
  77. 77PINHO.
  78. 78Livro Negro algumas paginas, de que copiamos as ultr,
  79. 79MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II 5
  80. 80: * MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II
  81. 81EREE
  82. 82. ARENA TER USD SA
  83. 83- 'MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, HI 7
  84. 84parte, vejo que ha as melhores disposições; mas nã
  85. 85— ERA - DR - TRA
  86. 86MYSTERIOS DE LISBOA — VOL UI Q
  87. 87RESP VIVE.
  88. 88UM EMISSARIO DE MR. ARTHUR DE MONTFORT. |
  89. 89PARTILHA DE TODOS OS HOMENS ULTRAJADOS PELOS HO-
  90. 90MYSTERIOS DE LISBOA — VOL, III 13
  91. 91«CATASTROPHE
  92. 92S MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. IH A
  93. 93XXVIH
  94. 947 REIS TRRIOS. DE LISBOA — VOL. HI 15
  95. 95SCHAMA-ME DO FUNDO DA SEPULTURA E EU QUEBRA-:
  96. 96REI A PEDRA PARA DESCER AOS TEUS OSSOS.» |
  97. 97RIA E
  98. 98MYSTERIOS DE LISBOA — VOL. II 7.
  99. 99CONCLUSÃO
  100. 100EPÍLOGO
  101. 101FIM DO TERCEIRO E ULTIMO VOLUME

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