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文学
O Matuto
葡萄牙语 BooksWhale 版本 · Franklin Távora
Um clássico de Franklin Távora sobre sociedade, desejo, honra e mudança.
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图书简介
O Matuto
O Matuto reúne personagens e conflitos que revelam as tensões de seu tempo e a força narrativa de Franklin Távora.
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预览章节Meu amigo阅读预览
Eis o Matuto , promettido ha perto de dois annos, e só agora publicado, por circumstancias que não vem ao nosso caso revelar.
Fica fóra deste livro a carta que escrevi, tendo a vista as objecções de amigos e inimigos á fundação, ou, antes ao reconhecimento de uma litteratura que suponho, sinão formada, em trabalho de formação, e a que denominei— Litteratura do norte .
Nessa carta, além de examinar as objecções, estudo á luz do criterio historico, que me pareceu mais natural e justo, a rebelião da nobreza e posteriormente a dos mercadores em Pernambuco, a qual trouxe a guerra que passou á historia com o nome de— Guerra dos mascates .
Por encurtar tempo e diminuir paginas deixo a carta na gaveta com a continuação, já prompta, da presente historia.
Si me resolver, sahirão a lume os dois escriptos na mesma occasião que, segundo suspeito, não tardará muito.
Isto não é uma promessa.
Não prometto nada, para não me arriscar a faltar, como por vezes me tem acontecido.
Tempo, circumstancias, imprevisto—eis o tudo, ou pelo menos o essencial da vida.
Rio—Maio—78.
F. T.
预览章节Capítulo I预览
Pasmado é uma velha povoação, outr'ora aldeia de indios, duas leguas ao norte de Iguarassú, na estrada de Goyanna. É celebre por seus ferreiros, ou mais especialmente pelas facas de ponta que estes fabricam, as quaes passam pelas melhores de Pernambuco onde têm estendida e tradicional nomeada.
Não ha terra que se não distinga por usança, defeito, virtude ou particularidade local, que vem a ser o seu como traço caracteristico, a sua feição dominante. Quem passa por Tigipió , na estrada de Jaboatão, encontra a cada canto tocadores de viola que vêm alegres, o pe no mato pé no caminho . Dos casebres do Barro o que logo se mostra aos olhos do viandante são mulheres metediças, com as cabeças cobertas com flores, os cabeções arrendados e decotados, os seios quasi de fóra. Costumes dos povoados onde ainda não tiveram grande entrada o trabalho e a instrucção.
Passando-se por Goyanna ouve-se d'aqui uma trompa, d'alli um baixo, adiante um piston, além um tromboni, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma harmonia ou uma melodia qualquer, e não se vê sala nem corredor que não tenha nas paredes uma, duas ou tres ordens de gaiolas com passarinhos cantadores e chilreadores. Ha ahi o instincto musico da Bohemia.
Quem atravessa Pasmado pela primeira vez tem a illusão de que todas as arapongas da mata proxima estão alli a soltar seus estridulos accentos. Mas logo vê homens tisnados batendo com o martello sobre a bigorna, folles assopradores, carvões ardentes e flammejantes. Então a illusão muda. O que parece é que todas as forjas de Vulcano foram transportadas para aquelle immenso laboratorio de instrumentos mais destruidores do que conservadores da vida e do socego alheio.
Neste particular, o de ser largo e opulento mercado de armas malfazejas, talvez Pasmado só possa contar em todo o imperio brazileiro uma rival—a côrte do sobredito imperio, na qual a navalha do capoeira disputa a primazia, em genero, numero e caso, á faca do matuto do norte. A côrte e a provincia neste ponto cortam-se bem. Uma não tem que fallar da outra.
No que Pasmado se parece com todos os velhos povos, é em ter casas esburacadas; entulhos e matos pelo meio das ruas; aqui uma baixa, alli um barreiro, onde, de inverno, coaxam os sapos dia e noite, respondendo á vozeria desentoada dos seus semelhantes que moram nas moitas formadas por dentro dos largos, sem licença nem prohibição da municipalidade.
A rua mais publica e principal da povoação é aquella por onde corre a propria estrada. Perto ficam os olhos-d'agua nativa onde os moradores vão prover-se da de que precisam, quando não aparam, por sua commodidade, como costumam, em potes e gamellas a que cahe das biqueiras da casa durante as chuvas.
O certo é que, ou indo buscal-a nas fontes ou aparando-a na porta da casa, não curtem sede os moradores de Pasmado dias e noites, ainda de verão, como curte a pobreza desta esplendida e orgulhosa cidade—primeira capital da America-do-sul.
Em um rancho ou garapeira que se via algumas dezenas de passos antes da povoação, estavam reunidos, por uma noite de 1706, á roda de um fardo de fazendas varios matutos que voltavam do Recife, onde tinham ido vender algodão. Entre elles havia dois almocreves das proximidades de Goyanna, um por nome Francisco, o outro Victorino.
O rancho não era mais do que o prolongamento da garapeira, com a qual tinha comunicação interior. Era, como são taes pontos, apenas envarado até meia altura e coberto de telhas. De um lado estava a longa mangedoura em que os cavallos dos rancheiros passavam a noite aproveitando, de mistura com alguns pés de capim, cortados de tarde, os talos e retraços que nella tinham deixado os cavallos dos rancheiros na noite anterior. Do outro lado o alpendre mostrava-se inteiramente livre, como convinha, a fim de terem os hospedes espaço para as suas rêdes, que elles armavam de um enchamel para outro, e donde a qualquer hora da noite podiam ver os seus animaes alguns passos de distancia, comendo si havia o que, ou estudando como muitas vezes acontecia. O dono da garapeira, responsavel pela segurança dos animaes, fechava as portas do puchado quando via os rancheiros recolhidos, e só reapparecia ahi de madrugadinha para receber destes a respectiva paga. Muitas vezes, estava elle ainda deitado quando ouvia uma voz que lhe dizia:
预览章节Capítulo II预览
Francisco principiou assim:
— «O sol estava a sumir-se, quando ouvimos, já arranchados ao pé da oiticica ramalhuda, que fica adiante da casa de Valentim obra de duas leguas, uns gemidos e uns queixumes que cortavam o coração a quem os escutava.
— «Quem me socorre? Christãos, filhos de Deus, acudi-me» dizia a voz: «Ai que dôr! Não tenho quem me metta a véla na mão. Ai que morro neste mato sem ter quem me chame pelo nome de Jesus.»
«Seu sargento-mór João da Cunha, com quem eu vinha de Goyanna, e que era o dono do comboyo, —si por informações, ou por prevenção, não o sei bem dizer—viu logo no affligido um velhaco; e quando, assim que chegou aonde nós estavamos, arrastando-se com muito trabalho e gemendo sempre, elle lhe pediu, com voz sumida um lugar entre os arrieios para passar a noite junto de quem o pudesse ajudar na hora de morte, reconheceu no pobre o Valentão-da-Timbaúba . Todos nós o reconhecemos tambem pelo olho furado e a perna quebrada.
— «Estou prompto a consentir que você pernoite entre nós, mas ha de ser com uma condição» disse-lhe seu sargento-mór. Valentim respondeu: «Farei tudo o que vossa senhoria ordenar, contanto que me deixe morrer entre filhos de Deus.»
— «Você ha de dormir amarrado pelas mãos do Francisco debaixo de minhas vistas no tronco desta oiticica.»
— «Ai meu senhor! tornou Valentim. Compadeça-se do pobre enfermo. A ninguém offendi nesta vida para merecer tanta crueza.»
— «Si não lhe serve a condição, vá morrer longe daqui enquanto é cêdo.»
«A estas palavras de seu João da Cunha, Valentim afastou se do lugar sem mais demora, gemendo mais do que d'antes. Todos nós fizemos tenção de não pregar olho essa noite, mas o enfado da viagem tinha vencido a todos algumas horas depois. Só quem não dormiu foi seu sargento-mór, que para fazer crer que estava deitado, mandou pôr dentro da rêde delle um surrão carregado, e junto della entre duas caixas de fazenda, se sentou escondido como quem fazia tocáia a veado, esperando pelo ladrão, com o bacamarte armado, por cima da caixa que lhe ficava na frente.»
«Quando foi lá pelas tantas, um vulto veio tomando chegada pé ante pé. Estava nú da cintura para cima. Tinha as calças arregaçadas e trazia uma arma de fogo na mão. Quando o ladrão ia a pôr a mão no cabresto de um dos animaes que estavam comendo milho nos embornáes defronte da oiticica, seu sargento-mór desabrochou-lhe fogo. Todo o rancho accordou atordoado e ganhou mão das armas. Eu fui o primeiro que corri ao ponto onde estavam os animais. Faltava um, e o ladrão tinha desapparecido. Seu sargento-mór ficou muito zangado com a perda do seu cavallo, e ainda mais por ter errado o tiro. Mas que se havia de fazer?»
— Gosto de um cabra damnado assim como o Valentim! disse um dos matutos que ouviam a narração.
— É verdade, disseram outros. Fez o que quiz, e acabou antes do amanhecer.
— Sim, mas, quando amanheceu—prosseguiu Francisco—e se viu o rastilho de sangue que elle foi deixando pelo caminho afóra, seu sargento-mór mandou que eu e Mameluco, seu pagem de confiança, montassemos nos melhores cavallos e lhe fizessemos companhia, guiados pelo rastilho, em busca do Valentão.
«O comboyo seguiu para o Sul, e nós tiramos para o poente. Pouco adiante o rastilho perdeu-se no mato; mas, nós entramos por elle, e fomos dar em um riacho.
«Ahi, bem na beira, debaixo de uma emburana, estava o cabra.
— «Acaba de matar este negro!» disse seu sargento-mór a Mameluco.
«Mas, não foi preciso fazer nada mais. Valentim estava morto.»
目录
本版本内容
- 01Meu amigo
- 02Capítulo I
- 03Capítulo II
- 04Capítulo III
- 05Capítulo IV
- 06Capítulo V
- 07Capítulo VI
- 08Capítulo VII
- 09Capítulo VIII
- 10Capítulo IX
- 11Capítulo X
- 12Capítulo XI
- 13Capítulo XII
- 14Capítulo XIII
- 15Capítulo XIV
- 16Capítulo XV
- 17Capítulo XVI
- 18Capítulo XVII
- 19Capítulo XVIII
- 20Capítulo XIX
- 21Capítulo XX
- 22Capítulo XXI
- 23Capítulo XXII
- 24Capítulo XXIII
- 25Capítulo XXIV
- 26Capítulo XXV
- 27Capítulo XXVI
- 28Capítulo XXVII
- 29Capítulo XXVIII
- 30Capítulo XXIX