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Raios de extincta luz
葡萄牙语 BooksWhale 版本 · Antero de Quental
Os poemas de juventude de Antero de Quental revelam inquietação espiritual, aspirações românticas e os primeiros caminhos da sua voz.
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图书简介
Raios de extincta luz
Raios de extincta luz reúne poemas de Antero de Quental do ciclo juvenil de 1859 a 1863 e composições posteriores. Imagens amorosas, inquietações religiosas e desejos de liberdade convivem com sonetos, poemas narrativos e versões literárias realizadas pelo próprio autor. A edição em português inclui a carta autobiográfica a Wilhelm Storck, permitindo acompanhar a formação e as mudanças da sua voz poética.
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Antero de Quental morreu em 1891. A edição parte do original português em domínio público disponível no Project Gutenberg; esta base não abrange acréscimos editoriais nem ilustrações posteriores.
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Raios de extincta luz
Antero de Quental
预览章节CARTA AUTOBIOGRAPHICA预览
DIRIGIDA AO PROFESSOR WILHELM STORCK
Traductor dos Sonetos completos
Ponta Delgada (ilha de S. Miguel, Açores), 14 de maio de 1887.
Ex.^{mo} Snr.
Só agora me chegou ás mãos a sua estimada carta de 23 de abril ultimo, pelo facto de me encontrar, ha dois mezes, n'esta ilha (que é a minha patria) trazido aqui por urgentes negocios de familia. A demora das communicações com o continente explica este atrazo.
Agradeço a v. ex.^a as amaveis e para mim tão honrosas expressões de sua carta, e nada me póde ser, como poeta e como homem, mais grato do que o apreço que um tal mestre e critico manifesta pelas minhas composições, ao ponto de querer ser meu interprete e introductor junto do publico o mais culto do mundo e que mais direito tem a ser exigente. Discipulo da Allemanha philosophica e poetica, oxalá que ella receba com benignidade essas pobres flôres, que uma semente sua, trazida pelo vento do seculo, faz desabrochar n'este solo pouco preparado. Qualquer que seja a sua fortuna, toda a minha gratidão é devida ao bom e gentil espirito, que generosamente me toma pela mão, para me apresentar.
As informações biographicas e bibliographicas que v. ex.^a me pede, podem reduzir-se ao seguinte: nasci n'esta ilha de S. Miguel, descendente de uma das mais antigas familias dos seus colonisadores, em abril de 1842, tendo por conseguinte perfeito 45 annos. Cursei, entre 1856 e 1864, a Universidade de Coimbra, sendo por ella bacharel formado em Direito. Confesso, porém, que não foi o estudo do Direito que me interessou e absorveu durante aquelles annos, tendo sido e ficando um insignificante legista.
O facto importante da minha vida, durante aquelles annos, e provavelmente o mais decisivo d'ella, foi a especie de revolução intellectual e moral que em mim se deu, ao sahir, pobre creança arrancada do viver quasi patriarchal de uma provincia remota e immersa no seu placido somno historico, para o meio da irrespeitosa agitação intellectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as encontradas correntes do espirito moderno. Varrida n'um instante toda a minha educação catholica e tradicional, cahi n'um estado de duvida e incerteza, tanto mais pungentes quanto, espirito naturalmente religioso, tinha nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrivel de espirito, partilhado mais ou menos por quasi todos os da minha geração, a primeira em Portugal que sahiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição.
Se a isto se juntar a imaginação ardente, com que em excesso me dotara a natureza, o acordar das paixões amorosas proprias da primeira mocidade, a turbulencia e a petulancia, os fogachos e os abatimentos de um temperamento meridional, muito boa fé e boa vontade, mas muita falta de paciencia e methodo, ficará feito o quadro das qualidades e defeitos com que, aos 18 annos, penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.
No meio das cahoticas leituras a que então me entregava, devorando com egual voracidade romances e livros de sciencias naturaes, poetas e publicistas e até theologos, a leitura do Fausto de Goethe (na traducção franceza de Blaze de Bury) e o livro de Rémusat sobre a nova philosophia allemã exerceram todavia sobre o meu espirito uma impressão profunda e duradoura: fiquei definitivamente conquistado para o Germanismo; e, se entre os francezes, preferi a todos Proudhon e Michelet, foi sem duvida por serem estes dois os que mais se resentem do espirito de Alem-Rheno. Li depois muito de Hegel, nas traducções francezas de Vera (pois só mais tarde é que aprendi allemão); não sei se o entendi bem, nem a indepencia do meu espirito me consentia ser discipulo: mas é certo que me seduziam as tendencias grandiosas d'aquella estupenda synthese. Em todo o caso o Hegelianismo foi o ponto de partida das minhas especulações philosophicas, e posso dizer que foi dentro d'elle que se deu a minha evolução intellectual.
预览章节I PALAVRAS ALADAS预览
Raios de extincta luz, eccos perdidos De voz que se sumiu no espaço absorta— Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.
Não sabe a folha já mirrada e secca, Que um sôpro do tufão levou revolta, Que outro sopro talvez desfaça em breve— Não sabe a triste o ramo onde nascera, A seiva que a nutriu, quando inda bella, O tronco que adornou com verde galla, E onde entre irmãs folgou por tarde amena? Soltos do tronco, sem calor, sem vida, Filhos orphãos que um seio não aquece, Um seio maternal ebrio de affectos, Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.
Mas se alguem, vendo a folha abandonada, Lembrar e vir na mente o tempo antigo Em que bella, vestindo pompa e gallas, Brilhou rica de seiva e luz e vida; Se na mente sonhar a pura essencia Que animara esse pó ahi revolto; Se corpo der á sombra fugitiva, E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio; Se alguem souber do canto o sentir intimo, Oh, esse ha de entender a vida, a crença D'essa alma que animara outr'ora o canto.
Se alguem tiver no peito a urna mystica Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me; Se livre, por tyrannos não comprado, Pulsar um coração, esse commigo Hade a aurora saudar do novo dia; Se uma alma recordar a eterna patria Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.
Aos mais será mysterio o canto e a lyra, Á Liberdade, a Amor e a Deus votada: E já, soltos do tronco onde medraram, Meus cantos voarão de edade em edade, Como folhas que ao longe o vento espalha.
Coimbra, Novembro, 1860.
目录
本版本内容
- 01Full text
- 02CARTA AUTOBIOGRAPHICA
- 03I PALAVRAS ALADAS
- 04II LAÇO D'AMOR
- 05III FORÇA—AMOR
- 06IV PAZ EM DEUS
- 07V N'UMA NOITE DE PRIMAVERA
- 08VI PSALMO
- 09VII Á BEIRA-MAR
- 10VIII ASPIRAÇÃO
- 11IX A PYRAMIDE NO DESERTO
- 12X DESALENTO-CONFORTO
- 13DESALENTO
- 14CONFORTO
- 15XI A SENDA DO CALVARIO
- 16XII A JOÃO DE DEUS
- 17XIII PER AMICA SILENTIA LUNAE
- 18I
- 19II
- 20III
- 21IV
- 22V
- 23VI
- 24VII
- 25XIV NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE
- 26XV DANTE—DIVINA COMEDIA
- 27XVI MOMENTOS DE TEDIO
- 28I
- 29II A UM CRUCIFIXO
- 30III DECOMPOSIÇÃO
- 31IV NIHIL
- 32V QUINZE ANNOS
- 33VI SARCASMOS
- 34XVII AMOR DE FILHA
- 35XVIII GARGALHADAS
- 36XIX Á ITALIA
- 37XX A GENNARO PERRELLI
- 38XXI GUITARRILHA DE SATAN
- 39XXII SERENATA
- 40XXIII O POSSESSO
- 41I
- 42II
- 43XXIV EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL
- 44XXV ZARA
- 45XXVI GLOSA CAMONIANA
- 46XXVII AS FADAS
- 47XXVIII O SOL DO BELLO
- 48XXIX IBERIA
- 49I
- 50II
- 51III
- 52IV
- 53V
- 54XXX VERSÕES E IMITAÇÕES
- 55EXCERPTOS DE UMA TRADUCÇÃO DO FAUSTO
- 56I DEDICATORIA
- 57II NA CATHEDRAL
- 58O ESPIRITO RUIM
- 59MARGARIDA
- 60CÔRO E ORGÃO
- 61O ESPIRITO RUIM
- 62MARGARIDA
- 63CÔRO E ORGÃO
- 64MARGARIDA
- 65O ESPIRITO RUIM
- 66CÔRO E ORGÃO
- 67O ESPIRITO RUIM
- 68CÔRO E ORGÃO
- 69MARGARIDA
- 70III A CANÇÃO DO REI DE THULE
- 71A DÔR
- 72A CASA DO CORAÇÃO
- 73ESTANCIAS
- 74ROMANCE DE GOESTO ANSURES
- 75XXXI SONETOS DESPREZADOS
- 76A M. E.
- 77AD AMICOS
- 78A Q. M. Q.
- 79IGNOTO DEO
- 80IGNOTO DEO
- 81XXXII FIAT LUX!