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Serões da Província

葡萄牙语 BooksWhale 版本 · Júlio Dinis

Narrativas portuguesas de província, com costumes, afetos, observação social e tom familiar.

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图书简介

Serões da Província

Serões da Província reúne histórias de Júlio Dinis marcadas por vida rural, costumes portugueses, relações familiares e sensibilidade narrativa. O volume oferece uma entrada acolhedora na ficção portuguesa do século XIX.

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Júlio Dinis morreu em 1871 e Serões da Província foi publicado no século XIX; estas datas fundamentam o domínio público desta edição portuguesa.

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Serões da Província

Júlio Dinis

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SERÕES DA PROVÍNCIA

(CONTOS)

JÚLIO DINIS

Esta obra respeita as regras

do Novo Acordo Ortográfico

O ESPÓLIO DO SENHOR CIPRIANO JUSTIÇA DE SUA MAJESTADE

AS APREENSÕES DE UMA MÃE

OS NOVELOS DA TIA FILOMENA UMA FLOR ENTRE O GELO

O CANTO DA SEREIA

O ESPÓLIO DO SENHOR CIPRIANO

Desde que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarraigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausibilidade que dos espíritos sensatos a fazia ainda aceite, mais atrativos ela ostenta à fantasia popular sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as

borboletas através das campinas.

Quando o povo vê fugir, por inverosímil, do campo da discussão um facto controvertido, é quanto mais se apressa a recebê-lo como dogma, a adotá-lo com a cegueira da fé; é então que o transmite aos filhos, à maneira de um novo artigo do seu credo religioso, e olha para o que se atreve a levantar a mão iconoclasta contra esses vagos objetos do seu culto ideal, como para um ímpio, digno da fulminação

celeste.

De historiadores e biógrafos se ri: não há provas nem documentos que valham para lhe fazer ver as coisas diferentes de como as imaginou; mais vezes aqueles cedem até, sacrificando a exatidão à poesia, e admitindo nos seus escritos a colaboração da pena popular. Por isso nas crónicas dos tempos passados é através das lendas que se pode procurar a história. Adornada com as galas e louçainhas do maravilhoso, é que o povo se apraz de acolher a tradição. Despida às mãos do historiador austero, parece afetar-lhe tão escandalosamente à vista, como à dos mais castos monges da Tebaida as formas nuas de

tentadoras aparições.

Igualmente, ao lado da biografia exata de um indivíduo, ainda dos mais obscuros, o povo refere de ordinário outra,

menos documentada talvez, porém sempre mais curiosa.

Com olhar perscrutador penetra o seio das famílias a descobrir aí factos recônditos, pequenos incidentes da vida doméstica, onde, mais ffelmente do que nos da vida pública,

se refletem os caracteres e as índoles.

Não julgueis que lhe basta a enumeração das batalhas, dos

feitos brilhantes, dos serviços humanitários, dos actos civis

do herói do dia; quer vê-lo em família, depois de despir a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o modesto robe-de-chambre; aspira a devassar-lhe no modo de viver íntimo e a estudar-lhe os hábitos; obriga o personagem da história a representar diante de si o papel de filho, de irmão, de amante, de esposo e de pai no drama da vida, e é então que mais interesse lhe excita, é então que aplaude; e quando lhe falecem as informações, inventa, recorre ao inesgotável tesouro de imaginação, senão a alguma coisa de mais seguro. E nisto é o povo verdadeiramente admirável! Há o que quer que é sobrenatural na maneira porque se lhe revelam às vezes segredos, sabidos apenas por duas pessoas, interessadas ambas em conservá-los ignorados; não espera por provas, satisfaz-se já com indícios; pronuncia-se, quando os mais prudentes hesitam, e, devemos confessá-lo, se em certos casos esta antecipação o leva ao erro, muitas vezes também, ou quase

sempre, por caminhos misteriosos, o conduz à verdade.

Os boatos! Aí temos um desses problemas que desafiam toda a ciência humana. Donde partiram estas, deixem-me

预览章节Part 2预览

multar... OS carros.

Quando esta medida se discutiu em plena vereação, um dos

camaristas levantou-se e deu mostras de querer falar. — Peço a palavra, Sr. presidente.

— — Tema palavra o ilustre colega.

— Eu desejava que se fosse mais severo contra os perturbadores do sono público e se desse maior alcance a esta medida policial, multando todo o carro que chiar, quer

seja ouvido, quer não.

O conselho, atendendo porém a que não convinha ser demasiado ríspido com os povos e que os carros, não sendo ouvidos, pouco podiam incomodar, adotou a cláusula do

autor do projeto, rejeitando a emenda. E foi muito bem considerado.

Outra ocasião ainda, ouvindo o nosso homem discutirem dois bacharéis, classe de sábios que sempre respeitou, sobre a conveniência das Rodas, e vendo-os acordes na necessidade de importantes e radicais reformas nestes estabelecimentos, veio para casa pensativo, e o cérebro, fecundado por aquela ideia, lidou toda a noite em gestação mental, tendo no fim o seu bom sucesso, porquanto pela manhã o magistrado municipal apresentou à aprovação dos

colegas a seguinte medida regulamentar:

«Toda a mãe que expuser seu filho sem um bilhete do

município, fica tacitamente encarregada da educação

deste.»

A entender-se gramaticalmente a coisa, rude tarefa cabia à

pobre da mãe, superior ao esforço humano.

Esta medida, de um incomensurável alcance económico,

por um triz ia passando.

Mas emperrou no advérbio tacitamente, que de facto era a maior palavra do período e que o legislador empregara para o arredondar; ele tinha lá as suas ideias a respeito de estilo, não obstante viver antes das últimas reformas dos liceus, na qual pelos modos este assunto foi regulado de uma vez para sempre. Se a lacónica definição de Buffon é verdadeira, se o estilo é o homem, ninguém de facto como o nosso vereador podia fazer períodos mais rotundos. Mas o corpo camarário viu na frase não sei que sentido maquiavélico, e mostrou escrúpulos. Em vão o digno chefe de tão respeitável corporação, com aquela abnegação quase estoica que o caracterizava, se prontificou a substituir esse advérbio por outro qualquer, sem escolha, tais como: restritamente, completamente, impreterivelmente, categoricamente, etc., etc.; ele só

queria salvar a beleza da forma; não houve de que, o

conselho, entrando uma vez no caminho da desconfiança,

não tinha por costume recuar.

Esteve ainda assim, vai não vai, a resolver-se pela adoção do categoricamente, agradado da eufonia da palavra; mas

enfim nem esse admitiu, e a medida foi rejeitada.

Era pois diante deste vasto talento governativo que

Maquelina fora enviada a implorar um diploma de pobre. Louvado seja Deus! até isto se implora!

— Mas — observou o judicioso presidente ao ouvi-la —

pobre é todo aquele que não tem dinheiro. Maquelina concordou. Pudera não.

A definição satisfazia a todos os preceitos mencionados no Genuense; curta, clara, etc., etc.; e mais o nosso vereador

não estudara lógica. O homem continuou: — — E segundo é voz e fama vocês têm mundos e fundos.

Aqui começava Maquelina a discordar, por infelicidade sua.

Em única resposta mostrou os cobres que trazia.

— Eis a minha riqueza.

— Pois sim, pois sim... mas... olhe, disso não quero eu saber. E pobre? Peça ao pároco e ao regedor um atestado, e

depois... depois... isso é com a junta de paróquia. — Mas...

— — Adeus, minha amiga, temos conversado.

E o oráculo emudeceu.

Maquelina ao sair levava uma cara que seria a sua justificação, se o vereador acreditasse na ciência dos fisionomistas; mas parece-me poder atestar o contrário. O bom homem chamaria tolo a Lavater se o tivesse

conhecido. Dali passou a Maquelina a casa do pároco.

Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de

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celebradas em oitava rima.

Afinal caiu vencida no leito, e então é que o futuro se lhe

mostrou carregado.

A pobre mulher não se iludia nem sobre a gravidade da sua

moléstia, nem sobre as consequências da sua morte.

Que seria de Agostinho? Agostinho, a quem ela amava já como se amam os entes fracos que vieram procurar a nossa proteção, com esse amor bem mais intenso mesmo do que o

votado aos seres que nos protegem.

Porque o primeiro lisonjeia o nosso orgulho, e o segundo,

esse, revela a nossa inferioridade. Coisas humanas.

O futuro de Agostinho era a ideia negra de Maquelina; como ela ficaria contente por morrer se não fora isso! Mas agora custava-lhe; esta lembrança aumentava-lhe a doença. Que diria ela à irmã, quando do Céu lhe pedisse notícias do filho? Que o deixara na miséria? E era isso de boa

madrinha?

E estes pensamentos e apreensões definhavam-na a olhos

vistos.

Agostinho aterrou-se, e reconheceu então tudo quanto

tinha havido de heroica abnegação no procedimento da tia.

O coração de homem teve um movimento pelo qual procurou libertar-se da espécie de colapso em que infortúnios continuados o tinham lançado. Agostinho curvara a cabeça sob a corrente de desgraças que sem interrupção tinham sucedido na sua vida; agora tentava

elevá-la num último esforço.

— É preciso tentar fortuna — dizia ele consigo — amanhã de manhã sairei a pedir trabalho, a tudo que me

sujeitar, a tudo.

E adormeceu com este pensamento, sonhando-se daí a pouco numa mina de ouro, onde, ao fim de muita fadiga, só

conseguia extrair enormes pedras de carvão.

O leitor pode imaginar toda a agradável voluptuosidade de

semelhante sonho.

Por a manhã ergueu-se disposto a realizar o projeto da véspera; mas foi encontrar a tia num estado tão assustador,

que não teve ânimo para abandoná-la.

— Não tem de ser! — disse consigo Agostinho, a quem a

desgraça quase tornara fatalista. Maquelina mostrava-se de facto em risco iminente.

O facultivo de partido veio vê-la; pois Maquelina havia

enfim conseguido entrar no quadro dos pobres.

Tomou-lhe um pulso, depois o outro; deu-lhe três pancadas do lado direito do tórax, igual número do esquerdo; pousou-

lhe o ouvido sobre as descamadas costelas, e, como se

escutasse lá dentro os passos da morte, ergueu-se e fez um

gesto de descontentamento visível. Receitou um chá de alteia e saiu. Agostinho esperava-o à porta.

— — Então?

O médico puxou pelo relógio, ao qual começou a dar corda,

dizendo com a indiferença profissional:

— Como àquela máquina se não dá corda como a esta,

pára em poucas horas.

Agostinho sentiu subirem-lhe as lágrimas aos olhos. O médico voltou-se ainda de novo para dizer:

— Eu escuso de cá voltar, agora o padre.

Estas palavras, ditas em tom mais alto e da maneira mais natural possível, como as sabem dizer alguns adeptos de ciência hipocrática que se jactam de fortes, chegaram aos ouvidos de Maquelina, que juntou as mãos, e, erguendo os

olhos ao céu, disse com voz débil:

— Aqui está a serva do Senhor, cumpra-se em mim a Sua

santíssima vontade.

Quando Agostinho entrou no quarto, encontrou-a

resignada.

Nessa mesma tarde confessou-se e sacramentou-se aquela

pobre de Cristo. Na cidade dizia-se:

— Coitada! o irmão matou-a. Morre de fome e fadiga e

com dinheiro em casa. Era forte preocupação a do povo! Mas há dessas teimas.

Ao pé da noite pediu Maquelina um chá para mitigar a sede. Naquele dia não se acendera ainda o lume em casa. Agostinho esquecera-se de comer e, se se lembrasse, não

sei bem o que teria sucedido. Melhor foi que se não lembrasse.

Agostinho correu à cozinha, reuniu a custo alguns cavacos

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