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Úrsula
葡萄牙语 BooksWhale 版本 · Maria Firmina dos Reis
Um romance pioneiro brasileiro sobre escravidão, amor, violência patriarcal e voz feminina.
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图书简介
Úrsula
Úrsula é um romance fundamental da literatura brasileira do século XIX e uma das primeiras obras abolicionistas escritas por uma mulher no Brasil. Maria Firmina dos Reis combina trama sentimental, crítica à escravidão, denúncia da violência patriarcal e atenção às vozes negras escravizadas.
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Maria Firmina dos Reis died in 1917, and Úrsula was first published in 1859; these dates support public-domain status for the Portuguese original.
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Úrsula
Maria Firmina dos Reis
Úrsula Maria Firmina dos Reis
Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume.
Não é a vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.
Então por que o publicas? – perguntará o leitor.
Como uma tentativa, e mais ainda, por este amor materno, que não tem limites, que tudo desculpa – os defeitos, os achaques, as deformidades do filho – e gosta de enfeitá-lo e aparecer com ele em toda a parte, mostrá-lo a todos os conhecidos e vê-lo mimado e acariciado.
O nosso romance, gerou-o a imaginação, e não o soube colorir, nem aformosentar. Pobre avezinha silvestre, anda terra a terra, e nem olha para as planuras onde gira a águia.
Mas, ainda assim, não o abandoneis na sua humildade e obscuridade, senão morrerá à míngua, sentido e magoado, só afagado pelo carinho materno.
Ele semelha a donzela, que não é formosa; porque a natureza negou-lhe as graças feminis, e que por isso não pode encontrar uma afeição pura, que corresponda ao afeto da sua alma; mas que, com o pranto de uma dor sincera e viva, que lhe vem dos seios da alma, onde arde em chamas a mais intensa e abrasadora paixão, e que embalde quer recolher para a corução,2 move ao interesse aquele que a desdenhou e o obriga ao menos a olhá-la com bondade.
Deixai pois que a minha Úrsula, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem enfeites e louçanias de arte, caminhe entre vós.
Não a desprezeis, antes amparai-a nos seus incertos e titubeantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir coisa melhor, ou, quando menos, sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós.
São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma – branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano quebrar os limites que lhe marcou a onipotente mão do rei da criação. Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e fugitivo dos peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois desaparecem para de novo voltarem – os campos são qual vasto deserto, majestoso e grande como o espaço, sublime como o infinito.
E a sua beleza é amena e doce, e o exíguo esquife, que vai cortando as suas águas hibernais mansas e quedas, e o homem, que sem custo o guia, e que sente vaga sensação de melancólico enlevo, desprende com mavioso acento um canto de harmoniosa saudade, despertado pela grandeza dessas águas, que sulca.
E às águas, e a esses vastíssimos campos que o homem oferece seus cânticos de amor? Não por certo. Esses hinos, cujos acentos perdem-se no espaço, são como notas duma harpa eólia, arrancadas pelo roçar da brisa ou como sussurrar da folhagem em mata espessa. Esses carmes de amor e de saudade o homem os oferece a Deus.
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— Meu Deus! – exclamou a viúva de Paulo B. após alguns momentos de silêncio – Que quer dizer isto? Esta conversão! Oh! Não o compreendo. Úrsula, minha filha, não sei por que aperta-se-me o coração à aproximação dessa entrevista. Fernando, meu irmão! O teu ódio ainda não estará vingado?!
Mas – continuou a pobre mulher – ele me fala de perdão: Deus! Será possível que se haja arrependido, e que o meu s ofrimento lhe tocasse o coração empedernido?!
— Duvido, minha mãe – objetou Úrsula – duvido. Para que vem ele perturbar o nosso sossego?
E entrou a cismar sobre tão inesperado e estranho assunto. Falava em sossego! Como se ela o gozasse há dias! Depois dessa desgraçada entrevista da mata, sentira um só dia o que era tranquilidade? Não, por certo. Mas, Fernando P***! Que vinha ele aí fazer? Úrsula tinha horror a semelhante parente, e implorava ao céu o arredasse sempre da sua vista. Graves suspeitas pesavam sobre o comendador, e a infeliz órfã não podia lembrar-se dele sem temor.
E Luísa tinha suas razões; por isso, agora mais que nunca, estava aflita e inquieta, mas Úrsula, para tranquilizá-la, disse:
— Porque estais assim a tremer, minha querida mãe? Que mal vos poderá ele fazer além dos que já tem feito? Ele vos fala em perdões, trata de uma conversão...
— Operada pelo céu, que a ele mesmo admira! – Tornou Luísa, interrompendo sua filha, que cada vez se sentia mais inquieta. Esta conversão assemelha-se a todos os atos de sua vida: esta conversão deve nos ser funesta!
— Pensais isso, minha mãe? – interrogou a pobre Úrsula pálida e convulsa.
— Sim, minha filha, e quase que te posso assegurar.
— Santo Deus! – exclamou Úrsula, precipitando-se para fora do quarto de sua mãe, e cobrindo o rosto com as mãos ambas.
O caçador desconhecido acabava de entrar sem anunciar-se.
— Fernando! – exclamou Luísa, tornando-se lívida, e tiritando de frio.
— Luísa! Luísa, minha querida irmã! – bradou o comendador, correndo para ela, e unindo-a ao seu coração.
Este brado terno e comovido revocou a infeliz mulher a uma vida, que ela já julgava extinta, e esquecendo por um instante todo o amargor que Fernando lhe derramara no coração, sorriu-se para o irmão que amara, e por momentos brilhou-lhe no rosto a alegria, e disse:
— Meu irmão!
E Fernando cedeu então ao mais belo transporte da sua alma, ao único sentimento virtuoso, que Deus aí lhe implantara, e que embalde tinha lutado por abafar, ou destruir.
Fernando combatia há dezoito anos o poder desse amor fraterno, e seu orgulho conseguiu, por algum tempo, o que o coração repugnava, o que a razão e a inteligência condenavam, e o que ele sentia dolorosamente; porque só nesse afeto lhe estava a ventura de toda a sua vida.
E para vencer-se, obstinadamente evitava a vista de sua irmã, a que não poderia resistir, para bem saciar a sua vingança, para bem flagelar-se, flagelando-a na sua desgraça.
Fernando tinha vivido solitário, e desesperado com essa luta terrível do coração com o orgulho: e esses desgostos íntimos, que ele próprio forjava, o tinham embrutecido, e tanto lhe afearam a moral, que era odiado, e temido de quantos o praticavam ou conheciam de nome.
Ele tornara-se odioso e temível aos seus escravos: nunca fora benigno e generoso para com eles; porém o ódio, e o amor, que lhe torturavam de contínuo, fizeram-no uma fera – um celerado.
Nunca mais cansou de duplicar rigores às pobres criaturas, que eram seus escravos! Apraziam-lhe os sofrimentos destes; porque ele também sofria.
Eis aí pois a alma implacável na maldade do irmão de Luísa.
E Úrsula! Onde estava ela?
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