
Portuguese Edition
Literature
A Alma Nova
Portuguese BooksWhale Edition by Guilherme de Azevedo
Guilherme de Azevedo reúne poemas de inquietação social, reflexão moral e sátira, contrapondo o ideal poético às contradições do seu tempo.
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Book introduction
A Alma Nova
A Alma Nova apresenta uma sequência de quarenta e sete poemas em que a voz lírica observa a injustiça, a pobreza, o conformismo e as promessas de transformação. Guilherme de Azevedo aproxima imagens do quotidiano de figuras simbólicas e de um tom por vezes satírico. A diversidade dos poemas mantém uma preocupação comum com o lugar da poesia perante os conflitos humanos e sociais.
BooksWhale edition
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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
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Guilherme de Azevedo faleceu em 1882. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas editoriais ou ilustrações posteriores.
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A Alma Nova
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Eu poucas vezes canto os casos melancolicos, Os lethargos gentis, os extasis bucolicos E as desditas crueis do proprio coração; Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho Da muza sem pudor que mostra no caminho A liga á multidão.
A sagrada poesia, a peregrina eterna, Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna, Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes; Que ensaia, presumida, o gesto romanesco E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco, Põe crémes triviaes!
Oh, pensam mal de ti, da tua castidade! Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, Os falsos ouropeis das cortezãs gentis, E julgam já tocar-te as roçagantes vestes Ó deusa virginal das coleras celestes, Das graças juvenis!
Retine a cançoneta alegre das bachantes, Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, Visões d'olhar travesso e provocantes pés, E julgam já escutar a voz do paraiso, Amando o que ha de falso e torpe no sorriso Das musas dos cafés!
Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça Estiolada e gentil, que vem depois da missa Mostrar pela cidade o seu fino desdem, Nem a fada que sente um vaporoso tedio Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio Que a possa pagar bem!
Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas A menina gentil que ás portas das egrejas Emquanto a multidão galante adora a cruz, A bem do pobre enfermo á turba pede esmola Nas pompas ideaes da moda, que a consola Das magoas do Jesus!
E nas horas de luta emquanto os povos choram E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram, Não posso dizer bem se acaso tu serás A senhora que espalha os languidos fastios Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios Á viva luz do gaz!
Tu és a apparição gentil, meia selvagem, D'olhar profundo e bom, de candida roupagem, De fronte immaculada e seios virginaes, Que desenha no espaço o limpido contorno E cinge na cabeça o virginal adorno De folhas naturaes.
Tens a linha ideal das candidas figuras; As curvas divinaes; as tintas sãs e puras Da austera virgindade; as bellas correcções; E segues magestosa em teu longo caminho Deixando fluctuar a tunica de linho Ás frescas virações!
Quando trava batalha a tua irmã Justiça Acodes ao combate e apontas sobre a liça Uma espada de luz ao Mal dominador: E pensas na belleza harmonica das cousas Sentindo que se move um mundo sob as louzas No germen d'uma flôr!
N'um sorriso cruel, pungente d'ironia, Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria, O latego febril das grandes punições; E vendo-te sorrir, a geração doente, Sentir cuida, talvez, a nota decadente, Das morbidas canções!
Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros O manto constellado, ó deusa dos assombros, Até chegar um dia ás regiões de luz, Aonde, na poeira aurifera dos astros, Contricto, Satanaz enxugará de rastos, As chagas de Jesus!
Logar á minha fada ó languidas senhoras! E vós que amaes do circo as noites tentadoras, Os fluctuantes véos, os gestos divinaes, Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico, Voando no corcel febril, nervoso, elastico, Dos novos ideaes!
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Eu vi passar, além, vogando sobre os mares O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem E as algas naturaes, serviam de roupagem Á triste apparição das noites seculares!
Seguia tristemente ás regiões polares Nos limos das marés; e a rija cartilagem Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem, No peito carcomido, uns grandes nenuphares!
Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça
Dos astros, caminhando; apenas as ruinas Das tuas creações fantasticas, divinas, De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02I
- 03II
- 04III — VELHA FARÇA
- 05IV — GRAÇA POSTHUMA
- 06V — HISTORIA SIMPLES
- 07VI
- 08VII — OS SONHOS MORTOS
- 09VIII — FALA A ORDEM
- 10IX
- 11X — MISERIA SANTA
- 12XI — ASTRO DA RUA
- 13XII
- 14XIII — AS VICTIMAS
- 15XIV — EVOCAÇÃO
- 16XV
- 17XVI — FLOR DA MODA
- 18XII
- 19XVIII — A CHRISTO
- 20XIX
- 21XX — O GRANDE TEMPLO
- 22XXI — A UM CERTO HOMEM
- 23XXII — Á HORA DO SILENCIO
- 24XXIII
- 25XXIV — O VELHO CÃO
- 26XXV — AS VELHITAS
- 27XXVI — ÁS VISÕES
- 28XXVII
- 29XXVIII — O VELHO MUNDO
- 30XXIX
- 31XXX — Á NOITE
- 32XXXI — A VALLA
- 33XXXII
- 34XXXIII
- 35XXXIV — NOS CAMPOS
- 36XXXV — O ULTIMO D. JUAN
- 37XXXVI
- 38XXXVII — ANTIGO THEMA
- 39XXXVIII — A MÃE
- 40XXXIX
- 41XL — SANTA SIMPLICIDADE
- 42XLI
- 43XLII — OS PALHAÇOS
- 44XLIII — A HYDRA
- 45XLIV — OS NOVOS LEVIATHÃS
- 46XLV
- 47XLVI — VERSOS A *
- 48XLVII
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