Portuguese Edition
Literature
A Capital
Portuguese BooksWhale Edition by Eça de Queirós
Um jovem provinciano chega a Lisboa em busca de glória literária, prazer e ascensão social.
- Preview
- A sample from the prepared text
- Formats
- Online reader, EPUB, PDF
- Access
- Library claim
Book introduction
A Capital
A Capital acompanha Artur Corvelo na Lisboa dos cafés, jornais, teatros, amizades literárias e ilusões urbanas. Eça de Queirós satiriza ambição artística, provincianismo, boemia, vaidade, jornalismo e desejo de fama num romance de formação falhada e crítica social mordaz.
BooksWhale edition
How this edition was prepared
This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
Public domain basis
Why this edition can be shared
Eça de Queirós morreu em 1900, and A Capital was published posthumously in 1925 from nineteenth-century material. These dates support the public-domain basis for the Portuguese text used in this edition.
Read preview
A sample from the prepared text
Preview selected from the prepared reader text.
Preview chapterFull textRead preview
A Capital
Eça de Queirós
A Capital EçA DE QUEIRóS (1925)
A Capital acompanha a trajetória de um jovem que deixa a vida no interior em busca de sucesso e reconhecimento na cidade grande. Ao enfrentar ilusões, ambições e decepções, a narrativa constrói uma crítica à sociedade, ao meio intelectual e às aparências, revelando os desafios de quem tenta encontrar seu lugar em um ambiente marcado por interesses e vaidades.
INTRODUCÇAO
Os ULTIMOS INEDITOS D'EçA DB QUEIROZ
Não foi, devo dizel-o, sem hesitações, sem consultar, sem ter ouvido a opinião d'alguns homens superiores, que tomei a resolução definitiva de lançar a publico esta coisa extraordinaria: sete volumes ineditos d'Eça de Queiroz — sete volumes que dormiram durante mais de vinte e cinco annos no fundo d'uma mala, desconhecidos, insuspeitados, e que só agora apparecem, fazendo reviver o auctor dos Maias, trazendo-nos, depois de um de seculo de silencio, um echo d'além-tumulo da sua ironia, do seu espirito, da sua elegancia, n'uma palavra, da sua arte I
A muitos se afigurará de certo milagroso o apparecimento tão tardio d'estes sete volumes; a outros parecerá talvez inexplicavel a existencia d'uma obra tao larga e tão diversa, desconhecida d'aquelles mesmos mais teem estudado e commentado a obra d'Eça de Queiroz ; a ainda poderá parecer suspeita a publicaç&o de tantos ineditos, volvidos tantos annos sobre o desapparecimento do seu auctor.
Foi por todas estas considerações, de que uma critica antecipada já me trouxe, aqui e além, os primeiros echos, que eu considerei necessario este pequeno estudo previo, que não tem a pretenoao de sor um prologo, muito menos um prefacio, mas apenu uma imples nota do tacto sensacional, e, tanto quanto posslvel, a historia dos manuscriptos e das obras cuja publicação começa com o presente volume.
Eu sei que o grande publico não vae lêr a minha nota e que os proprios enthusiastas de meu Pae, saltarão por cima d'estas linhas com um gesto de tedio, quasi irritado, para correr ao primeiro capitulo e começar com um ah ! de satisfaçáo: g A estação d'Ovar, no caminho de ferro do Norte . .
Julgo, porém, que desde que assumi a responsabilidade de publicar ste volume e os seis que se lhe devem seguir, era do meu dever vir dizer ao publico por que o fiz e como o fiz. Assim, esta nota ficará apenas como a explicação do facto inesperado, como a authenticaçào dos manuscriptos apparecidos, como um documento para o estudo da obra posthuma dc meu Pae, e, finalmente, como um aviso aos leitores e á critica da indole muito especial d'estas publicações.
Ha cerca de um anno, procurando um autographo inedito que me tinha pedido, abri o pequeno cofre ou mala de ferro, onde, ha vinte e cinco annos, ainda em Paris, tinham sido guardados todos os papeis que se encontravam no escriptorio de meu Pae. D'aquella mala já tinham sahido publicacoes preciosas: A Cidade e as Senas, os tres Santos, varios artigos. Ali, ha•aa aiada os de diversas obras Já conhecidas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos baldões de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: —- qualquer dia temos que lêr aquillo tudo e vêr ao certo o que é». Foi o que agora se fez : leu-se aquato tudo, e viu-se o que era
Porque se náo fez mais cedo A difficuldade da letra, cerrada, nervosa, vertiginosa, a confusão das folhas em desordem e sem numeração, a convicção de que aquillo tudo já fôra visto por, Ramalho Ortigao, quando tomara conta da revisao da Cidade e as Serras e de que nada haveria alli de realmente notavel ou novo, tudo isso o poderia explicar até certo ponto, e até certo ponto concorreu para o longo silencio. Porém a razão principal foi a ausencia dos filhos d'Eça de Queiroz, exilados depois de 1910, vivendo longos annos no estrangeiro, ora n'uma terra, ora n'outra, sem residencia fixa nem installaçáo definitiva, levando uma vida instavel que nunca lhes permit tiu o estudo e a organisaçao de todos aquelles manuscriptos desconhecidos.
Preview chapterVIIIPreview
as duas mn e tantas paginas mahugorlptas da obra posthuma que agora damos a publico.
Porém outra surpreza nos esperava ainda : do Rio de Janeiro chegava-me um dia, datada de de Julho de 1924, uma carta extremamente interessante do Snr. José Vasco Ramalho Ortigão, em que o filho do grande escriptor me dizia : a Entre a enorme quantidade de papeis que recebi de Lisboa com a li- vraria de meu Pae, encontro varies manuscriptos d'Eqa de Queiroz, algumas cartas de Fradique e provas corrigidas e ori ginaes da Gapital. Estas ultimas muito difficeis de organisar...' E com effeito, pouco tempo depois, chegava-me do Brasil um volumoso pacote de manuscriptos que vinha augmentar milagrosamente o valor da minha descoberta. Era de facto uma segunda fórma da Capital, com cerca de cem paginas impressas, corrigidas, refundidas, augmentadas, com longas tiras colladas ás paginas, cobertas de emendas e accrescentos a lapis ; eram ainda cinco cartas de Fradique, ineditas. e finalmente esse curiosissin» Conde d' Abranhos, o mais estranho dos manus criptos de meu Pae, todo escripto d'um folego, de fio a pavio, quasi sem uma emenda, n'uma letra vertiginosa de rascunho, completo, perfeito, e a lapis.
Muitos mezes nos levou a decitraçho e a copia dos manuscrfptos. Fof um trabalho benedlotino, exhaustivo, ao mesmo tempo cheio de surprezas, de de desanimos, d'enthusiasmos, em que caminhavamos de descoberta em descoberta, atravez d'um mundo novo, reconstituindo lentamente vidas inteiras, personagens, aventuras, dra.mas, desesperos, desillusóes. Era o melancolico Arthur Corvello que se esboçava ; era a Genoveva que resplandecia, aureolada do prestigio das civilisações superiores que atravessara ; era Camillo Serrão que se agitava febrilmente na sua arte esteril, o astuto Abranhos subindo á força d'habilidades na politica, e o triste Godofredo, resignado, reorganisando a sua pobre vida : toda uma população que nos era intensamente viva, movendo-se n'um mundo intensamente real, com os seus sentimentos, os seus defeitos, as silag qualidades, os amo- res, as suas ambiçõee e os seua ridiculos !
Assim, onde esperavamu encontrar rascunhos, notas soltas, esboços, descobriamos romancea, nove}lag, contos, reminiscencias de viagens, toda uma obra, lançada ao papel no primeiro Jacto da inspiração, mas completa na sua estructura definitiva na sua intenção.
Porque tinharn sido abandonados trabalhos ? Ê proverbial a ancia de peçfeiçáo de meu Pae, artista sempre insatisfeito, desejando sempre melhor, criticando os seus proprios livros, achando-os sempre incompletos, imperfeitos, inferiores ao seu desejo.
Da sua immensa obra, que, depois de publicados os sete livros d'esta ultima série, attíngírá vinte e quatro volumes, apenas cinco romances tinham sido dados a publico durante a sua vida. São de certo esses cinco livros as cinco joias maximas da sua obra; porém, a desproporção entre o muito que escreveu e o pouco que publicou é caracteristica. O seu feitio Indifferente ao lucro, indifferente á popularidade, a sua natureza toda d'enthusiasmos rapidos, que o fazia por de parte, desinteressar-se de repente da idéa da vespera para se entregar inteiramente á nova idéa, fazem comprehender até certo ponto que elle deixasse na gaveta tantos trabalhos por completar. Mas é sobretudo ás cartas ao seu editor, Ernesto Chardron, que vamos buscar os dados mais seguros para o estudo da sua maneira de trabalhar e para a historia dos originaes d'estes ultimos sete volumes.
Que elles eram destinados á publicidade é incontestavel. Com effeito, tanto A Capital, como A Tragedia da Rua das Flores, e talvez mesmo O Conde d'Abranhos, faziam parte d'um iargo plano que infelizmente nunca chegou a ser executado.
A idéa d'esta gérfe de publicações — que faz pensar n'uma pequena Comédie Humatne, reduzida ás proporções mais modestas de «Comedia Portugueza» —apparece pela primeira vez n'uma carta para o editor, datada de Newcastle, em 5 de Outubro de 1877, e d'onde destaco os seguintes trechos: . . . Eu tenho uma idéa, que penso daria excelente resultado.
Preview chapterVIIIPreview
No primeiro dia, quan'lo desceu ó sala de jantar do Hespanhol a buscar charutos — Arthur encontrou os mesmos hospedes que o habitavam, mezes antes, á sua chegada a Lisboa. Lá estava B hespanhola bonita e gordinha, o feu robe-de-chambre escarlate e o homem calvo, de oachaço grosso e rostinho vermelho, vendo-a comer, estatico, com olhinhos beatos e chorosos. Os dous republicanos hespanhoee sentavam-se no mesmo logar, cabisbaixos, as capas ao hombro, mais pallidos, mais tenebro80s. Havia, de novo, um homemzarrão barbudo que parecia um contra tador de gado, e um sujeito d'oculos azues e nariz agudD, que devia ser tabellião na provincia. E em volta da mesa, com a travessa do cozido, o Manuel — o Manuel que tanto desesperara Arthur, outr'ora, lastimando-lhe as botas ro-
tas — arrastava as chinelas, esguio, amarello, com a sua cabelleira gecca, côr de rato e esguedelhada. A mesma gaze côr de rosa protegia o caixilho dou. rado do espelho, e Prim, inalteravelmente, levantava ao ar a sua bandeira desfraldada.
O Manuel pareceu satisfeito de vêr Arthur :
— Então, usta, hein ! Ora usted ! , . . — dizialhe, emquanto Arthur escolhia os charutos — Então por onde andou usted ?
— A viajar — disse Arthur.
—Ora usted I a comidinha ós sete, hein Usted será bem servido !
Para evitar a mesa redonda, tinham tomado, ao pé do quarto de dormir, outro quarto, que, tirada a cama, fôra improvisado em sala de jantar. A commoda servia d'aparador ; e para dar alegria e conforto, tinham-lhes dependurado um canario defronte da janella.
As primeiras semanas foram deliciosas. O inverno ia muito doce e luminoso e succediam-se os dias de sol, n'nm grande azul, d'onde cahia um calorzinho suave e uma alegria macia. As varandas, que deitavam para a rua da Prata, alegravam o quarto.
Era a primeira vez que Arthur vivia com uma tnulher em intimidade conjugal ; as mais pequenas 'cousas : B gomma das gaias, os atacadores do col-
-lete, os bordados das camizinhas, interessavam-no como revelações ; admirava cada vez mais « a sua Conchazinha», achando um gozo raro em cada um dos seus movimentos. Nos actos mais insignificantes — quando lavava os braços nús, quando esticava as meias nas pernas ou enfiava uma fita côr de rosa nos passadores da camisa — encontrava o sabor inesperado d'uma voluptuosidade nova. Rondava em volta d'ella com uma curiosidade devota, ora interessado pelos cabellinhos da nuca, ora pela fórma das unhas, ora por certo requebrar da cintura ; não amava os seus olhos com o mesmo amor com que amava os seus peitos ou as suas orelhas pequeninas, porque cada parte do seu corpo, como se fossem personalidades differentes com influencias espeeiaes, lhe inspirava um enthusiasmo particular. Melchior definira-o como um baboso e punha n'eeta expressão um fundo d'inveja e de vago despeito.
Como a Concha era muito preguiçosa, levantavam-se tarde. Ordinariamente almoçavam na cama : uma creada que fallava um hespanhol misturado de portuguez e que depressa se tornara a intima da Concha, trazia o almoço aos pombinhos i, ás onze horas. E era para Arthur uma delicia todas as manhãs renovada, vêr a Concha com os peitinhos ao léu, um casabeque de flanella escarlate pelos hombros, mover sobre o taboleiro os braços brancos e partir os ovos quentes delicadamente com o gume da faca, arrebitando o dedo minimo : depois, no chôco da roupa quente, corpo contra corpo, saboreavam am ciga rrinho.
Arthur cada dia lhe achava as maneiras mais senhoris. Mesmo nos ardores amorosos, tinha Uma reserva de dama. Ao deitar-se, nunca lhe dava um beijo sem primeiro fazer o Signal da cruz : assim se vê um livro d'orações sobre a commoda d 'um lupanar. Arthur attribuia estas delicadezas ás suas convivencias '{Ilustres e não se fartava de lhe ouvir historia dos seus amores com o conde ou visconde carlista : interrogava-a mesmo sobre a maneira como elle a amava, a abraçava, se lavava, gostando de penetrar nos etalhes intimos d'uma vida aristocratica e de beijar a bocca onde se tinham pousado os labios d'um Crande d'Hespanha ; comtudo sentia uma satisfação intima em o saber enterrado n'algum desfiladeiro montanhas de Navarra.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02VIII
- 03VIII
Language availability
Other languages
Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.
Request another language