
Portuguese Edition
Literature
A Conquista
Portuguese BooksWhale Edition by Coelho Neto
Jovens escritores, jornais e dificuldades materiais compõem um retrato da vida literária carioca entre amizade, ambição e transformação política.
- Preview
- A sample from the prepared text
- Formats
- Online reader, EPUB, PDF
- Access
- Library claim
Book introduction
A Conquista
Coelho Neto acompanha um círculo de escritores e jornalistas no Rio de Janeiro, entre redações, encontros, projetos e dificuldades para viver da literatura. As experiências de Anselmo aproximam criação artística, amizade e participação na vida pública. A narrativa percorre debates e mudanças do final do século dezenove, compondo um retrato da boemia e das condições materiais do trabalho intelectual.
BooksWhale edition
How this edition was prepared
This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
Public domain basis
Why this edition can be shared
Coelho Neto morreu em 1934. A obra foi publicada pela primeira vez em 1899. Esta edição utiliza o texto histórico original em português de Wikisource, sem acrescentos editoriais modernos.
Read preview
A sample from the prepared text
Preview selected from the prepared reader text.
Preview chapterAOS DA CARAVANARead preview
Entre os celtas, nos tempos rijos e sanguinários, quando, pelas agrestes montanhas, dia e noite, atroavam buzinas roucas conclamando os guerreiros para a defesa da pátria ou para a partilha dum gamo, enquanto as facas iam talhando a selvagina, ao clarão rubro da fogueira, os file, com os olhos no céu, correndo os dedos ágeis pelas cordas da harpa, recontavam os feitos dos heróis, as beneficências dos gênios e as maravilhas excelentes da terra farta e amável.
Os file eram a "memória" da raça.
Porque ainda não surgira o artista imortalizador que gravasse na pedra eterna ou inscrevesse na folha destrutível a tradição nacional, os file guardavam na memória, transmitindo, de homem a homem, não só os hinos improvisados pelos bardos como as lendas do gênio popular, e a história, conservada nesses monumentos orais, ia dum a outro, como a chama dum círio passa a outro círio.
Dividiam-se os file em dez categorias, desde o oblairo, que apenas sabia sete histórias, até o ollam que repetia de cor trezentas e cinqüenta.
Este livro, amigos meus, é mais vosso do que meu, porque na sua composição entrou apenas a minha memória. Como o ollam venho contar aos que surgem a odisséia da nossa mocidade.
Triste, triste foi a nossa vida posto que, de longe em longe, como um raio de sol atravessando nuvens tempestuosas, o riso viesse palidamente à flor dos nossos lábios. Mas chegamos, vencemos... Deus o quis! E, se ainda não tomamos de assalto a praça em que vive acastelada a indiferença pública, já cantamos em torno e, ao som dos nossos hinos, ruem os muros abalados, e avistamos, não longe, pelas brechas, a cidade Ideal dos nossos sonhos.
Mas no dia em que nela pudermos entrar vitoriosos, pisando a verde, macia e cheirosa folhagem, indo repousar à sombra das árvores, perto da frescura e do murmúrio da água, nesse dia, reunidos pela saudade, sacrificaremos, com religioso sentimento, aos manes dos que ficaram adormecidos à sombra dos ciprestes.
É vosso todo este livro, meus amigos. Eu vim seguindo a caravana que a Musa precedia, cantando, como Minam, à frente de Israel, no êxodo. Vim seguindo e apanhando pelo caminho saibroso e seco as gotas de sangue, as gotas de lágrimas, as estrofes sonoras, os arrancados soluços e os suspiros que deixáveis e, durante a marcha, só três vezes paramos, com as liras caladas, os olhos lacrimejantes, para guardar na terra santa os que caíam.
Já lá vão quinze anos de sonhos e de sofrimentos!
Eis-nos acampados diante da cidadela e que temos nós? Que tesouro possuímos depois de tão árduo combate? Temos ainda, e só, a moeda com que nos lançamos à aventura: Esperança, e alguns louros na fronte: os primeiros cabelos brancos. Enfim...! Já é muito não havermos perdido a Esperança.
O ollam vai falar. Sursum corda!
C.N.
Preview chapterIPreview
A manhã tépida, rosada e ressoante - porque os sinos badalavam festivamente em todos os campanários iluminados pelo sol magnífico dum sábado de verão - tinha para Anselmo um encanto novo. Seus vivíssimos olhos pardos, fulgurantes como os dos tigres, filtravam, através das lentes do pince-nez, a alegria, toda espiritual, que lhe ia na alma. Errando pelo céu muito azul, repousando na copa frondosa das árvores do parque onde cantavam, à compita, cigarras e passarinhos, deslizando pela verdura macia dos tabuleiros, boiando nas águas quietas, lisas, espelhentas dos lagos, raro em raro frisadas pelas palmouras dum cisne, que ia airosamente da margem à ilha, tão sereno como se vogasse ao som da correnteza, não viam seus olhos senão a casa para onde o levavam ansiosamente os passos sôfregos, do outro lado do parque, perto dos Bombeiros.
Que lhe importava o esplendor da manhã se outro maior lhe estava reservado além daquelas grades, num retiro maravilhoso de Arte, povoado de mármores divinos, como um templo?
Ali, sim! Dilataria a alma sequiosa e seus olhos teriam a desejada visão duma oficina sagrada. O soalho, de caprichoso e miúdo mosaico de madeira, encerado, luzidio, devia ser forrado por um largo tapete de altas felpas moles, semeado de flores, por entre as quais ninfas, graciosamente nuas, andassem fugindo aos egypans, não porque os temessem, senão para que, demorando a posse, mais os desejos neles inflamassem.
Nas paredes preciosos e raros gobelinos, panos da Ásia, de seda e ouro, com deuses truculentos e aves abrindo caudas imensas resplandecentes, oculadas de ouro. E telas de artistas célebres sóbrias; bronzes e mármores, panóplias de armas autênticas, uma severa biblioteca de madeira negra sabiamente abastecida, a mesa, vasta e pesada, manuelina; cadeiras altas como faldistórios e, acima da mesa, suspenso do teto por uma grossa corrente de velhíssima prata, a lâmpada serena das meditações.
Assim imaginava Anselmo a casa de Ruy Vaz, à qual se dirigia pela primeira vez.
Conhecera o romancista na rua do Ouvidor, dias antes, e ia vê-lo na intimidade do gabinete, nas suas vestes maneiras de trabalho.
Ia penetrar esse ádito em que habitava o escritor que ele seguia de longe, enamoradamente, quando o via passar na multidão com grandes olhos femininos, de longas, sedosas e curvas pestanas, sempre enevoados de sonhos, cofiando o bigode negro, num andar rápido como se sempre fosse à pressa anotar uma idéias, registrar uma observação, rematar uma página, esboçar um romance, consultar uma nota. E tinha revoltas violentas vendo a indiferença da multidão que nem sequer abria alas ao autor de tantas e tão soberbas páginas humanas.
Seguia e, se fosse a uma apetitosa aventura de amor, discreta e arriscada, sorver extasiadamente o primeiro beijo criminoso, enlaçar, com ânsia, o corpo branco e fragrante, molemente lânguido, da mulher amada, não levaria o coração tão sobressaltado. Quando passou o portão deteve-se um momento ao sol, hesitante. "Mas àquela hora o romancista devia estar almoçando..."
Uma corneta soou gravemente, em notas prolongadas e o dobre de um sino passou rolando nos ares lúcidos. Meio-dia!
Atravessou a rua e, de olhos altos, consultando as placas, parou diante de um largo portão que, abrindo sobre um pátio ladrilhado, dava ingresso à casa, de dois altíssimos andares.
Um homem barbado, em mangas de camisa e descalço, varria preguiçosamente a entrada, com a cabeça derreada, um olho fechado para evitar a fumaça do cigarro que lhe rolava, úmido, nos beiços. Anselmo abordou-o:
- Não mora aqui o senhor Ruy Vaz? O homem cuspiu para um lado a ponta do cigarro e, levantando a cabeça hirsuta e ruça de poeira, encarou o estudante com indiferença:
Preview chapterIIPreview
Anselmo ficou a meditar sobre a estranha Psicologia das botas e sobre o destino dos seus sapatos. Já os via penetrando, com discreção, a câmara da entediada e loura dama. Já os via afundados nos felpudos tapetes, já os via aconchegadinhos às sandálias bordadas da amorosa, falando-lhes em segredo, perto do leito, enquanto os donos...
Ah! O dono dos sapatos era ele e ali estava só, com duas velhíssimas chinelas nos pés, entre livros, diante de uma mesa carregada de papéis onde reluzia a pasta do escritor, bojuda e larga. Que havia de fazer para não sentir as horas lentas e caladas que iam passar? Tirou o casaco e o colete e, senhor da casa, sentiu uma pontinha de despeito, mas recompôs o espírito alvoroçado com um argumento fino e justo: "Sim, se lhe emprestei os sapatos ele confiou-me a casa que, se não vale pelos móveis, duma deplorável banalidade, muito merece pelo que há ali naquela pasta atochada, preciosa como um tesouro e por aquela soberba Barricada que, se agora as aranhas profanam, mais tarde há de ser disputada com o mesmo furor artístico com que hoje os milionários se batem a moedas por um palmo de tela da Renascença." Sentou-se à mesa, tomou um volume, abriu-o ao acaso, e leu:
Une nuit que j'étais prês d'une affreuse Juive, Comme ou long d'un cadavre, un cadavre étendu, Je me pris à songer...
Eram versos de Baudelaire. Apesar de os conhecer, deixou-se levar por eles, embalado no ritmo das estrofes, seduzido pela sonoridade das rimas, mas, de quando em quando, desviava-se-lhe o espírito: a transcendente Psicologia das botas perseguia-o e os seus sapatos como que lhe passavam por diante dos olhos animados, fugindo numa névoa para a câmara cheirosa de uma mulher loura, que surgia dentre sedas e linhos, esplêndida de graça e nua como a Vênus quando nasceu do mar, enrolada em rendas de espumas, à luz do sol da Hélade divina.
Levantou-se bocejando e, mole, sob o influxo dormente do silêncio e do sol que espalhava um suave narcótico no ar, atirou-se à cama com o Baudelaire e leu até que o livro aberto lhe caiu sobre o peito e os olhos se lhe fecharam languidamente.
Que horas seriam quando despertou? Vinha perto a noite. A brisa era fresca, a luz era branda. Sons de flauta passavam no ar. Seria o rouxinol? Não, não era o rouxinol nem era a cotovia, mas um vizinho melómano que soprava o tubo. Ergueu-se, foi lavar o rosto e, revendo-se ao espelho, lançou à própria imagem esta interrogação preocupada: "Por onde andarão os meus sapatos?" Escurecia. Começava a entediar-se quando bateram à porta discretamente.
- Quem é?
- Sou eu, disse alguém com preguiçoso vagar. Foi à porta, entreabriu-a e distinguiu um vulto imenso de mulher. Como lera a Géante, de Baudelaire, atribuiu a aparição daquela monstruosidade à sugestão da leitura. Mas a aparição movia-se, coçava o queixo e falou:
- Sinhá mandô sabê vosmicê cum passô e si vai lá...
- Sinhá! Quem seria a solícita criatura?! Alguma formosa mulher, sem dúvida; talvez a musa reinante do romancista. E que lhe havia de mandar dizer?
- Olha, dize-lhe que estou passando mal. Torci um pé justamente quando me vestia para ir jantar. Como vai ela?
- Ela tá boa. Então vosmicê não vai?
- Não posso. Dize-lhe que estou impossibilitado de sair.
- Sim, sinhô. E a imensa mulher moveu-se na sombra pesadamente e foi-se. Quem será?! - pensou de novo Anselmo olhando tristemente para os pés, como um pavão. Sinhá!?..
Mas... por onde andarão os meus sapatos!? E, conjeturando, debruçou-se à janela, já aflito, vendo chegar a treva sem que, ao menos, tivesse à mão, para alumiar o aposento, uma reles candeia. Como, porém, o almanaque anunciava para a noite seguinte lua cheia contava com a presença clara do astro.
Table of contents
Inside this edition
- 01AOS DA CARAVANA
- 02I
- 03II
- 04III
- 05IV
- 06V
- 07VI
- 08VII
- 09VIII
- 10IX
- 11X
- 12XI
- 13XII
- 14XIII
- 15XIV
- 16XV
- 17XVI
- 18XVII
- 19XVIII
- 20XIX
- 21XX
- 22XXI
- 23XXII
- 24XXIII
- 25XXIV
- 26XXV
- 27XXVI
- 28XXVII
- 29XXVIII
Language availability
Other languages
Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.
Request another language