BooksWhaleBooksWhale
A Divorciada cover

Portuguese Edition

Literature

A Divorciada

Portuguese BooksWhale Edition by José Augusto Vieira

José Augusto Vieira acompanha relações conjugais e conflitos sociais num romance naturalista atento às convenções e às fragilidades da vida burguesa.

Preview
A sample from the prepared text
Formats
Online reader, EPUB, PDF
Access
Library claim

Book introduction

A Divorciada

A Divorciada explora um meio em que o casamento, a reputação e as expectativas sociais condicionam escolhas e sentimentos. José Augusto Vieira constrói a narrativa através de encontros, conversas e espaços da sociabilidade burguesa, deixando que as contradições das personagens apareçam nos seus actos. Os dezasseis capítulos articulam observação de costumes e conflito íntimo, situando a experiência individual no quadro das convenções do seu tempo.

BooksWhale edition

How this edition was prepared

This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

Public domain basis

Why this edition can be shared

José Augusto Vieira faleceu em 1890. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas editoriais ou ilustrações posteriores.

Read preview

A sample from the prepared text

Preview selected from the prepared reader text.

Preview chapterFull textRead preview

A Divorciada

Preview chapterIPreview

Festejavam-se á noite em casa do brasileiro Mendes os dezenove annos da menina Adelaide.

Toda ella se affogueava nos contentamentos intimos de rainha da festa, as faces carminando-se das exhuberancias humidas e quentes d'uma mocidade recatada e honesta, muito vaidosa do seu vestido novo, praguejando em frente do espelho, como um collegial estroina, contra aquella moda de penteado, que lhe não deixava pôr em relevo as longas tranças castanhas, tão espessas, que a natureza lhe doara.

Tinham-se convidado apenas as filhas do Gomes, as Bastinhos, a Ermelinda Silva, filha do Jorge director d'um banco, e umas poucas mais, ex-companheiras de collegio, muito intimas, com quem se não fazia ceremonia.

Rapazes viriam tambem.

O Juca, sobrinho do Mendes, tinha-se encarregado de apresentar alguns amigos, e o brazileiro, muito popular nos estabelecimentos da Praça de D. Pedro, convidara alguns caixeiros—para irem beber um calice do fino, fazer uma saude á pequena.—

Era cedo ainda.

A grande meza de jantar, como um cetaceo brunido, estendia toda a elasticidade das suas articulações para sustentar no dorso viandas appeteciveis, carnes frias, podins gelados, os largos taboleiros de doce, as garrafas de crystal com opalinos vinhos do Porto e da Madeira. Ao centro um jarrão de porcellana, cheio de camelias encarnadas e brancas, dominava todo aquelle acampamento de coisas appetitosas, orgulhoso de si, como o general Boum no meio das amazonas da Grã-Duqueza.

Na sala de visitas a menina Adelaide collocava por suas proprias mãos heras e flores em volta das serpentinas.

O Mendes, em mangas de camisa, suando como outr'ora nas labutações dos seus armazens, dava ao piano uma collocação apropriada de modo a occupar o menor espaço possivel; depois vinha para o meio da sala, olhava-o na bruta admiração da sua grossa esthetica e via que ainda se podia chegar mais á parede.

—Ficava melhor, dizia.

Mas a filha, interrompendo o seu trabalho:

—que assim não estava bem, nem se ouviam os sons,—credo!—e, de mais, pouco espaço ficava para uma senhora poder tocar!—

O Mendes reconsiderou, cedendo um pouco da sua opinião, e em seguida foi auxiliar a filha a dispor as flores sobre as serpentinas.

Dentro, n'outra parte da habitação, a D. Carola, accomodava uma saleta para toilette das senhoras, e o Juca, no seu quarto que serviria de sala de fumo, dispunha charutos deliciosos n'uma estatueta bronzeada, que fingia um escravo carregador.

Das oito para as nove horas os convidados principiaram a chegar.

Vieram primeiro as Bastinhos; traziam uns bouquets muito elegantes, feitos no Loureiro; foram recebidas com beijos cantadinhos e com um:

—Oram vivam, do brazileiro.

Acompanhava-as o pae, ex-socio do Mendes,

—homem de peso, dizia-se na praça, e compadre do dono da casa.

—Como ia de saude, ein?—perguntou, n'um shake hands expressivo, espalmando a larga mão, com uma grande cordealidade alegre.

—Uma faina, compadre, lhe não digo nada! me parece este dia aquelles em que estavamos nos trapiches do Rio, se lembra você?

E n'uma phonetica abrazilada, machucando a lingua patria, como se premissem canna d'assucar, os dous recordavam as suas amargas horas de trabalho, fatigantes mas productivas, que lhes davam agora uma tranquillidade modesta e sã, no meio da qual as suas carnes espapavam nas blandicias oleosas d'uma nutrição sadia.

—Se gosa tambem agora, deixe lá.

—Ah! se não fôra isso!

As meninas entretanto, tinham ido, abraçando a cintura de Adelaide, até ao quarto da toilette, conversando muito, umas interrogativas agglomeradas, de quem se não vê desde tempo.

—E de rapazes quem viria?—perguntava a mais nova das Bastos.

—Ah, olha que não sei verdadeiramente; quem os convidou foi o Juca e o papá.

—Virá o Alberto?

—Maliciosa! bem sabes que elle não faltaria.

—Como ouvi dizer que andava indifferente com teu primo.

—Ora, deixa lá! Ainda hontem o Juca me disse que tinha estado com elle no Suisso!

Preview chapterIIPreview

Tinham decorrido quinze dias.

O namoro havia pegado, consolidara-se. Com uma certeza chronometrica o Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de Ermelinda.

Uma vidraça corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na cabeça, emmoldurando-se no fundo escuro do desvão da janella.

A visinhança reparara a principio.

—Havia mouro na costa—diziam—mas pouco a pouco a tolerancia estabelecera-se, uma indifferença ordinaria, de coisa vulgar. A sua badine que tanto prendera as attenções, pelas curvas hyperbolicas que traçava no ar, fazendo signaes, já não despertava interesse; o lenço branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das impressões amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria creado o bafio das secreções. O namoro tornara-se um facto consumado, ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.

A casa do Jorge tinha uma frontaria só; era como uma cellula engastada no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes vaporisações ammoniacaes. O Alberto, que não podia remediar esta inconveniente disposição, utilisava-a. Era d'ali, que elle, occulto pela sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.

A noite adiantava-se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha, n'uma locomoção arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos ruminantes na solidão dos campos. Clareações de gaz punham sombras indecisas, formando na rua projecções phantasticas. Uma faxa de ceu, limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.

Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam-se vozes disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria-se alguma janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma contravenção do codigo municipal.

O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu pardessus, a garganta agasalhada nas dobras quentes de um cache-nez; mansamente, como uma cobra que deslisa, elle introduzia-se no recanto proximo e accendia um charuto.

Era o signal.

Uma vidraça rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda, muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabeça de fóra da janella, investigando no espaço os raros vultos que passavam, como se receiasse compromissos.

Cumprimentavam-se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeçava para o alto umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.

—Que não acreditava, que era uma impostura.

—E porque não?

—Os homens! quem podia fiar-se n'elles! havia por ventura nada mais falso?—dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda, em coisas de namoro.

—Ah! que elle não era assim!—protestava—que sentia por ella um immenso amor, infinito, como só uma vez se conhece na vida.

—E mais quem!—sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a vaidadesinha de conquistador.

—Podia jurar-lh'o—affirmava—por tudo o que houvesse de mais sagrado aos seus olhos, pelo seu coração, pela sua sorte, pelo proprio Deus!

Ermelinda calava-se. N'estes momentos parecia-lhe que, se fallasse, profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor; concentrava-se sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adoração mystica e sentia-se invadir d'umas sensações deliciosas, que a enterneciam.

—Não! elle não podia mentir—pensava—como era feliz em ser assim amada!

Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho tépido d'essencias perfumadas. Se interrogasse então a voz occulta do seu espirito, não poderia dar uma definição de si propria.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02I
  3. 03II
  4. 04III
  5. 05IV
  6. 06V
  7. 07VI
  8. 08VII
  9. 09VIII
  10. 10IX
  11. 11X
  12. 12XI
  13. 13XII
  14. 14XIII
  15. 15XIV
  16. 16XV
  17. 17XVI

Language availability

Other languages

Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.

Request another language

A Divorciada

Membership $9.99 / year · claim access

PreviewJoin