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Portuguese Edition

Literature

A Farsa

Portuguese BooksWhale Edition by Raul Brandão

Raul Brandão expõe a distância entre a aparência social e o sofrimento íntimo num romance de ambição, miséria e desengano.

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Book introduction

A Farsa

Em A Farsa, Raul Brandão aproxima a observação da vida social de uma exploração das zonas mais dolorosas da consciência. A ambição, o desejo de reconhecimento e a precariedade das relações revelam personagens presas entre o que representam e o que vivem. O romance recorre a cenas intensas, contrastes e reflexões sobre a dor humana. O texto português aqui utilizado apresenta ortografia atualizada.

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Raul Brandão morreu em 1930; a obra foi publicada em 1903. Utiliza-se o original português em domínio público, sem notas ou acrescentos editoriais modernos.

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Preview chapterCAPÍTULO 1Read preview

-- Ai que ma levam! ai que ma levam!

Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta, névoa e granito, formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão, O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...

-- Ai que ma levam!

E o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas. Só aquele grito ressoa na praça solitária. A torre da Sé deformou-se: o granito aliado à névoa de mistura com a noite, abriram arcarias, alongaram as portas e fizeram dos restos da muralha antiga um tropel caótico. É uma amálgama de realidade e pesadelo, trapos de nuvens e palácios desmedidos. A escuridão remexe. Não se sabe bem onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade desconforme, sepulta em treva e lavada em lágrimas, ou meia dúzia de casebres e uma torre banal. Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por quatro arcos ogivais. Mas a luz treme à ventania, os arcos balouçam, a abóbada estremece, e, ao repelão do vento, grandes sombras esvoaçam, afundando-se no negrume. Há uma sufocação, um espanto, o terror de que a candeia se apague, e só fique o nada, a escuridão imensa e compacta e o grito raspado Lá a levam! lá a levam!... É como a última claridade dum barco de náufragos, tragado sem remissão no redemoinho dum indefinido oceano polar. Adivinha-se a porta da igreja, uma golfada de tinta, e o telingue-telingue eterno duma fonte o choro baixinho daquela escuridão cerrada. A luz estrebucha. Se o vento a sumisse levaria consigo o último sinal de vida. Ficava apenas na noite infinita, impenetrável e revolta, o grito de angústia:

-- Ai que ma levam!

As palavras saem duma casa incrustada na Sé. Dentro, numa sala, expõem num caixão o cadáver duma mulher magra, de cera, com flores baratas de papel na cabeça e no seio ressequido.

Agarrado ao esquife alguém berra, sacudido de desespero, como um farrapo ao vento. Em vão. A morta continua a sorrir, com os dentes arreganhados e um lenço apertado no queixo, numa imobilidade pétrea. Fora a noite, a invernia brava, dentro a morte e aquela dor suprema e inútil...

-- Ai que ma levam! ai que ma levam!

Na sala pegada, de teto abaulado, um candeeiro de petróleo alumia outras figuras. São as visitas de enterro: velhas, dois homens, um padre, todos de negro, hirtos e solenes, em roda, nas cadeiras da sala e no canapé de palhinha.

De vez em quando uma boca mastiga no escuro. A luz bate-lhes de chapa, ilumina-os como retratos: certos pedaços de fisionomia ressaltam, avançam, outros recuam na sombra. As figuras cerimoniosas são disformes, lembram caricaturas, e os traços exagerados exprimem egoísmo, avareza e secura. Ouve-se o raspar das unhas na seda preta dos vestidos. Uma voz soturna afirma: Deus lá sabe, na sua misericórdia infinita... E outra acode logo, num tom esganiçado e importante: Resignemo-nos perante os seus decretos... São palavras da regra, que soam falso, sempre as mesmas. As outras mulheres ajeitam-se, suspiram e tomam a quedar-se num longo silêncio enfastiado. O homem no quarto ao lado, seguro ao esquife como um náufrago a uma tábua, soluça, e aquela dor que não cessa indigna e exaspera as velhas.

Preview chapterCAPÍTULO 2Preview

As velhas estão juntas na sala. Banalidade, hábitos, gestos indiferentes. São criaturas egoístas e secas que se cumprimentam e odeiam: a Candidinha embrulhada no trapo, calada e hirta, com o filho, o Antoninho, ao lado; o Anacleto sem dizer palavra; a figura caricata da criada; e a rapariguinha inocente, feia e triste. E quase as mesmas palavras, os mesmos ditos, a mesma bisca que a morte um dia interrompeu jogada sobre o porão onde os caixões esperam como bocas abertas na velha casa incrustada na Sé, batida da ventania, sob os frígidos aguaceiros, que descem da serra, corda atrás de corda.

Mas há ocasiões na vida em que as figuras humanas adquirem uma expressão extraordinária. Basta que outra luz as ilumine diferente daquela em que estamos habituados a vê-las. Às vezes basta uma palavra e descobrimos um mundo novo que nos surpreende. O hábito é uma grande coisa: sem o hábito a gente morria de pavor...

Esta noite, à luz do candeeiro, a sala afigura-se-me um aquário com bichos disformes pousados no fundo. Pelas paredes a sombra alastra e sobe pelo teto como braços de algas monstruosas e encova-lhes os olhos sem expressão tornando-os maiores e mais fixos; suas bocas enormes remoem como ventosas e a cara empedrada do Anacleto torna-se mais dura e mais impenetrável como a dum ídolo que presidisse àquela reunião de bichos temerosos. A história destes seres, o hábito e a inveja que é toda a história da vila há dois mil anos revela-a o claro-escuro melhor que nos quadros de Rembrandt, deformando os tipos, exagerando-lhes as papeiras e os gadanhos, avolumando-lhes as barrigas inchadas, os seios engelhados e todas as deformidades com ferocidade e grotesco, até ao ponto de nos mostrar a nu almas trágicas de monotonia e rancores até ao ponto de vermos remexer lá no fundo do poço animais gelatinosos, que vivem na água esverdeada sonhando na presa e remoendo sempre o sumidouro das bocas horríveis e frias como as dos cadáveres. A Sombra é um grande pintor.

Se a rajada levasse o que a cova leva e desfaz a matéria e ficasse de pé o que é eterno, talvez recuássemos de espanto diante de tipos desconhecidos, de sentimentos desconhecidos, de almas nuas na sua beleza ou na sua esplêndida hediondez. Aquele casebre de granito enegrecido pelo tempo, há muitos anos que abriga os mesmos dramas. Cada figura traz recalcado e escondido sob um aspeto banal o seu sonho. Já a morta é pó, a criança cresceu, as velhas recurvaram e azedaram: só a pedra não mudou nem o tempo eterno: o ódio acumulou-se. Soou a hora: a catástrofe desaba e no entanto a Felícia, a Patrícia, as outras continuam como sempre, escravas do hábito, a reunir-se todas as noites de inverno. Os queixos agitam-se, estremecem as mãos, mais secas; o Anacleto a um canto ressona, e a Candidinha imutável embrulha-se no xale e atende... Segreda a Sofia, como se lhe repetisse uma frase de há muito anos: Ouviste? ouviste? ouviste?... E o velho relógio de parede, rape que rape, tosse de vez em quando as horas no escuro, marcando o estúpido tempo. E de vez em quando, no silêncio sente-se passar a lufada e desabar o enxurro.

-- Não se quer confessar dizia Adélia, a propósito de alguém que está na agonia.

-- Manda-se lá o padre Júlio.

-- Já lá foi e nada. Morre impenitente.

-- Vou eu lá diz a Felícia.

Calam-se e olham-na surpreendidos. Ela explica:

-- Alguma coisa tenho de fazer para que Deus me perdoe os meus pecados. Deus é grato a quem salva uma alma.

-- Deus perdoa tudo.

-- Tudo não. Amanhã vou falar com ele. Talvez o convença e Deus me perdoe os meus grande pecados.

Preview chapterCAPÍTULO 3Preview

Véspera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: uma mixórdia de grotesco e de caligens, de lama e gritos, de gestos confusos e de novelos pastosos que se acastelam lá no alto e barram o céu de horizonte a horizonte em pesadas cortinas sobrepostas. Vem a cerração e a chuva pegada e tão miúda que amolece o granito Das ruas irrompem sucessivos magotes, num clamor de inferno. Na noite ressoam gritos, urros, e clarões de archotes revoluteiam tornando-a mais densa e profunda: fisionomias e gestos surgem de repente como aparições e logo se somem no pez. É uma mescla de negrume e fogo, de braços que se agitam, de doida ventania e chuva cuspinhenta. Os tambores rufam sem interrupção dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra. Uma derrocada em tropel, um jato vivo de escuridão, um burgo de sonho entrevisto que o vento leva consigo.

A turba avança, a praça trasborda: há milhares de bocas que gritam ao mesmo tempo. Aquele mar humano oscila, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica só a noite e o ruído; avivam-se os fogaréus e voltam a entrever-se as faces, as bocarras abertas pelos risos estúpidos, rasgados de orelha a orelha.

-- S. Nicolau! S. Nicolau!...

É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo.

Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão que oscila e se espraia até à muralha da igreja. Em cima a abobada negra do céu goteja lama e as névoas arrastam-se lentas e esponjosas, bambinela atrás de bambinela, pegam-se às paredes e deformam-nas, desagregam-se, suspendendo-se nas arestas do granito como grandes farrapos de luto. Os uivos redobram. O mesmo pé de vento parece que fez redemoinhar a canalha e galopar no céu os grossos novelos de fumo.

-- A câmara! aí vem a câmara!...

Pendões balouçam-se, inclinam-se como velas sacudidas pelo temporal, a que se agarram meia dúzia de náufragos. Logo mais alto, se ouvem os clamores e a charanga ataca as primeiras notas duma marcha de guerra. Abre o cortejo o presidente do município, imponente e grave, com o pendão erguido; seguem-no, solenes, o Pinheiro Careca e outros tipos cerimoniosos, de sobrecasaca e chapéu alto, sob a chuva incessante. Há um vaivém: a mó de gente empurra-se e rodopia, mas organiza-se afinal o cortejo, depois de desordens e protestos; das tabernas irrompem os últimos matulas de suíças; e o céu todo lama desce, desaba, imenso, gelado e fétido, sobre a triste humanidade. Fúnebre, lá consegue o Testa, de cara rapada e olho em alvo, abrir a marcha com o pendão erguido ao vento.

O Careca pega com sofreguidão a uma borla, a charanga segue a passo cadenciado, e por último os magotes anónimos e confusos.

-- S. Nicolau! S. Nicolau!...

E tudo aquilo, mar de uivos, treva, archotes, homens e fêmeas, urros e clarões, jorro desordenado e imenso, se engolfa nas ruas estreitas, numa interminável e ensurdecedora bicha. Aqui e além o fogaréu dum archote: dum lado a casaria, do outro a muralha antiga, compacta e bárbara, a que a noite dá dimensões monstruosas.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01CAPÍTULO 1
  2. 02CAPÍTULO 2
  3. 03CAPÍTULO 3
  4. 04CAPÍTULO 4
  5. 05CAPÍTULO 5
  6. 06CAPÍTULO 6
  7. 07CAPÍTULO 7
  8. 08CAPÍTULO 8
  9. 09CAPÍTULO 9
  10. 10CAPÍTULO 10
  11. 11CAPÍTULO 11
  12. 12CAPÍTULO 12
  13. 13CAPÍTULO 13
  14. 14CAPÍTULO 14
  15. 15CAPÍTULO 15
  16. 16CAPÍTULO 16

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