
Portuguese Edition
Literature
A flor secca
Portuguese BooksWhale Edition by Manuel Pinheiro Chagas
Uma narradora recorda os afetos, receios e mal-entendidos do casamento num romance português de intimidade, ciúme e desengano.
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Book introduction
A flor secca
Através da recordação de uma mulher casada, Manuel Pinheiro Chagas acompanha a formação de expectativas amorosas e as suspeitas que alteram a vida doméstica. Conversas, encontros e interpretações precipitadas transformam sentimentos difíceis de confessar em motivos de sofrimento. A flor secca explora a distância entre o que se sente, o que se diz e o que os outros imaginam, mantendo o olhar próximo da experiência da narradora.
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Obra original em português de Manuel Pinheiro Chagas, falecido em 1895. O texto provém da transcrição da obra em domínio público no Project Gutenberg; imagens e notas editoriais modernas foram excluídas.
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MEU CARO JULIO
Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade.
Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez offerecer flor mais fragrante do que esta pobre Flor Secca, secca e sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria.
PINHEIRO CHAGAS.
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Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos.
—Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.
Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.
—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.
Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, e disse-lhe:
—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á minha affeição.
—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.
Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.
Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado duas horas.
Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam sem brilho.
Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A tal convite nunca eu soubera resistir.
Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu par na polka.
O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus olhos.
—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.
—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.
Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia n’uma das suas horas de mau humor.
Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.
Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.
Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.
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Esse Ah indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante, merece e vae ter uma explicação.
Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario, demasiado ardor.
Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro, terras encantadas das Mil e uma noites, choréas de brancas fadas, vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia: «Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha, são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões? Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as tristezas e amarguras da realidade!»
Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel a existencia.
Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e terra, como o caixão de Mahomet.
Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo. A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame» da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich. Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano. Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do instrumento!
Table of contents
Inside this edition
- 01A JULIO CESAR MACHADO
- 02I
- 03II
- 04III
- 05IV
- 06V
- 07VI
- 08VII
- 09VIII
- 10IX
- 11X
- 12XI
- 13XII
- 14XIII
- 15XIV
- 16XV
- 17XVI
- 18XVII
- 19XVIII
- 20XIX
- 21XX
- 22XXI
- 23XXII
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