
Portuguese Edition
Literature
A guerrilha de Frei Simão
Portuguese BooksWhale Edition by Alberto Pimentel
Alberto Pimentel acompanha um frade guerrilheiro nas lutas liberais portuguesas, aproximando conflitos políticos, vínculos familiares e perseguição religiosa.
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Book introduction
A guerrilha de Frei Simão
Frei Simão de Vasconcellos abandona a tranquilidade conventual e participa nas lutas que dividem Portugal entre liberais e miguelistas. O romance segue a sua formação, os compromissos afetivos e as campanhas que o conduzem ao confronto com a repressão. Alberto Pimentel combina investigação histórica e narrativa de aventura para reconstruir uma existência marcada pela guerra civil, preservando o prefácio do autor e os vinte e oito capítulos.
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Obra original em português de Alberto Pimentel, falecido em 1925. O texto provém da transcrição da obra em domínio público no Project Gutenberg; imagens e notas editoriais modernas foram excluídas.
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Preview chapterDUAS PALAVRASRead preview
Passei o dia 9 de setembro de 1894, em Cezár, na casa onde nasceu frei Simão de Vasconcellos, o protagonista d’este romance. A amavel hospedagem com que alli me recebeu o sr. Alfredo Praça de Vasconcellos, bacharel em mathematica pela Universidade de Coimbra e sobrinho de frei Simão, largamente me compensou dos incommodos da jornada. Eu ia, mediante prévia auctorisação, colhêr informações directas sobre um assumpto que me indicára em Lisboa o meu illustre amigo o sr. visconde de Villa Mendo: o assumpto d’este livro, cujos pormenores estudei com desvelada exactidão.
Á roda do meu primoroso hospedeiro estavam reunidos em grupo todos os velhos de Cezár que ainda tinham conhecido frei Simão de Vasconcellos. Trez apenas. Ouvi da sua bôca a narração de interessantes minucias biographicas. Por favor do sr. Vasconcellos compulsei varios documentos de familia, posteriores ao auto-de-fé em que as justiças miguelistas pulverisaram o archivo da sua casa.
Creio que este romance deverá o «sens du réel», que porventura o vitalise, á profunda impressão que recebi, n’esse dia, em visita ao solar do Outeiro, sob os tectos que abrigaram parte da atormentada existencia de frei Simão; e em passeio pelos campos de Cezár, acompanhado pelos ultimos contemporaneos do frade guerrilheiro, que paravam reatando lembranças, mencionando logares e factos, e cujos cabellos brancos se doiravam a espaços com algum alado raio de sol que luciolava os frócos verdes do arvoredo.
Procurando, no pouco que me era possivel, retribuir a patriarchal cordealidade da hospedagem, pedi licença ao sr. Alfredo de Vasconcellos para lhe offerecer este romance,—a historia da sua familia.
Vi que as lagrimas lhe saltavam dos olhos n’esse momento. Olhando fito em mim com o olhar embaciado, o sr. Vasconcellos respondeu-me:
—Comprehendo a sua intenção, e agradeço-lh’a. Mas se v. quer dedicar o seu livro a um parente do frade do Outeiro, peço-lhe que o offereça á memoria de meu pobre irmão, o major Augusto Cezár de Vasconcellos, morto na mallograda revolta de Braga em 1862, no cumprimento do seu dever.
E as lagrimas abafavam-n’o n’uma commoção torturada.
É pois á memoria d’esse infeliz sobrinho de frei Simão de Vasconcellos que eu dedico a chronica fiel da attribulada existencia e corajosa morte do tio.
Outras jornadas emprehendi por amor da verdade historica. Duas vezes tive de ir á Villa da Feira para reconstruir o episodio da evasão de frei Simão de Vasconcellos, da cadeia d’aquella villa.
Da primeira vez não pude colhêr as informações que desejava. A memoria dos velhos sobreviventes estava confusa e hesitante, quasi apagada. Da segunda vez, caminhei ao acaso, dirigindo-me, por palpite ou intuição, ao primeiro homem encanecido que encontrei. Felizmente, elle poude indicar-me a pessoa que reputava habilitada para esclarecer-me. Assim fiz; e assim foi.
Desde essa hora, o romance estava completo. E, emquanto o escrevia, eu comprehendia a exacta affirmação, que aos indifferentes de hoje parecerá arrojada hyperbole, contida n’esta phrase de Alexandre Herculano: «A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico d’este seculo.»
Lisboa, 13 de junho de 1895.
Alberto Pimentel.
Preview chapterI Flor do TámegaPreview
Amor quiz................. Unir vontades que separa a guerra. Braz Garcia de Mascarenhas—«Viriato tragico», canto XVIII.
Os Vasconcellos, de Cezár, gente de boa raça, aparentados com muitas familias illustres, entre as quaes os Pintos de Parámos, os Tavares e Pereiras da Terra da Feira e os Côrte-Reaes de Gafanhão, tinham como representante, no fim do seculo passado, José Bernardo Pereira de Vasconcellos, marido de D. Anna Margarida de Almeida Cabral.
D’este casamento nasceram cinco filhos e quatro filhas.
Sobejavam a José Bernardo meios de farta subsistencia para tão numerosa próle, pois que as suas propriedades se estendiam desde Cezár, na comarca da Feira, até á villa de Arouca, onde possuia a quinta do Outeiral.
José Bernardo fixára residencia, depois de casado, na casa do Outeiro, em Cezár, e, graças á sua abastança, podéra dar uma collocação decente aos cinco filhos varões, destinando uns á vida monastica, outros á carreira das armas, segundo a tradição grada d’aquelle tempo.
Simão, que nascêra a 28 de setembro de 1789, entrou na ordem de S. Bernardo, e professou em Alcobaça. José vestiu o habito benedictino no mosteiro de Refoyos de Basto.
Joaquim Maria e Frederico sentaram ambos praça no regimento de infanteria 6. Eram duas creanças, quando em 1808 foram reconhecidos cadetes. Fizeram a guerra peninsular, sendo Joaquim Maria gravemente ferido, em uma perna, na acção de 31 de julho de 1813.
Antonio, o filho mais novo, ficou, em rasão de sua pouca idade, sob a tutella paterna, quando os irmãos, seguindo cada qual seu destino, se ausentáram da casa do Outeiro.
No fim do anno de 1814, Joaquim Maria foi promovido a tenente para infanteria 13. Mas obteve depois transferencia de arma, passando a servir em cavallaria.
Frederico era, em 1819, alferes ajudante de infanteria 18, aquartelada no Porto. Casando com D. Margarida Fontana, pediu a demissão, pura e simples. Mas o governo concedeu-lhe a reforma em attenção aos bons serviços, que tinha prestado durante a guerra peninsular. Devia ter sido o coronel commandante d’aquelle regimento, Bernardo Corrêa de Castro e Sepulveda, dedicado protector de Frederico Pinto, quem, junto do governo, interveio para que a demissão fosse substituida pela reforma.
Em 1820 rebentava a revolução liberal do Porto, e Frederico, apesar de ter renunciado á vida militar, interessou-se, com enthusiasmo e convicção, pelo bom exito do movimento revolucionario, que os portuenses haviam preparado.
É de presumir que as ligações de Frederico com o coronel Sepulveda o acirrassem nos ideaes do constitucionalismo.
Joaquim Maria, promovido a capitão e collocado em cavallaria 6, dragões de Chaves, resistiu, obstinado, ás suggestões absolutistas dos Silveiras, recusou-se em 1823 a acompanhal-os no movimento que principiou em Villa Real no dia da procissão de Passos.
Seriam apenas rasões de caracter politico as que crearam ao capitão de dragões essa dura situação de intransigencia em que teimosamente se conservou até á morte?
Não. Quando um homem pertinazmente salta por cima de todas as conveniencias pessoaes, com os olhos fechados, esse homem obedece, por via de regra, mais ao impulso do coração que do espirito.
N’aquella epocha de fluctuações e incertezas politicas, as opiniões transformavam-se com os acontecimentos do dia, ao sabor dos interesses de cada individuo ou de cada familia. O proprio monarcha dava o exemplo aos que o tinham visto jurar a constituição nas Necessidades e haviam de vêr depois ir a Villa Franca ao encontro do filho. Mas os que não abdicavam de suas crenças, e preferiam o martyrio á transigencia, esses tinham o coração dilacerado por algum golpe profundo, que resultára de vinganças partidarias exercidas contra elles mesmos ou contra as suas familias.
As feridas do corpo podem esquecer-se, depois que cicratisáram; mas as da alma parece reverdecerem com o tempo.
Preview chapterII Adeus ao conventoPreview
...e lhe deram os vestidos seculares, que requereu ancioso de proseguir os actos da sua liberdade por que suspirava.
Frei Antonio da Piedade—«Espelho de penitentes», tom. I.
As quatro filhas de José Bernardo de Vasconcellos chamavam-se Maria Albina, Anna José, Antonia, e Maria Henriqueta.
Todas ellas lindas mulheres, parecendo ser a belleza apanagio de familia, tanto nas senhoras como nos homens.
Maria Albina era a mais velha.
Anna José, branca como as irmãs, tinha como ellas uns olhos de purissimo azul, e cabellos castanho-claros. A côr dos olhos reproduzia-se em todos os filhos de José Bernardo. Se porém alguma das quatro irmãs se avantajava ás outras em belleza, era D. Anna a mais formosa, segundo o testemunho dos contemporaneos. Diziam-n’a encantadora.
O pae, ao rebate dos primeiros achaques, encarregou Frederico da administração da casa, que consistia principalmente em prasos de livre nomeação. Entregou-lh’a, reservando o rendimento da quinta do Outeiral em Arouca para seus alimentos, de seu filho Antonio Pinto, o mais novo, de sua filha Maria Henriqueta, que se destinava á vida monastica, e de D. Theresa Bernarda de Vasconcellos, sua irmã d’elle. Os outros filhos, José, Simão e Joaquim Maria, estavam em posição de não carecer de auxilio paterno.
Desde o casamento de José Bernardo o domicilio da familia Vasconcellos era, como dissémos, na casa de Cezár.
Não primava pela grandeza da traça o solar do Outeiro, como ainda hoje se pode verificar, mas denunciava a nobreza de origem dos seus habitantes no brazão em madeira que corôava o tecto da sala de entrada e no qual se liam os appellidos de gloriosos ascendentes—Leites e Amaraes, Moreiras e Vasconcellos.
Quem hoje fôr a Cezár com o intuito de visitar a casa do Outeiro, poderá reconhecel-a de longe pelos altos cedros, que a ensombram. Mas estas arvores são relativamente modernas. O mesmo se pode dizer de uma pequena sala de entrada, á qual se sobe por alguns degraus de pedra, e que está mobilada com cadeiras de couro, tauxiado nos espaldares e assentos.
Tudo o mais conserva a feição que tinha o solar no tempo de José Bernardo e dos filhos.
O edificio é de um só andar, a pequena altura do solo, com janellas de differente feitio, voltadas ao nascente.
Entrava-se então no Outeiro por uma porta fronha, chamada a Porta vermelha, que abre sobre um pateo de pedra, separado do pomar, cujo nivel lhe é inferior. A sala de recepção era a de entrada, brazonada no tecto. Seguia-se, para o interior da casa, um corredor que dava ingresso aos quartos de cama.
Fóra do edificio ficavam as dependencias do solar, as officinas agricolas, a habitação dos caseiros, e a capella de familia, hoje desmantelada.
A esposa de José Bernardo havia fallecido, deixando na alma do viuvo um denso negrume de saudade, cada vez mais cerrado pela tristeza da inercia, a que a doença o ia reduzindo.
Viviam muito solitarias as quatro meninas, orphãs de mãe, e privadas da tutella vigilante do pae, achacoso e triste.
Frei José tinha comprado a Quinta de D. Maria, a dois passos do Outeiro, e doára-a a todas as quatro irmãs para sua habitação. Mas no Outeiro ou em D. Maria a solidão era igual para ellas.
Quatro irmãos, ausentes: José e Simão cada um em seu mosteiro; Frederico no Porto, Joaquim Maria em Traz-os-Montes.
Frei Simão, cujo caracter energico e destemido animo nunca poderam deixar-se domar pelo habito de S. Bernardo, a si proprio quiz justificar a ideia de que a sua presença se tornava necessaria em Cezár, para companhia e amparo das irmãs.
Era até certo ponto um pretexto, por isso que as quatro meninas ainda tinham o irmão mais novo, Antonio, e a tia, irmã do pae, que podiam acompanhal-as.
Table of contents
Inside this edition
- 01DUAS PALAVRAS
- 02I Flor do Támega
- 03II Adeus ao convento
- 04III Loucura revolucionaria
- 05IV A iniciação
- 06V O Fresca Ribeira
- 07VI Uma nuvem em ceu azul
- 08VII Angustias
- 09VIII Entre ferros
- 10IX Ultimo desengano
- 11X Morte redemptora
- 12XI Borrasca de ciume
- 13XII Separação inesperada
- 14XIII O oráculo
- 15XIV Á Porta Férrea
- 16XV Politica de estudantes
- 17XVI Falso triumpho
- 18XVII O crime do Cartaxinho
- 19XVIII Væ victis
- 20XIX A caça ao homem
- 21XX Nas garras da vingança
- 22XXI O napoleão de ouro
- 23XXII A paralytica
- 24XXIII Previsão do frade
- 25XXIV A organisação da guerrilha
- 26XXV José Maximo
- 27XXVI Deus escreve direito por linhas tortas
- 28XXVII Os fusilamentos de Vizeu
- 29XXVIII Epilogo
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