
Portuguese Edition
Literature
A Morte Vence
Portuguese BooksWhale Edition by João Grave
Júlia, Frederico e Nuno vivem conflitos afetivos em que desejo, remorso e fragilidade humana ameaçam a aparente estabilidade familiar.
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Book introduction
A Morte Vence
João Grave acompanha relações familiares e afetivas atravessadas por desejo, inquietação e consciência da morte. A vida doméstica de Júlia e as escolhas de Frederico e Nuno revelam distâncias entre a felicidade esperada e a experiência dos personagens. O texto português conserva os dez capítulos do romance e a epígrafe, com a ortografia histórica do exemplar utilizado.
BooksWhale edition
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João Grave morreu em 1934; o romance foi publicado em 1917; o exemplar utilizado é a segunda edição, de 1922. Utiliza-se o original português disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem imagens, notas ou material editorial posterior.
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Preview chapterEpígrafeRead preview
«Sê leal a ti mesmo...» shakespeare.
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A criança dormia tranqùilamente, deitada no seu pequenino berço vaporoso de rendas e resplandecendo de brancura, por êsse glorioso meio-dia de calor e de luz, no grande e benéfico silêncio que envolvia a vivenda feliz. A sua carne viriginal e transparente, ainda mal formada, parecia exalar claridade e tinha a coloração suave de certas rosas pálidas e orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, como uma ligeira nuvem de ouro, na alvura da almofada, macia e fôfa, que servia de travesseiro; e sôbre essa fronte angélica não profanada por impuros, venenosos pensamentos, baixava um halo de inocência luminosa e de graça imaterial.
Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa que refrescava o ambiente inefável e que tornava mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as formas do mobiliário. Na pacificação deleitosa tudo repousava docemente. Em cima do mármore do toucador, em frente dum largo espêlho em que se reflectiam imagens baças e indecisas, floriam perfumados ramos de cravos brancos em jarras de cristal cheias de água límpida; e da parede alta pendia, como a protecção celeste da infância adormecida, uma cópia a óleo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, extasiava os puros olhos nos fulgores siderais. Cá fóra, o sol—um ardente sol de junho—rutilava e ardia na atmosfera pesada e abafadiça.
Brandamente, na ponta dos pés para não fazer barulho, Júlia entrou no compartimento solitário, aproximou-se do casto leito do filho, que tinha apenas meses de vida, contemplando-o com enlêvo e ternura. Ela contava então vinte e quatro anos, estava em pleno esplendor da sua beleza e do seu encanto de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a ventura iluminava-se-lhe na alma. Duma elegância natural e sóbria, vestia um amplo roupão de cassa creme apertado na cinta por laços de veludo preto. O curto decote deixava a descoberto a pele do colo que era setinosa, dourada e sem o mais ligeiro vinco. Um pente de tartaruga com embutidos de ouro segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados no alto da nuca. Os seios direitos e rijos formavam uma delicada curva sob os tecidos flexíveis, ao arfarem. Dois anos antes, em Vizela, apaixonara-se sériamente por Nuno Aragão, para quem fôra levada por um forte impulso de sentimento; e com êle casara ao fim dum romântino idílio em que os seus sonhos de felicidade deram flor. Essa união íntima que a fizera espôsa e mãe e a que se devotou com um admirável espírito de abnegação, completou-a. Os dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem que dêles ficassem resíduos de tédio...
Absorvida na visão do frágil sêr que lhe trouxera, com a sua pureza e a sua formosura, uma revelação à inteligência e à subtileza emotiva, Júlia ajoelhou junto do berço, compondo a roupa à volta da cabecinha ideal, que a virgindade aureolava, com dedos mais ágeis do que asas—e nem sequer notava a presença de Nuno que a seguira de perto e que, por detrás dela, sorria comovido. Houve um momento em que Júlia se curvou sôbre a face gorda e picada de còvinhas do filho, roçando-a com os lábios.
—Cautela, não vás acordá-lo!—murmurou o marido em voz de segrêdo.
Ela voltou a cabeça, sorridente: e, fitando-o com uma emoção que o olhar traía, interrogou:
—Estavas aí?
—Quis acompanhar-te na tua amorável visita—respondeu.
—Olha, vem cá!...— pediu Júlia. Não é verdade que é lindo?
Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia o sussurro brando da respiração, passou-lhe um braço à volta do pescoço, puxou-a tôda para o peito e ambos se embeberam na adoração da criança que continuava dormindo com a gracilidade e a poesia dum botão de rosa, fazendo um pequeno volume sob as lãs quentes e as cambraias ténues.
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Frederico chegou, com efeito, na manhã seguinte e foi efusivo o abraço que trocou com Nuno, ao saltar do automóvel, diante do portão do jardim que um grande ramo de jasmineiro em flor cobria de sombra, de frescura e de aroma. Enquanto os criados conduziam as malas de viagem, do carro para casa, êle, compondo a roupa desmanchada e alisando, com a mão, os cabelos despenteados, dizia para o amigo:
—Menino, o que eu agora mais desejo, antes do almôço, que ficarei devendo à tua generosidade, é um banho frio que me restitua a elasticidade aos membros entorpecidos e me purifique da poeira da jornada—uma poeira corrosiva que me morde a pele.
—Pois terás êsse banho purificador, homem!—prometeu Nuno, alegremente.
Foram andando pelos arruamentos que corriam junto dos canteiros rescendentes, no inspirador silêncio matinal.
—Tu tens isto lindíssimo, na verdade. Sente-se a ventura, o encanto de viver à volta desta habitação que eu creio bem que seja a morada da Fortuna!... E como vai a saúde da família? Próspera, não é assim?... Desculpa. Tinha-me esquecido de cumprir êste elementar dever de cortesia.
Do lado que dava para o parque havia uma escada de pedra com grade de ferro pintada de verde, subindo, entre redouças de trepadeiras que a bucolizavam, até ao primeiro andar, sob a folhagem fechada duma acácia. Tinham êles galgado o primeiro lanço, quando Júlia apareceu no alto, vestida com simplicidade e gôsto. Frederico, tirando o chapéu, exclamou logo, ao avistá-la:
—Oh! minha senhora!...
E avançou, mais apressado, de mão estendida, acrescentando:
—Venho pedir um pouco de repouso, de tranqùilidade espiritual, às divindades protectoras dêste lar, que é o Palácio da Ventura...
—Seja então bemvindo—acudiu ela, tôda risonha.
—Não o acredites, Júlia! É um réprobo e tem o sentimento derrancado—gritou Nuno. Ainda agora me dizia da aldeia coisas pavorosas. Não te admires se êle, logo à tarde, bocejando o seu aborrecimento e renunciando a uma conversão de alma, nos fugir para a cidade...
Frederico, voltando-se para o amigo, murmurou com ar cómico e forçadamente constrangido:
—É, então, assim que o afecto fraternal compreende e pratica as obrigações sagradas da hospitalidade, mentindo para me comprometer? Com franqueza! Isso não é leal...
Júlia, còrada e encantadora no seu pudor e no seu recato de espôsa e de mãe, ria enlevada.
—Deixe-o falar!
—Pois se eu, só de atravessar a pacificação campestre, embebendo-me, impregnando-me da sua doçura, até já me sinto outro e me parece que dentro de mim um outro coração renasce!...—disse Frederico.
—É que o Espírito Santo estava à tua espera para baixar-te sôbre a cabeça em língua de lume e iluminar-te—zombou Nuno.
Entraram na sala que as flores das jarras incensavam. Por tôda a parte se notava logo o cuidado e a subtileza duma diligente ménagère, tal era a ordem, a elegância, o claro aceio daquele atraente lugar de repouso. Sentaram-se um momento, conversando.
—Quis, então, dar-nos por algum tempo o prazer da sua companhia, abandonando as alegrias da vida citadina?—perguntou Júlia.
—Nuno assim mo impôs. E creia V. Ex.a que nunca imposição alguma foi mais brandamente acatada por um rebelde como eu sou—afirmou Frederico.
Um relógio de bronze dourado, montado em colunas de alabastro côr de rosa, marcava as horas sôbre o mármore do fogão, quebrando com o ritmo do seu tic-tac a paz do compartimento: e evolava-se de tudo o que os cercava essa serenidade, êsse divino mistério inspirador, essa graça imaterial que só existem nos ambientes calmos em que as almas de élite fazem a troca mútua das suas afeições puras, das suas emoções delicadas, das suas aspirações nobres.
Table of contents
Inside this edition
- 01Epígrafe
- 02I
- 03II
- 04III
- 05IV
- 06V
- 07VI
- 08VII
- 09VIII
- 10IX
- 11X
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