
Portuguese Edition
Literature
A Mulher de Preto
Portuguese BooksWhale Edition by Machado de Assis
Um conto de Machado de Assis sobre memória, desejo, suspeita e as zonas ambíguas dos afetos.
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Book introduction
A Mulher de Preto
A Mulher de Preto acompanha um encontro atravessado por lembranças, atração e incerteza. Machado de Assis transforma uma situação aparentemente simples numa observação irônica sobre o desejo, a interpretação dos gestos e as histórias que as pessoas escondem.
BooksWhale edition
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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
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Machado de Assis died in 1908; A Mulher de Preto was published in the nineteenth century, placing the original Portuguese text within the public domain under the applicable U.S. and E.U. terms.
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A Mulher de Preto
Machado de Assis
Preview chapterCapítulo 1Preview
A primeira vez que o Dr. Estevão Soares fallou ao deputado Menezes foi no theatro Lyrico no tempo da memoravel luta entre lagruistas e chartonistas . Um amigo commum os apresentou ao outro. No fim da noite separárão-se offerecendo cada um d’elles os seus serviços e trocando os respectivos cartões de visita.
Só dous mezes depois encontrárão-se outra vez.
Estevão Soares teve de ir á casa de um ministro de Estado para saber de uns papeis relativos a um parente da provincia, e ahi encontrou o deputado Menezes, que acabava de ter uma conferencia politica.
Houve sincero prazer em ambos encontrando-se pela segunda vez; e Menezes arrancou de Estevão a promessa de que iria á casa d’elle d’ahi a poucos dias.
O ministro depressa despachou o joven medico.
Chegando ao corredor, Estevão foi sorprendido com uma tremenda batéga d'agua, que n’esse momento cahia, e começava a alagar a rua.
O rapaz olhou a um e outro lado a ver se passava algum vehiculo vazio, mas procurou inutilmente; todos que passavão ião ocupados.
Apenas á porta estava um coupé vazio á espera de alguem, que o rapaz suppôz ser o deputado.
D’ahi a alguns minutos desce com effeito o representante da nação, e admirou-se de ver o medico ainda á porta.
— Que quer? disse-lhe Estevão; a chuva impedio-me de sahir; aqui fiquei a ver se passa um tilbury.
— É natural que não passe, e n’esse caso offereço-lhe um lugar no meu coupé . Venha.
— Perdão; mas é um incommodo....
— Ora, incommodo! é um prazer. Vou deixal-o em casa. Onde mora?
— Rua da Misericordia nº....
— Bem, suba.
Estevão hesitou um pouco; mas não podia deixar de subir sem offender o digno homem que de tão boa vontade lhe fazia um obsequio.
Subírão.
Mas em vez de mandar o cocheiro para a rua da Misericordia, o deputado gritou:
— João, para casa!
E entrou.
Estevão olhou para elle admirado.
— Já sei, disse-lhe Meneses; admira-se de ver que faltei á minha palavra; mas eu desejo apenas que fique conhecendo a minha casa afim de lá voltar quanto antes.
O coupé rolava já pela rua fóra debaixo de uma chuva torrencial.
Menezes foi o primeiro que rompeu o silencio de alguns minutos, dizendo ao joven amigo:
— Espero que o romance da nossa amizade não termine no primeiro capitulo.
Estevão, que já reparara nas maneiras solicitas do deputado, ficou inteiramente pasmado quando lhe ouvio fallar no romance da amizade. A razão era simples. O amigo que os havia apresentado no theatro Lyrico disse no dia seguinte:
— Menezes é um misanthropo, e um sceptico; não crê em nada, nem estima ninguem. Na politica como na sociedade faz um papel puramente negativo.
Esta era a impressão com que Estevão, apezar da sympathia que o arrastava, fallou a segunda vez a Menezes, e admirava-se de tudo, das maneiras, das palavras, e do tom de affecto que ellas parecião revelar.
Á linguagem do deputado o joven medico respondeu com igual franqueza.
— Porque acabaremos no primeiro capitulo? perguntou elle; um amigo não é cousa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deoses.
— Dos deoses! disse Meneses rindo; já vejo que é pagão.
— Alguma cousa, é verdade; mas no bom sentido, respondeu Estevão rindo tambem. Minha vida assemelha-se um pouco á de Ulysses...
— Tem ao menos uma Ithaca, sua patria, e uma Penelope, sua esposa.
— Nem uma nem outra.
— Então entender-nos-hemos.
Dizendo isto o deputado voltou a cara para o outro lado, vendo a chuva que cahia na vidraça da portinhola.
Decorreram dois ou tres minutos, durante os quaes Estêvão teve tempo de contemplar a seu gosto o companheiro de viagem.
Menezes voltou-se e entrou em novo assumpto.
Quando o coupé entrou na rua do Lavradio, Menezes disse ao medico:
— Moro n’esta rua; estamos perto de casa. Promette-me que ha de vir ver-me algumas vezes?
Preview chapterCapítulo 2Preview
Estevão era o typo do rapaz serio. Tinha talento, ambição e vontade de saber, tres armas poderosas nas mãos de um homem que tenha consciencia de si. Desde os dezeseis annos a sua vida foi um estudo constante, aturado e profundo. Destinado ao curso medico, Estevão entrou na academia um pouco forçado; não queria desobedecer ao pai. A sua vocação era toda para as mathematicas. Que importa? disse elle ao saber da resolução paterna; estudarei a medicina e a mathematica. Com effeito teve tempo para uma e outra cousa; teve tempo ainda para estudar a litteratura, e as principaes obras da antiguidade e contemporaneas erão-lhe tão familiares como os tratados de operações e de hygiene.
Para estudar tanto, foi-lhe preciso sacrificar uma parte da saude. Estevão aos vinte e quatro annos adquiríra uma magreza, que não era a dos dezeseis; tinha a tez pallida e a cabeça pendia-lhe um pouco para a frente pelo longo habito da leitura. Mas esses vestigios de uma longa applicação intellectual não lhe alterárão a regularidade e harmonia das feições, nem os olhos perdêrão nos livros o brilho e a expressão. Era além d’isso naturalmente elegante, não digo enfeitado, que é cousa differente: era elegante nas maneiras, na atitude, no sorriso, no trajo, tudo mesclado de uma certa severidade que era o cunho do seu caracter. Podia-se notar-lhe muitas infracções ao codigo da moda; ninguem poderia dizer que elle faltasse nunca ás boas regras do gentleman.
Perdêra os pais aos vinte annos, mas ficára-lhe bastante juizo para continuar sózinho a viagem do mundo. O estudo servio-lhe de refugio e bordão. Não sabia nada do que era o amor. Occupára-se tanto com a cabeça que esquecêra-se de que tinha um coração dentro do peito. Não se infira d’aqui que Estevão fosse puramente um positivista. Pelo contrario, a alma d’elle possuia ainda em toda a plenitude da graça e da força as duas azas que a natureza lhe dera. Não raras vezes rompia ella do carcere da carne para ir correr os espaços do céo, em busca de não sei que ideal mal definido, obscuro, incerto. Quando voltava d’esses extasis, Estevão curava-se d’elles enterrando-se nos volumes á cata de uma verdade scientifica. Newton era-lhe o antidoto de Goethe.
Além d’isso, Estevão tinha idéas singulares. Havia um padre, amigo d’elle, rapaz de trinta annos, da escola de Fenelon, que entrava com Telemaco na ilha de Calypso. Ora, o padre dizia muitas vezes a Estevão que só uma cousa lhe faltava para ser completo: era casar-se.
— Quando você tiver, dizia-lhe, uma mulher amada e amante ao pé de si, será um homem feliz e completo. Dividirá então o tempo entre as duas cousas mais elevadas que a natureza deu ao homem, a intelligencia e o coração. N’esse dia quero eu mesmo casal-o.....
— Padre Luiz, respondia Estevão, faça-me então o serviço completo: traga-me a mulher e a benção.
O padre sorria-se ao ouvir a resposta do medico, e como o sorriso parecia a Estevão uma nova pergunta, o medico continuava:
— Se encontrar uma mulher tão completa como eu exijo, afirmo-lhe que me casarei. Dirá que as obras humanas são imperfeitas, e eu não contestarei, padre Luiz; mas n’esse caso deixe-me caminhar só com as minhas imperfeições.
D’aqui engendrava-se sempre uma discussão, que se animava e crescia até o ponto em que Estevão concluia por este modo:
— Padre Luiz, uma menina que deixa as bonecas para ir decorar mecanicamente alguns livros mal escolhidos; que interrompe uma lição para ouvir contar uma scena de namoro; que em materia de arte só conhece os figurinos parisienses; que deixa as calças para entrar no baile, e que antes de suspirar por um homem, examina-lhe a correcção da gravata, e o apertado do botim; padre Luiz, esta menina póde vir a ser um esplendido ornamento de salão e até uma fecunda mãi de familia, mas nunca será uma mulher.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02Capítulo 1
- 03Capítulo 2
- 04Capítulo 3
- 05Capítulo 4
- 06Capítulo 5
- 07Capítulo 6
- 08Capítulo 7
- 09Capítulo 8
- 10Capítulo 9
- 11Capítulo 10
- 12Capítulo 11
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