
Portuguese Edition
Philosophy
A philosophia da natureza dos naturalistas
Portuguese BooksWhale Edition by Antero de Quental
Antero de Quental discute o naturalismo, a evolução e os limites da explicação mecânica em cinco artigos de reflexão filosófica.
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Book introduction
A philosophia da natureza dos naturalistas
Reunidos depois da morte de Antero de Quental, estes cinco artigos examinam as pretensões filosóficas do naturalismo e a relação entre investigação científica e metafísica. O autor discute evolução, causalidade, espontaneidade e finalidade, questionando a passagem dos factos observados para uma explicação total da realidade. O conjunto permite acompanhar uma intervenção portuguesa nos debates filosóficos e científicos do final do século XIX.
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Antero de Quental faleceu em 1891. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas editoriais ou ilustrações posteriores.
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A philosophia da natureza dos naturalistas
Preview chapterPRIMEIRO ARTIGO[A]Preview
Um livro sobre as modernas theorias transformistas, publicado em Paris e em francez, e firmado por um nome portuguez, é facto tão extraordinario, que por si só bastaria para attrahir as attenções. Mas no livro do snr. Vianna de Lima, não é só a extranheza do facto que deve chamar a nossa attenção: é ainda o seu valor intrinseco. Esta Exposição summaria das theorias transformistas é, como o
titulo indica, uma especie de summa das doutrinas professadas sobre a philosophia da natureza por uma escola consideravel, cuja cabeça, E. Haeckel, é um dos nomes mais illustres, e justamente illustres, da Allemanha intellectual, na segunda metade do nosso seculo: e a obra do adepto não é indigna, nem pela intelligencia nem pelo saber, da escola nem do mestre.
Não sou naturalista e, tendo a consciencia da minha incompetencia, não me atreveria a escrever sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu livro fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, e se os quatro estudos, de que se compõe, se conservassem escrupulosamente nos limites rigorosos do campo scientifico. O livro, porem, do snr. Vianna de Lima, apezar da modestia do titulo, aspira de facto a ser um livro de philosophia da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, sem temeridade, emittir algumas opiniões fundamentadas. Prestarei, assim uma homenagem ao moço portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: ouço que é brazileiro) que tão galhardamente nos representa no grande mundo da intelligencia, aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para dizer alguma cousa sobre uma escola philosophica, cujos chefes respeito e cuja importancia não desconheço; mas cujas tendencias estão muito longe, em meu entender, de serem satisfactorias.
Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico e quasi legendario do primeiro quartel
d'este seculo, costumava dizer causticamente, referindo-se á philosophia da natureza puramente especulativa, que então deslumbrava com os clarões do genio de Schelling e Hegel, não só a Allemanha pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, que achava singularissimos aquelles naturalistas que pretendiam fazer chimica sem molhar a ponta dos dedos.
Tinha razão.
Hoje, nós outros metaphysicos, podemos com igual razão dizer que são singulares estes philosophos, que, com os dedos mais que ensopados em chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca se terem dado ao trabalho de reflectir.
Com effeito, a philosophia é, de sua natureza, especulativa, e a sciencia não póde ser para ella mais que uma materia prima.
Um homem de sciencia, por encyclopedico que seja, se não tiver ao mesmo tempo reflectido muito e profundamente sobre as questões puramente racionaes, que a sciencia suscita e não póde por si resolver, reflectido sobre as ideas abstractas, que são, umas, postulados para as differentes sciencias, outras, principios ordenadores d'uma explicação geral das cousas, um tal homem de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, não poderá nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode dizer que sabe, mas não que entende, porque o problema do universo, como problema total e concreto, será para a sua intelligencia, aliás opulenta
de factos, tão obscuro, como é para a intelligencia d'um simples e ignorante. A philosophia não é o mero ajuntamento ou ainda o quadro empiricamente ordenado dos factos do universo: é a comprehensão e explicação racional e total d'esse grande quadro. Ora, uma tal explicação só é possivel no ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes da rasão (substancia, causa, fim) e essas ideias teem por isso de ser tomadas em si, pesadas e analysadas. Não faz outra cousa a metaphysica, e sem metaphysica não ha philosophia, porque não ha verdadeira comprehensão racional, nem verdadeira e total explicação. Metaphysica (ou especulação) e sciencia (ou observação) são duas series convergentes, que partem de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento diversas; mas, como são convergentes, encontram-se: o ponto onde se encontram e, sem se fundirem, reciprocamente se penetram, é que é a philosophia. A philosophia tem pois por materia a sciencia, por forma a metaphysica; ou ainda, a philosophia é a observação (quero dizer, os seus resultados) considerada no ponto de vista absoluta da rasão.
Preview chapterSEGUNDO ARTIGO[C]Preview
Falta-me ainda encarar, n'esta esphera da ideia de materia, a concepção monista, sob um outro ponto de vista. É o da espontaneidade da materia.
O snr. Vianna de Lima affirma, por assim dizer, dogmaticamente, nas suas Observações preliminares, essa espontaneidade e protesta contra a physica da inercia: entretanto, todo o seu livro, toda a sua maneira de comprehender a evolução presupõe a inercia da materia. É que d'uma affirmação a uma theoria vae uma certa distancia, e não me consta que algum dos mestres do monismo tentasse ainda formular essa
theoria. O assumpto envolve com effeito uma difficuldade, que me parece exceder a capacidade especulativa dos doutores monistas.
A ideia da espontaneidade da materia (ideia puramente especulativa, em que peze ás pretensões do positivismo dos nossos naturalistas philosophos) parece estar em contradicção com a theoria da conservação do movimento, que domina nas sciencias physicas e já em grande parte nas sciencias da organisação.
Não vejo que a doutrina monista resolva, como ella póde ser resolvida, n'uma esphera superior, esta contradicção. Pelo contrario, no livro do sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio da conservação do movimento é applicado, sem a menor reserva ou explicação, desde a physica até á psychologia, e a evolução apresentada como o exclusivo resultado do puro mechanismo, a espontaneidade da materia, praticamente e apesar das affirmações preliminares, é constantemente desconhecida, ou antes, é negada implicitamente a cada instante. De facto, é como se o livro todo não tivesse outro fim senão destruir a these estabelecida nos prolegomenos--these que todavia é, philosophicamente, o seu fundamento. Com effeito, se havemos de entender que todo o movimento, seja de que ordem fôr, é não só condicionado por um movimento anterior, mas realmente e exclusivamente
uma transformação d'esse movimento anterior, é claro que tal concepção do movimento exclue in limine a ideia de espontaneidade. A condição passa a ser causa: o effeito, mera prolação da causa, é uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia.
Consideremos mais de perto a contradicção que d'aqui resulta. Se, por um lado, a materia em geral é dotada d'espontaneidade, isto é, se o movimento lhe é inherente; mas se, por outro lado, qualquer movimento particular e todo e qualquer movimento se reduz no fundo, a uma simples transformação das acções anteriores que o condicionam; pergunta-se: como se consegue então a espontaneidade geral e theorica da materia? Se o movimento A se reduz a uma simples transformação do movimento B, que o condiciona e não é por isso espontaneo, o movimento B está para com o movimento C, que por seu turno o condiciona, exactamente na mesma relação, assim como o movimento C para com o movimento D, o movimento D para com o movimento E e assim indefinidamente--de sorte que em parte alguma se encontra movimento espontaneo. O que significa, pois, a espontaneidade attribuida theoricamente á materia? E, sobre tudo, como se explica o proprio facto do movimento, que d'este modo está em toda a parte sem estar em parte alguma? que é por toda a parte effeito, sem ter causa em
parte alguma? como se concebe esse modo de ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realisa e realisando-se universalmente, parece ser e não ser ao mesmo tempo?
Ainda por este lado, se me não engano, a ideia da materia, segundo os monistas, está muito longe de apresentar a definição e consistencia necessarias. Ora essa idéa tem de ser a pedra mestra de toda a construcção philosophica na esphera da natureza. A final de contas bem apertada e espremida, a doutrina da materia, segundo a philosophia monista, reduz-se, como creio ter mostrado, ás noções correntes, nas sciencias physicas, de atomo e força. Não só não ha n'ella originalidade alguma, mas o que é peior, apresentam-se nos aquellas noções envolvidas nevoentamente n'uma concepção vaga, d'onde é necessario extrahil as e, no fim de tudo, em vez de esclarecidas e aprofundadas, obscurecidas por forma tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar d'ellas para uma comprehensão superior e verdadeiramente philosophica dos phenomenos da natureza.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02PRIMEIRO ARTIGO[A]
- 03SEGUNDO ARTIGO[C]
- 04TERCEIRO ARTIGO[D]
- 05QUARTO ARTIGO[E]
- 06QUINTO ARTIGO[F]
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