
Portuguese Edition
Politics
Ás Mulheres Portuguêsas
Portuguese BooksWhale Edition by Ana de Castro Osório
Ana de Castro Osório discute feminismo, instrução, maternidade, trabalho e a posição das mulheres perante o código civil português.
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Book introduction
Ás Mulheres Portuguêsas
Neste conjunto de intervenções, Ana de Castro Osório relaciona a emancipação das mulheres com a educação e a transformação da sociedade portuguesa. Aborda a participação política, a pobreza, a maternidade e o trabalho, além da condição jurídica de mulheres casadas e solteiras. A edição portuguesa inclui o prólogo e os ensaios, preservando a ortografia histórica do texto.
BooksWhale edition
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Ana de Castro Osório morreu em 1935. Esta edição utiliza o texto original português conservado pelo Project Gutenberg, sem publicidade editorial e notas separadas.
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Preview chapterPrologoRead preview
Na incerteza pelo futuro, caracteristica muito acentuada do actual momento historico, não ha ninguem, por mais ferozmente que se ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos multiplos problemas que agitam a alma moderna.
São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta lagrima, evocam tanta dôr soffrida pela mísera humanidade—que em vão lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente goso, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na indifferente desgraça—que o nosso espirito se detem e pergunta, no augusto silencio da propria consciencia—se vale a pena existir num mundo assim?!
Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de trazer, embora com o sacrificio proprio, alguma melhoria á sociedade; outros desanimam, a mesma dôr os mata ou anula para o trabalho paciente do futuro.
Mas o desânimo e a renuncia é uma dupla falta—pelo que deixâmos de fazer e pelo que consentimos que os egoistas e os sem escrupulos façam impunemente.
Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de muito crime e muita injustiça, um bello e salubre movimento se opéra por todo o mundo.
Ninguem se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que tanto cabe ao homem como á mulher, a esta mais ainda porque nas suas mãos, com a educação da infancia, que lhe pertence, está confiado o futuro.
Á mulher, pois, ou seja pobre operaria que mal ganha para o pão de cada dia, ou opulenta dama avergada ao pêso dos seus deveres sociaes; ás mães que têm filhos a entrar na lucta pela existencia e que ansiados esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem, dos labios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram os primeiros beijos; como ás raparigas que, mal iniciadas nos seus deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a comprehender as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem, ao menos um instante, a pensar no remedio a dar a tanto mal e a tanta iniquidade.
Por isso é ás mulheres, e principalmente ás mulheres do meu paiz—que tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães do homem moderno—que me dirijo.
Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo ás necessidades espirituaes da alma feminina, que desperta emfim para uma nobre e mais util missão social.
Preview chapterFEMINISMOPreview
FEMINISMO
Preview chapterI SER FEMINISTAPreview
Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das proprias mulheres córam, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que ellas não são responsaveis, louvado Deus!...
E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua autonomia.
O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as despresa por vezes, as teme quasi sempre.
Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o isolamento como o ridiculo—que nem um nem outro atingem o verdadeiro mérito e a sã razão.
Tenha o coração alto e o espirito alevantado; não faça do amôr o ideal unico da existencia nem o seu unico fim. Pense no trabalho e no estudo, e deixe que as suas faculdades afectivas se desenvolvam livremente, ou se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente á sociedade. Cuidados de amôr devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e intimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudôr.
Tal não sucede, porêm. Toda a gente publíca os seus afectos, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais indesculpaveis que sejam, despertam mais simpathia e compaixão do que verdadeiras desgraças sociaes. Na vida real, como no drama, no romance, na poesia, ou na musica, só cai bem no gosto do publico o amavío voluptuoso do amôr sentimental.
Assim o quer a sucessão de seculos, em que a mulher foi a reclusa do convento ou da familia, tendo na vida um só fim—agradar.
Assim o estima o homem, que fez do amôr carnal o seu culto e da mulher a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava, deusa que se cobre de injurias e se lança ao monturo das velhas coisas inuteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo desfeito no céo sem nuvens.
O homem, passada a idade da poesia, segue triumphante o caminho da existencia, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal dos seus sonhos faz a cozinheira habil, a dôna de casa ignorante e util, mixto de costureira e governante, a mãe paciente e sofredora dos filhos que são o seu orgulho.
A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida banal e mesquinha—que nem por sombras deve abordar os graves pensamentos que preocupam o marido!...
Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuaes que o confraternisem com um individuo do sexo feminino, é rarissimo confessar que a sorte lho deu para companhia da sua vida.
Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira ignorante e inferior que procuram para seu descanço, não encontraram, hipocritamente velados por uma habil ingenuidade, todos os baixos instinctos dos seres inferiores?!
Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se poluiram com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de familia, destinadas a fazer prodigios de economias, de método e de arranjo, não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades, tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotencia para as realisar—a fantasia só presa nas galanices e módas, inuteis para os trabalhos caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os seus por não possuir o que deseja e vê ás outras, transformando os lares em gehenas onde féras da mesma raça se espesinham e abocanham?!
Table of contents
Inside this edition
- 01Prologo
- 02FEMINISMO
- 03I SER FEMINISTA
- 04II UMA RESPOSTA
- 05III A INSTRUÇÃO
- 06As mulheres e a Politica
- 07Ser português
- 08No anniversario duma Escola
- 09A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje
- 10As pobres mães
- 11A miseria do Povo
- 12A ignorancia do Povo
- 13Mulheres desnaturadas, Mães desnaturadas
- 14A proposito duma gréve
- 15A MULHER EM PORTUGAL
- 16I A MULHER E O CASAMENTO
- 17II A MULHER CASADA PERANTE O CODIGO CIVIL
- 18III A MULHER SOLTEIRA PERANTE O CODIGO CIVIL
- 19IV O TRABALHO DA MULHER
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