Portuguese Edition
Literature
Auto da Barca do Inferno
Portuguese BooksWhale Edition by Gil Vicente
A peça moral clássica de Gil Vicente sobre julgamento, vícios sociais, sátira e destino final.
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Auto da Barca do Inferno
Auto da Barca do Inferno coloca personagens de várias condições diante do julgamento simbólico após a morte. Gil Vicente combina teatro moral, sátira social e linguagem viva numa obra fundamental da literatura portuguesa.
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Gil Vicente morreu em 1536, e « Auto da Barca do Inferno » foi publicado pela primeira vez em 1517; essas datas sustentam o domínio público do texto português.
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Auto da Barca do Inferno
AUTO DA BARCA DO INFERNO
GIL VICENTE
Auto de moralidade criado por Gil Vicente em dedicação à
sereníssima e muito católica rainha Leonor nossa senhora,
e representado, por sua ordem, ao poderoso príncipe e
muito alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome.
Começa a declaração e argumento da obra:
Primeiramente, no presente auto, pressupõem-se que, no
momento em que acabamos de morrer, chegamos
subitamente a um rio, o qual, por força, teremos de passar
num dos dois batéis que estão atracados num porto. Um
deles vai em direção ao paraíso e o outro para o inferno. Os
tais batéis têm, cada um, os seus comandantes na proa: o
do paraíso um anjo, e o do inferno um comandante infernal
e um companheiro.
O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um
Pajem, que lhe segura um manto muito comprido com uma
mão e uma cadeira de espaldas com a outra.
O comandante do Inferno começa o seu pregão mesmo
antes do Fidalgo se aproximar.
DIABO
À barca, à barca, venham lá!
Que temos gentil maré!
- dirigindo-se ao companheiro -
Ora põe o barco a ré! (vira a traseira do barco)
COMPANHEIRO DO DIABO
Está feito, está feito!
DIABO
Bem feito está!
Vai agora, em má hora,
Esticar aquele palanco (corda)
E desocupar aquele banco,
Para a gente que virá.
- falando para o ar -
À barca, à barca, hu-u!
Depressinha, que se quer ir!
Oh, que tempo para partir,
Louvores a Belzebu!
- dirigindo-se ao companheiro -
Mas então! que fazes tu?
Limpa todo aquele leito! (espaço entre o Mastro e a Popa do barco)
COMPANHEIRO
Em boa hora! Feito, feito!
DIABO
Abaixa-me esse cu!
Liberta aquela poja (corda com que se vira a vela)
E afrouxa aquela driça. (corda com que se levanta a vela)
COMPANHEIRO
Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO
Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Vela ao alto! Âncora a pique!
Ó poderoso Dom Henrique,
Cá vindes vós? Que coisa é essa”...
Aproxima-se o Fidalgo e, chegando ao barco infernal, diz:
FIDALGO
Esta barca para onde vai,
Que assim está apercebida? (preparada)
DIABO
Vai para a ilha perdida,
E há de partir daqui a nada.
FIDALGO
E para lá vai a senhora?
DIABO
Sou um senhor,
ÃO VOSSO Serviço.
FIDALGO
Parece-me isto um cortiço... (uma embarcação reles)
DIABO
Porque a vedes daí de fora.
FIDALGO
Pois sim, e por que terra passais?
DIABO
Para o inferno, senhor
FIDALGO
Uma terra sem-sabor... (sem piada nenhuma)
DIABO
O quê?... Mas também disso zombais?
FIDALGO
E que passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO
Vejo-vos eu em feição,
Para ir no nosso cais...
FIDALGO
Parece-te a ti assim!...
DIABO
Em que esperas ter guarida? (salvação)
FIDALGO
Que deixo na outra vida,
Quem reze sempre por mim.
DIABO
Quem reze sempre por ti?!...
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
Tu que viveste a teu prazer,
Pensando cá guarnecer (salvares-te)
Por aqueles que lá rezam por ti?!...
Embarcai agora, embarcai!
Que haveis de ir nas traseiras
Mandai meter a cadeira,
Como também passou o vosso pai.
FIDALGO
O quê!? O quê!? O quê!?
É lá que ele está?!
DIABO
Vai ou vem! Embarcai depressa!
Pelo que em vida escolheste,
Assim cá vos contentais
E como pela morte passastes,
Tereis que passar o rio.
FIDALGO
Não há aqui outro navio?
DIABO
Não, senhor, que este preparaste,
E assim que expiraste (morreste)
Me deste logo sinal.
FIDALGO
E que sinal foi esse tal?
DIABO
De que vós vos contentastes. (que estava condenado)
FIDALGO
Para a outra barca me vou.
- Já ao pé da outra barca -
Oh da barca! Para onde is?
Oh, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Olá! Ó!...
- O Anjo ignora-o -
Por deus, aviado estou! (perdido)
Quanto a isto é já pior...
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E tanto dado à virtude?
Assim Deus me dê saúde,
Que eu estou muito admirado!
DIABO
Não penses em mais detença. (demora)
Embarcai e partiremos:
Tomareis um par de ramos.
FRADE
Não ficou isso em avença. (em acordo)
DIABO
Pois dada está já a sentença!
FRADE
Por Deus! Essa é que era ela!
Não vai em tal caravela
A minha senhora Florença.
Como assim? Só por ser namorado,
E folgar com uma mulher,
Há de um frade de se perder,
Com tanto salmo rezado?!...
DIABO
Ora estás bem aviado! (*)
[C%) “Estás bem aviado”, ou por outras palavras “estás bem servido” é uma
expressão que quer dizer que essa determinada pessoa está numa má situação]
FRADE
Direi eu, bem corrigido!
DIABO
Devoto padre marido,
Haveis de cá pingado... (haveis cá lugar guardado)
O Frade descobre a cabeça, tirando o capuz, apareceu-lhe o
capacete (*), e diz o Frade:
[C)]Muitas ordem religiosas da idade média foram fundadas por monges
guerreiros. Os monges guerreiros, por exemplo, das ordens militares do
Templo, dos Hospitalários, de Calatrava (mais tarde Ordem de Avis) e de
Santiago de Espada desempenharam um papel muito importante nas lutas das
Cruzadas.]
FRADE
Mantenha Deus esta coroa!
DIABO
Ó padre Frei Capacete!
Isso mais parece um barrete...
FRADE
Sabeis é da ordem!
A espada é roloa (*) (ordinária)
E este escudo rolão (reles)
[(*) Advém de “ralé”, algo que é comum]
DIABO
Dê Vossa Reverencia lição
De esgrima, que é coisa boa!
Começou o frade a dar lição de esgrima com a espada e o
escudo e diz desta maneira:
FRADE
Deo gratias! Damos caçada!
Para sempre, contra uns!
Um fendente!(*), ora pois!
[(*) Golpe de esgrima normalmente feito de cima para baixo com o punho]
Esta é a primeira levada. (o primeiro ataque)
Alto! Levantai a espada!
Uma estocada, e um revés!
E depressa recolher os pés,
Que todo o cuidado é pouco!
Quando o recolher se tarda
O ferir não é prudente.
Ora, então! Muito depressa,
Cortai na segunda guarda!
Guarde-me Deus da espingarda(*)
[(*) Entende-se por aqui por "espingarda" um tipo de arma como um
“mosquete" ou a uma "besta" que existiam no seculo XVI. Não a conceção de
espingarda que surgiu um século depois]
E do homem ousado.
Aqui estou tão bem guardado
Como uma palha na albarda. (a sela dos cavalos)
Fico com meia espada...
Óh lá! Protegei as queixadas! (as caras)
DIABO
Oh que valentes levadas! (ataques)
FRADE
Isto ainda não é nada...
Damos outra vez caçada!
Contra uns mais um fendente,
E, cortando com destreza,
Eis aqui a sexto feitada. (golpe)
Daqui saio com uma guia (reviravolta)
E um revés da primeira:
Esta é o quinta verdadeira.
Oh! Quantos assim eu feria!...
Um padre que tal aprendia,
No Inferno há de ter pingos?!... dugar)
Ah! Não se preza a São Domingos
Com tanta descortesia!
- Voltou a tomar a rapariga pela mão, dizendo: -
Vamos à barca da Glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram os dois a dançar
até o batel do Anjo desta maneira:
FRADE
Ta-ra-ra-rai-rá; ta-ri-ri-ri-rá;
rai-rai-ra; ta-ri-ri-rá; ta-ri-ri-ra.
Huhá!
Deo gratias! Há lugar cá
Para minha reverência?
E a senhora Florença
Também entrará cá!
PARVO
Andor daqui para fora!
Roubaste o trinchão, frade?(*) (pedaço de carne)
[(*) referindo-se à rapariga que o frade trazia]
FRADE
Senhora, dá-me a vontade (quer-me parecer)
Que este feito mal está.
Vamos para onde havemos de ir!
Não se praza Deus com a ribeira!
E não vejo aqui maneira
Senão, enfim, .... concrudir. (de aceitar as coisas têm de ser)
DIABO
Haveis, padre, de vir.
FRADE
Agasalhai-me lá a Florença,
E cumpra-se essa sentença.
Apressemo-nos a partir.
Assim que o Frade foi embarcado, veio uma Alcoviteira (*),
de nome Brízida Vaz, a qual, chegando à barca infernal, diz
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Depois que o apanhais. (de ter roubado)
DIABO
Pois porque não embarcais?
PROCURADOR
Quia speramus in Deo. (Porque esperamos por Deus)
DIABO
Imbarquemini in barco meo... (Embarcai no meu barco)
Para quê esperais mais?
Vão-se ambos ao batel da Glória, e, chegando, diz o
Corregedor ao Anjo:
CORREGEDOR
Ó barqueiro dos gloriosos,
Passai-nos neste batel!
ANJO
Oh! Pragas para papel,
E para as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
Sendo filhos da ciência!
CORREGEDOR
Oh! habeatis clemência (tende clemência)
E passai-nos como vossos!
PARVO
Ó, homens dos breviário, (livros)
Rapinastis coelhorum (vós rapinaste coelho)
Et pernis perdigotorum (e pernas de perdiz)
Para além de mijar nos campanários!
CORREGEDOR
Oh! Não nos sejais contrários, (não seja mau, ou não nos complique
mais a situação)
Pois não temos outra ponte!
PARVO
Beleguinis ubi sunt?(+*1) (onde estão os carcereiros)
Ego latinus macairos!(*2) (o meu latim é macarrónico/maravilhoso!)
[(*%) 1- Beleguins eram os oficiais da Justiça. Juane, o Parvo, está a reivindicar
que alguém venha prender aqueles dois. 2 - Frase cómica, dirigida
provavelmente ao público porque o seu latim é uma grande trapalhada.]
ANJO
A justiça divinal
Manda-vos vir carregados
Porque têm de ser embarcados
Naquele batel infernal.
CORREGEDOR
Oh! Não atende São Marçal!
Com a ribeira, nem com o rio! (*)
Penso que é desvario
Fazer-nos tamanho mal!
[(*) Diz o corregedor que São Marçal não encontra aquele sitio para lhes
atender as preces e os salvar]
PROCURADOR
Que ribeira é esta tal!
PARVO
Pareces-me vós a mim
Como um cagado nebri, (*1)
Mandado no Sardoal.
Embarquetis in zambuquis! (*2) (embarcai na má barcaça - tradução
provável)
[9 1- O Parvo continua a fazer o seu papel de denunciador daqueles que
aparecem junto à barca do paraíso, chegando inclusive a dizer de onde é que
eles vêm e ofendendo-os com isso. "nebri" é uma palavra da falcoaria, que se
refere ao falcão-nebri. "cagado nebri" é pois um insulto. "uma ave de rapina
cagada, ou seja, mal feita" que vinha das terras do Sardoal. 2 - mais uma frase
humorística, a tentar imitar o latim, mas sem o conseguir.)]
CORREGEDOR
Venha a negra prancha para cá!
Vamos ver esse segredo.
PROCURADOR
Diz um texto do Degredo...
DIABO
Entrai, que cá se dirá!
E assim que os dois entraram dentro no batel dos
condenados, disse o Corregedor para a Brízida Vaz, porque
a conhecia:
CORREGEDOR
Oh! Em má hora vos vejo,
Senhora Brizida Vaz!
BRÍZIDA
Já nem aqui estou em paz,
Pois nem aqui me deixais.
Cada hora a mim sentenciada:
«Foi justiça que vós mandastes fazer....» (*)
[(%) Brízida com estas palavras queixa-se de que em vida fartava-se de ser
perseguida pela lei e que fora sentenciada muitas vezes pelo Corregedor]
CORREGEDOR
E vós... volta a tecer
E a urdir outra meada.(*)
[(*) E responde o corregedor que Brizida voltava sempre a fazer o mesmo,
apesar das sentenças que lhe eram dadas]
BRÍZIDA
Diz ó, juiz da alçada:
Vem lá o Pêro de Lisboa? (*)
Levá-lo-emos à toa
E irá também nesta barcada.
[C) O “Pêro de Lisboa”, dizem os historiadores que era um escrivão muito
conhecido na altura em Lisboa pela má fama. É pois uma paródia dirigida a
uma figura da época que já lhe apontava o inferno como destino final]
Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao
batel dos mal-aventurados, diz o barqueiro ao que chega:
DIABO
Vamos embora, enforcado!
Que diz lá o Garcia Moniz? (*)
[C)Figura provavelmente conhecida à época, cuja identidade é hoje
desconhecida e dada a muita suposição. Seria alguém importante na corte
portuguesa]
ENFORCADO
Eu te direi que ele diz:
Que fui bem-aventurado
Em morrer dependurado (pendurado)
Como o tordo na buiz, (armadilha)
E diz que os feitos que eu fiz
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