BooksWhaleBooksWhale
Carlota Angela cover

Portuguese Edition

Literature

Carlota Angela

Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco narra um amor contrariado por interesses familiares, acompanhando Carlota e Francisco entre separação, sofrimento e religião.

Preview
A sample from the prepared text
Formats
Online reader, EPUB, PDF
Access
Library claim

Book introduction

Carlota Angela

Carlota e Francisco enfrentam obstáculos que transformam o amor em sofrimento prolongado. Camilo Castelo Branco cruza as decisões dos pais, os interesses materiais e os refúgios religiosos dos amantes com a intervenção de um narrador atento às contradições humanas. Esta edição em português apresenta os dezanove capítulos e a conclusão do romance, mantendo a sua grafia histórica.

BooksWhale edition

How this edition was prepared

This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

Public domain basis

Why this edition can be shared

Camilo Castelo Branco morreu em 1890. Esta edição utiliza o texto original português conservado pelo Project Gutenberg, sem publicidade editorial e notas separadas.

Read preview

A sample from the prepared text

Preview selected from the prepared reader text.

Preview chapterIRead preview

Se a natureza formou uma bella creatura, não póde a fortuna precipital-a n'um incendio?

Shakspeare. (Como vós o amaes.)

Cette douce ivresse de l'âme devait être troublée.

Balzac. (Albert Savarus.)

Norberto de Meirelles e sua mulher D. Rosalia Sampayo, ricos proprietarios, moradores, em 1806, na rua das Taipas, da cidade do Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedaes, e, com elles, uma filha unica, tão encantadora para os paes como a riqueza com que a iam enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra.

Tolerem-me a singeleza com que se começa a narrativa.

Eu tinha á minha disposição quatro exordios bonitos, que escrevi em quatro tiras, e rejeitei com desdem.

Era assim o primeiro:

«Diz-me tu, amor, que magos philtros insinuaste no coração da virgem de olhos negros, que lêda e melancolica, lagrimosa e risonha, te está enamorando na lua, d'onde lhe sorris em noites calmas de estio, na floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe murmuras a tua linguagem do céo? Que ambrozia inebriante déste á doudinha que, tão requestada e alheada de brinquedos pueris, se vae, só e destemida, a buscar-te, por entre myrtos e rosaes, perseguindo-te como lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde volitam lucidos phalenos?»

Segundo exordio:

«Á viração da tarde tremulava ligeiramente a folhagem do renque de alamos que cintavam uma pintoresca vivenda do Candal. Um repuxo de crystallina limpha trepidava na cascata com soidoso rumor, donosa musica, ao som da qual se espertam amores em peito virgem, e adormecem mágoas em coração atribulado. Morbidamente recostada sobre um banco de cortiça, por onde trepava um jasmineiro em flor, via-se, como engolfada em alegrias intimas das que o rosto esconde ao invejar de estranhos, uma graciosissima donzella... etc.»

Terceiro:

«Onde vae este gentil mancebo, tão á pressa e offegante pela calada da noite, subindo a collina do Candal, em cujo tôpo alveja uma casa, onde elle parece mandar adiante o coração em cada suspiro que o cansaço lhe tira do peito arquejante? Que visão alvissima, que fada ou sylpho é esse que desliza, rapido e volatil, por entre os alamos, e vem ao peitoril do muro, como a anciada Hero, restaurar o vigor do extenuado Leandro?... etc.»

Quarto, e ultimo exordio:

«Vou contar-vos uma historia que verifiquei nas fieis narrações de mais de vinte pessoas vivas. Ides ver até que ponto os paes podem infelicitar os filhos; até que ponto a missão augusta do segundo creador póde ser fementida e insidiosa; até que ponto o amor paternal é amor, e d'onde começa a ser deshumanidade. Se alguma confiança devo ter na justiça congenial do coração humano, espero carear graça e indulgencia para uma filha que se rebella primeiro contra um pae, depois contra o falso deus que lhe impozeram como verdugo de mais alta e temerosa categoria, arbitro e claviculario das sempiternas moradas do inferno... etc.»

Ahi está o que eu tinha escripto. Tudo rejeitei, contra a opinião de um congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos quatro preludios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto, acanhado e pêco como historieta sem nervo, nem imaginação.

E, portanto, desde já me desquito com os leitores se no decurso d'este romance me apodarem de insulso e desimaginoso.

VERDADE, NATURALIDADE, E FIDELIDADE

é a minha divisa, e sel-o-ha emquanto este globo se não reconstruir á feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam.

Quem desde já sentir azias de bôca, deixe isto, e desenfastie-se com as conservas irritantes da França, e até das nacionaes, que tambem as temos, curtidas em vasilhas, francezas. Embora travem á hervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés litterarios, em menoscabo do classico cozinhado de Domingos Rodrigues.

Preview chapterIIPreview

Os tigres são menos sanhudos contra o homem que o proprio homem.

Phocion. (Instrucção a Aristias.)

Les parents en effet ont cela de admirable, et je parle des meilleurs, que vous ne pourrez jamais, ni par plainte, ni par raison, leur faire comprendre qu'il vient un moment où l'oiseau essaie ses ailes et quitte son nid; qu'ils n'ont d'autre mission que de faire et d'elever leur petits jusqu'á l'âge où ils quittent le nid.

Alphonse Karr. (Sous les Tilleuls.)

Quaes fossem os conselhos do ornamento dos auditorios portuenses, teremos occasião de avalial-o opportunamente.

Oito dias depois de planisada a conspiração contra os amores reservados de Carlota Angela, foi procurado Norberto de Meirelles pelo tenente de marinha.

Francisco Salter de Mendonça era um rapaz da boa sociedade de Lisboa, um dos mais distinctos alumnos do collegio de marinha, reformado pelo intelligente ministro Martinho de Mello e Castro. Tinha dotes corporaes que o distinguiam, e virtudes que os seus amigos avaliavam como raras.

Amava com verdade Carlota Angela, posto que, no principio, o ser ella filha unica de um abastado commerciante encarecesse mais o galanteio. Sentiu, depois, que o seu amor se purgara da ignominia do calculo, até preferir que fosse pobre Carlota, para que, pobre, se igualasse a elle. Longo tempo a cortejara sem revelar-lhe as intenções honestas do namoro, esperando que fosse ella a que o auctorisasse a pedil-a a seus paes. Certeza tinha elle de que lh'a negavam, porque então, como hoje, um noivo era pesado na balança do negociante rico, e o contrapeso do coração não fazia oscillar o fiel. Pedil-a sem predispor o auxilio da lei invocado por Carlota, nunca Mendonça quizera até ao momento em que ella prometteu fugir de casa, se seu pae não consentisse.

Traçado o plano, Mendonça, como dissemos, procurou Norberto de Meirelles, e foi urbanamente recebido. Disse o motivo da sua visita, e não divisou na physionomia do ricasso o menor signal de espanto, nem sequer surpreza. Acabou de fallar, e ouviu, com estranho jubilo, a seguinte resposta:

—Se minha filha é contente com o marido que se lhe offerece, eu não me opponho a que ella seja sua esposa. Ella que o ama, é que v. s.ª é digno d'ella.

—Espero—atalhou Mendonça—merecer a v. s.ª o conceito que mereci á snr.ª D. Carlota.

Norberto não soube responder convenientemente a isto, porque dissera parte do que o doutor lhe ensinara nas poucas palavras com que embriagou o radioso genro, e, receioso de que lhe esquecesse o resto, continuou:

—Fique v. s.ª na certeza de que a vontade de minha filha é a minha; tenho, porém, a pedir-lhe um favor que v. s.ª não recusará ao pae de Carlota.

—Oh! senhor! que me pedirá v. s.ª, que eu não receba como ordens da pessoa que prézo desde já como pae?!

—Minha filha faz annos de hoje a um mez, e eu muito desejava que ella festejasse na minha companhia os seus dezesete annos, ainda solteira.

—Pois não, snr. Meirelles! Exija v. s.ª de mim todos os sacrificios que se podem humanamente fazer, que eu nunca pagarei o regosijo d'este momento decisivo para a felicidade de toda a minha vida.

—E v. s.ª—proseguiu o fiel repetidor do bacharel, contentissimo de não ter trocado uma só palavra, apesar das interrupções do interlocutor—poderá, se assim lhe aprouver, honrar com a sua presença os annos de Carlota, que se festejam, ha dezeseis annos, na minha quinta do Candal.

Esgotara-se o peculio. Norberto fez menção de erguer-se. Salter notou a grosseria; mas desculpou-a ao pae de Carlota. Retirou-se acompanhado até ao pateo, honra que tres vezes recusara, mas, á quarta, o negociante disse que ia para o escriptorio tratar da labutação dos arrozes que estavam á descarga. Isto é que era legitimamente d'elle.

Preview chapterIIIPreview

Tu me matas, meu pae! Quem tal pensara?

Eu beijo a mão que o golpe me prepara.

Marqueza de Alorna.

A traça do bacharel Joaquim Antonio de Sampayo era afastar Mendonça de Portugal, repentinamente.

Aconselhara elle a mentira, para evitar o escandalo de um rapto, ou a saida judiciaria de Carlota.

Ausentar Mendonça para alguma das colonias, ou para os estados barbarescos, sob pretexto de guerra á pirataria, que infestava então o Mediterraneo; e prolongar essa ausencia até dissuadir Carlota, cortando-lhe os meios de se escreverem, era a trapaça do habil jurisconsulto. Norberto, pasmado de tamanho ardil, fez tão estremado conceito do doutor que, no expandir-se da sua admiração, exclamou:

—Ó cunhado! vossê é homem de todos os diabos! Quem sabe, sabe!

—Mas, Norberto,—disse o doutor—sabe que sem dinheiro nada se faz?

—Saque o que quizer, cunhado!

—Eu tenho talvez de comprar muito caro o pretexto para a saída de Mendonça. Não sei se me verei a braços com os protectores e parentes d'elle na côrte, e as nossas armas são o dinheiro.

—Pois é dizer o que quer. O doutor leva ordem franca; não poupe dinheiro, e ponha-me o homem fóra da nação.

Assim armado com o invencivel dinheiro, o tio de Carlota Angela chegou a Lisboa, em fins de 1806, levando cartas de apresentação para o ministro da marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, para D. Catharina Balsemão, e para o intendente geral da policia, Diogo Ignacio de Pina Manique.

A materia que então mais se discutia era a demencia do principe regente, causada por soffrimentos dos que tornam ridiculo um marido, ainda que o motivo seja mais para compaixão que riso. Fallava-se na morte violenta de José Anastacio, em Mafra, empeçonhado por ter sido o espia e delator da conspiração urdida contra o principe, em Arroios, n'uma casa da condessa de Alorna, que emigrara para Inglaterra, descoberta a conjuração. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicavam os individuos suspeitos, mórmente depois que o escriptor publico Hippolyto da Costa fugira dos carceres da inquisição, que lhe foram abertos pelo braço poderoso da maçonaria. Hippolyto, auctor, depois, do Correio Braziliense, devia a liberdade á embriaguez dos guardas e á astucia d'elle; convinha, porém, ao governo simular-se assustado do poder da maçonaria para encruar contra os suspeitos a sanha da plebe. É, porém, certo que a maçonaria, em Portugal, entrara em 1797, com os emigrados francezes, e podera a muito custo implantar-se n'uma pequena sociedade ou loja denominada Fortaleza, quasi desconhecida e despercebida até 1806. Só depois que o ministro do reino entregou á inquisição um pedreiro-livre, e o impio fugiu do carcere do Rocio, levando nos canos das botas os «Regimentos da Inquisição» reformados pelo marquez de Pombal, dos quaes publicou, em ar de zombaria, curiosos extractos no jornal que, depois, redigiu em Londres—só depois desses nescios mêdos e estupidas perseguições do governo, sempre providenciaes para acordar os povos do lethargo, é que a sociedade maçonica em Portugal se radicou, floresceu, e deu fructos bons e maus. (Os de hoje apodrecem todos antes de madurar.)

A questão dos pedreiros-livres revirou os projectos do bacharel portuense. Nova ideia lhe acudiu, quando principiava a mortifical-o o receio de não poder supplantar um frade benedictino bem aparentado, que se dizia ser pae de Francisco Salter de Mendonça. Essa ideia era denunciar o tenente de marinha como encarregado de fundar no Porto uma loja maçonica, para o que tratava de intimidade com Jeronymo José Rodrigues, arcediago de Barroso, o primeiro liberal que teve a cidade eterna, antes de pregoar-se a liberdade em Portugal.

Francisco Salter de Mendonça conhecia o arcediago, era sua visita, sympathisava com as suas doutrinas politicas, e deixara-se eivar do espirito de vaga novidade que os principios de liberalismo balbuciavam ainda então confusamente. Não era, todavia, pedreiro-livre, porque venerava o frade que o adiantara na carreira das armas, e queria cumprir o juramento que fizera, nas mãos do monge, de jámais se associar á seita dos inimigos de Deus, com quanto conhecesse a inepcia dos pharisaicos amigos do altar.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01I
  2. 02II
  3. 03III
  4. 04IV
  5. 05V
  6. 06VI
  7. 07VII
  8. 08VIII
  9. 09IX
  10. 10X
  11. 11XI
  12. 12XII
  13. 13XIII
  14. 14XIV
  15. 15XV
  16. 16XVI
  17. 17XVII
  18. 18XVIII
  19. 19XIX
  20. 20CONCLUSÃO

Language availability

Other languages

Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.

Request another language

Carlota Angela

Membership $9.99 / year · claim access

PreviewJoin