Portuguese Edition
Literature
Casa de pensão
Portuguese BooksWhale Edition by Aluísio Azevedo
Um estudante provinciano entra numa pensão carioca marcada por desejo, dinheiro e degradação social.
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Book introduction
Casa de pensão
Casa de pensão segue Amâncio, jovem maranhense no Rio de Janeiro, enquanto estudo, ambição, exploração afetiva e vida de pensão o empurram para uma tragédia social. Aluísio Azevedo observa costumes urbanos, sexualidade, família, interesse financeiro e determinismo naturalista com energia crítica.
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Aluísio Azevedo morreu em 1913 e Casa de pensão foi publicada em 1884. Essas datas sustentam o domínio público do texto original em português usado nesta edição.
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Casa de pensão
Preview chapterCapítulo IPreview
Seriam onze horas da manhã.
O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoço e, a pena atrás da orelha, o lenço por dentro do colarinho, dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no seu escritório e foi sentar-se à secretária.
Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um copo de água, sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante, sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se o Diário deitado de costas e aberto de par em par.
Tratava-se de fazer a correspondência para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma nova carta, lançando cuidadosamente no papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe perguntou se podia falar com o Sr. Luís Batista de Campos.
— Tenha bondade de entrar, disse este.
O rapaz aproximou-se das grades de cedro polido que o separavam do comerciante.
Era de vinte anos, tipo do Norte, franzino, amorenado, pescoço estreito, cabelos crespos e olhos vivos e penetrantes se bem que alterados por um leve estrabismo.
Vestia casimira clara, tinha um alfinete de esmeralda na camisa, um brilhante na mão esquerda e uma grossa cadeia de ouro sobre o ventre. Os pés, coagidos em apertados sapatinhos de verniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da calça.
— Que deseja o senhor? perguntou Campos, metendo de novo a pena atrás da orelha e pousando um pedaço de papel mata-borrão sobre o trabalho.
O moço avançou dois passos, com ar muito acanhado, o chapéu de pelo seguro por ambas as mãos, a bengala debaixo do braço.
— Desejo entregar esta carta, disse, cada vez mais atrapalhado com o seu chapéu e a sua bengala, sem conseguir tirar da algibeira um grosso maço de papéis que levava.
Não havia onde pôr o maldito chapéu, e a bengala tinha-lhe já caído no chão, quando Campos foi em seu socorro.
— Cheguei hoje do Maranhão, acrescentou o provinciano, sacando as cartas finalmente.
As últimas palavras do moço pareciam interessar deveras o negociante, porque este, logo que as ouviu, passou a considerá-lo da cabeça aos pés, e exclamou depois:
— Ora espere... O senhor é o Amâncio!
O outro sorriu, e, entregando-lhe a carta, pediu-lhe com um gesto que a lesse.
Não foi preciso romper o sobrescrito, porque vinha aberta.
— É de meu pai... disse Amâncio.
— Ah! é do velho Vasconcelos?... Como vai ele?
— Assim, assim... O que o atrapalha mais é o reumatismo. Agora está em uso da Salça-ecaroba, do Holanda.
— Coitado! lamentou Campos com um suspiro — Ele sofre há tanto tempo!...
E passou a ler a carta depois de dar uma cadeira a Amâncio, que já estava para dentro das grades.
— Pois, sim, senhor! disse ao terminar a leitura. — Está o meu amigo na Corte, e homem! Como corre o tempo!...
Amâncio tornou a sorrir.
— Parece que ainda foi outro dia que o vi, deste tamanho, a brincar no armazém de seu pai.
E mostrou com a mão aberta o tamanho de Amâncio naquela época.
— Foi há seis anos, observou o moço, limpando o suor que lhe corria abundante pelo rosto.
Fez-se uma pequena pausa e em seguida Campos falou do muito que devia ao falecido irmão e sócio do velho Vasconcelos; citou os obséquios que lhe merecera; disse que encontrara nele "um segundo pai" e terminou perguntando quais eram as intenções de Amâncio na Corte. — Se vinha estudar ou empregar-se.
— Estudar! acudiu o provinciano.
Queria ver se era possível matricular-se ainda esse ano na Escola de Medicina. Não negava que se havia demorado um pouquinho nos preparatórios... mas seria dele a culpa?... Só com umas sezões que apanhara na fazenda da avó, perdera três anos...
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02Capítulo I
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