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Portuguese Edition

Literature

Cidades mortas

Portuguese BooksWhale Edition by Monteiro Lobato

Contos sobre decadência rural, memória, interior paulista e crítica social brasileira.

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Book introduction

Cidades mortas

Cidades mortas apresenta vilas, fazendas, personagens e paisagens marcadas pela decadência econômica e pelo peso do passado. Monteiro Lobato combina observação regional, humor crítico e retrato social do Brasil do início do século XX.

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Monteiro Lobato morreu em 1948; a obra foi publicada em 1919. Essas datas sustentam o domínio público desta edição.

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Cidades mortas

Monteiro Lobato

A poesia e o poeta

(Ricardo Gonçalves)

Na lama da estrada, ao pé da porteira, uma orla de pétalas côr

de ouro — flores de ipê? — engrinaldam as pocinhas d'agua côr de telha.

Mas ao chape-chape do cavallo que se approxima, ó linda revoada de borboletas amarellas dentro de cujo arabescar eu passo!

Tontinhas!...

Como me veem afastar socegam, e uma a uma pousam de novo, asas a prumo, immoveis, como flores de ipê dispostas em grinalda.

A saudade commenta dentro em mim:

— Um soneto de Ricardo...

De bruços no remanso de um pôço, á sombra de ingazeiros por cuja galhaça pendem bainhas retorcidas — pelludos escrinios duma polpa que furtou á neve a côr e ao velludo o macio — contemplo um grupo de guarús que gyram resabiados em torno d'uma «vaquinha» de elytros verde gaio, que cahiu na agua e bóia pernejando.

Um João-bôbo espia-me de perto, inclinando a cabecita.

Rumoreja longe o rio, na corredeira.

Bisbilhos, cicios, tentativas de som grypham o silencio sombrio

da grota.

E a saudade «pensa» dentro em mim:

— Versos de Ricardo...

Bordejando a ilha das Palmes desliza a canôa no berylo liquido da costeira.

Manuel rema á popa, Juvenal á prôa.

Como é loquaz o Manuel!

Não tem fim a historia da tintureira que embicheirou um dia lá pelas alturas da Moéla.

Afla o mar como um seio de menina agitado dos primeiros sustos de amor.

Está calmo, está macio.

Sopram brisas de sudoeste.

Duas gaivotas, immoveis, na lage do Major, longe, descansam juntinhas, como pombas...

Só uma nuvem no céo... e a diluir-se... estirada em frouxel de paina...

— As tainhas!

Vólto o rosto.

A boreste linguas de prata ás dezenas emergem do liquido, scintillam instantaneas á luz do sol, num salto, e caem de chapa na agua azul.

— Que lindo!

Não tarda muito, rebóla um bôto na esteira do peixe.

E outro bôto.

E outro!...

Somem-se as tainhas.

Somem-se os bôtos.

O mar fecha aos nossos olhos a chacina sangrenta que lhe vae no bojo.

Fementido!

Todo o plagios do céo por fóra, todo dramas de carnagem por dento...

— Manuel, Manuel, diz a minha saudade, está faltando aqui um companheiro, o Ricardo...

— O Ricardo Pequeno, da praia do Góes?

— Não, o outro, o grande — o Ricardito...

A casa onde móra aquella

Menina côr de açucena

E´ uma cazinha pequena,

Casa de porta e janella.

Ricardo mede versos na mezinha em desordem.

As janellas enquadram a paineira florescida do Minarete.

A espaços, uma flôr se destáca e cae, gyrante. Godofredo Rangel, ás voltas com a machina de café, resmunga contra o Antonio Nogueira. Não é que o patife passára a noite a lêr um Zola á luz azul da chamma do alcool, depois de consumido o ultimo côto de vela?

A-cá-son-de-mó-ra-qué

...

— Não ha combustivel, senhor poeta!

— Accende estes «Dez Contos».

— Pegarão fogo?

— Experimenta. A-cá-son-de-mó..

E as flores, uma a uma, cahiam, gyrantes...

E as rimas, uma a uma, ageitavam-se no verso... E os contos, um a um, ardiam sob a cafeteira...

Passos na escada. Um grito:

— Ricardo! Rangel!

— Vé, Bompard! respondem de cimá.

Era o Candido que chegava, e o Raul, e o Arthur. A cainçalha integrava-se e a uma voz estrugia, num desafio á Pascacia, o nosso hymno de guerra:

Dé brin o dê bran

Cabussaran...

Mal agonizavam as ultimas notas do «hymno do Minarete», da mezinha em desordem evelou-se um novo:

A-cá-son-de-mó-ra-qué

...

Porque nunca mais deixaram de se associar em meu espirito e em minha saudade, a Poesia e o Poeta, tal os conheci um dia, no Minarete — elle medindo versos na mezinha em desordem; ella a revelar-se nas flôres côr de rosa que aos beijos da brisa, cahiam, gyrantes, da nossa grande paíneira florescida...

Preview chapterIlha MaldictaPreview

, do «nosso» Bernado Guimarães.

Parando ahi o catalogo era forçoso escolher.

No concerto dos nossos romancistas, onde Alencar pé o piano querido das moças e Macedo a semsaboria relamboria d'um flautim piegas, Bernardo é a sanfona.

Lel-o é ir pro mato, para a roça — mas um roça adjectivada por menina de Sião, onde os prado são amenos, os vergeis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os pincaros altissimos, os sabiás sonorosos, as rolinhas meigas. Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse contar e reproduzisse as paizagens com qualificativos surrados do máo contador. Não existe nelle o vinco energico de impressão pessoal. Vinte vergeis que descreva são vinte perfeitas amenidades. Nossas desageitadissimas caipiras são sempre lindas morenas côr de jambo.

Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda a gente vê carrapatos, pernilongos, espinheiros, Bernardo aponta doçuras, insectos maviosos, flores olentes. Bernardo mente.

Mas como mente menos que o Kock ou o truculento Terrai, escolhi-o.

Veiu o livro. Era um volume velho como um monumento egípcio e, como elle, coberto de inscripções. Cada leitor que passava ia alli deixando o rastro gravado a lapis.

«Li e gostei", dizia um; «Li e apreciei», dizia uma senhorita. Uma inscripção quasi em cuneiforme rezava: «Fulano leu e apreciou o talento do grande escriptor brasileiro.» Outro versificava: «Já foi lido - Pelo Walfrido». Certa moça dizia parcimonialmente: «Li», e assinava. Um amigo da ordem inversa pôs: «Li e muito gostei. Houve um que discordou: «Li e não gostei.»

O patriotismo literario dum anonymo saiu a campo em pról do

auctor: «Os porcos preferem milho a perolas».

Um monograma complicado subscrevia: «O Romcambole diverte mais».

E assim por quanto espaço em branco tinha o livro, margens ou fins de capitulo, as apreciações se alastravam com levíssimas variantes aos sobrio «Li e gostei inicial». Havia nomes bem antigos, de pessoas fallecidas, e nomes das meninas casadeiras da epoca.

A mentalidade de Oblivion bebia á farta naquella veneranda fonte. Abeberavam-se naquelle Bernardo de «estylo e boa linguagem», conforme affirmou um; No Rocambole truncado exercitavama os músculos da imaginativa; e no Paulo de Kock os eleitos, os Summos (os que sabiam francez!) fartavam-se da leve grivotserie permitida a espíritos superiores.

Essa trindade impressa bastava á educação literária da cidade.

Feliz cidade!

Si é de temer o homem que conhece um livro, a cidade que conhece tres é de venerar. Veneração entrentanto que não virá, porque o mundo desconhece a pobrezinha Oblivion. Mas, por não paga, uma dívida deixa de ser menos devida?

OS PERTURBADORES DO SILENCIO

O silencio em Oblivion é como o frio nas regiões arcticas; uma permanente. Não se comprehende a segunda sem o primeiro. Elle a completa; ela o define.

Durante a noite aquelle silencio é inteiriço como a escuridão. Os ouvidos, por mais que as apurem, nada ouvem a não ser um ressoar vago e remoto, lembrando myriada de grilos microscopicos chiando em surdina. Não seria isso aquellla harmonia das espheras, que refere o philoshopo grego?

Mas durante o dia a integridade do silêncio em Oblivion sofre lesões. Uns tantos rumores, sempre os mesmos, e periodicamente repetidos, constellam-no de soluções de continuidade. O seu velho inimigo, o Som, dentro delle berra, a espaços, um grito sedicioso, tal o relâmpago que destroe momentaneamente o imperio das trevas. Mas o silencio logo subjuga, destroe e absorve o intruso.

A' frente desse grupo de Irreverencias está o Sino da egreja. Repicando missa aos domingos, ou chorando a defuncto, alegre ou funebre — é o Sino o mais violento perturbador do Silencio de Oblivion.

Outro é a capina trimensal das ruas — o raspar das enxadas perturba-o com insistência d'um coaxar sapo-ferreiro.

Outro é o fim das aulas; quando soam as quatro horas o portão do Grupo Escolar borbota um fluxo de meninos, rompidos em algazarra, berrando, cantando.

Preview chapterIsaac, de sobrecenho carregado, leva o olhar attentamente fito no caminho — para evitar algum desastre.Preview

Nas ruas desertas um ou outro cachorrinho estira-se ao sol. Isaac, a vinte passos, divisando-lhe o vulto, pára, leva a mão á viseira, firma os olhos.

— Diabo! A' mó' que é o Joli do Pedro Surdo? — e com uma pedra o espanta:

— Sae, «porquêra»! Não ouve o carro? Não tem medo de «morrê masgaiado?»

E convencido de que salvou a vida a um christão, Isaac-Garrafa-de-Licor-de-Cacáo retoma os varaes e lá segue, nhem, nhim, nhem, nhim, por Oblivion afóra, com a solemnidade de um sacerdote.

A's janellas acode gente. Crianças repimpadas no peitoril gritam para dentro:

— Mamãe, o carrinho « evem » vindo!

Muita mocinha nervosa deixa a costura e tapa os ouvidos, exclamando:

— Que inferneira! Não se póde com esta barulhada!

Não obstante, o terrivel vehiculo passa, indiferente á admiração como á censura, garboso, todo de ferro e ferrugem, nhem, nhim, nhem, nhim, empurrando pela dignidade infinita de Isaac-Toco-de-Vela-Clichy.

E emquanto não torna ao deposito, o silencio não reentra na posse dos seus dominios...

O DEDO DE DEUS

O Pinto é porteiro do theatro á noite, é remendão de guarda-chuvas e dia, e é de noite e de dia um portuguez retaco, de um metro e sessenta de altitude acima da sola dos pés.

Muito teso, conserva sempre um aprumo de quem enguliu sem mastigar um bom cabo de vassoura.

No mento traz cavanhaque, e bigodes pontudos entre a bocca e o nariz.

O papel importante da sua vida é, nos dias de dramalhão, ao fim do Epilogo, concretizar de modo palpavel o dedo de Deus interventor em prol da virtude conspurcada.

E' muito de ver nesse lance o magnifico Pinto trancar as portas do theatro, envergar a farda de commissario de policia francez, com faixa vermelha a tiracolo, e: pan! pan! pan!

Abram em nome da lei!

Abrem, não ha remedio sinão abrir. E Pinto entra, marcialmente, severizando o rosto, teso e rijo como a propria Justiça; entra e ferra o mão, o barão, o rico, levando-o aos trancos deante de si. Embalde o actor a figurar de máo o adverte em voz baixa: «Calma, sr. Pinto, olhe que me magôa!» Pinto inflexivel, Pinto surdo, Pinto imagem viva do mata-piolhos divino em funcção disciplinar na terra, sacode o monstro pela góla, a ringir os dentes.

O publico, ao ver o máo victorioso em seis actos cair nas unhas do Pinto no setimo, respira alliviado, dá palmas em barda e bravos á energia justiceira do homenzinho providencial.

Somente lá no fundo dos bastidores é que Pinto cae em si, vê que a prisão fôra de mentira e larga o pobre Máo.

Despe então a farda, ás carreiras, para correr ao seu posto de porteiro, onde, á sahida do povo, recebe cumprimentos dos amigos.

— O Barão viu fogo hoje, hein, Pinto?

— Cá commigo é alli no duro! «Tanho» escola!

APOLOGO

O velho Torquato dá relevo ao que conta á força de imagens engraçadas, ou apologos. Hontem explicava que o mal da nossa raça é a preguiça de pensar. E, restringindo o asserto á classe agricola, disse:

— Si o governo agarrasse um cento de fazendeiros dos mais illustres e os trancasse nesta sala, com cem machados naquelle canto e uma floresta virgem alli adeante; e si naquelle quarto puzesse uma secretaria com papel, penna e tinta; e lhes dissesse: «ou vocês pensam meia hora naquelle papel ou botam abaixo aquelta mata», d'ahi a cinco minutos cem machados pipocavam nas perobas!...

AS CRIANÇAS

As crianças desadoram os brinquedos que dizem tudo, preferindo os toscos onde a imaginação collabora. Entre um polichinello e um sabugo acabam conservando o sabugo. E' que este ora é um homem, ora uma mulher, ora é carro, ora é boi — e o polichinello é sempre um raio de polichinello.

O BEIJO DAS MOÇAS

As moças entre-beijam-se porque não podem morder-se umas ás outras. O beijo d'ellas é a evolução da dentada da pre-avó nmacaca.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02Ilha Maldicta
  3. 03Isaac, de sobrecenho carregado, leva o olhar attentamente fito no caminho — para evitar algum desastre.
  4. 04Infelizmente, tambem a rua estava deserta, e nem siquer a lua, a pino, lhe dava sombras com que esgrimisse.
  5. 05Ignacio recitava. Recitou o «Navio negreiro», «As duas ilhas», «Vozes da Africa», «O Tejo era sereno».
  6. 06I
  7. 07II
  8. 08III

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