Portuguese Edition
Literature
Contos de Eça de Queirós
Portuguese BooksWhale Edition by Eça de Queirós
Os contos de Eça condensam ironia, crítica social, fantasia e compaixão em narrativas de grande precisão.
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Book introduction
Contos de Eça de Queirós
Contos de Eça de Queirós reúne narrativas breves em que o autor explora adultério, fé, desejo, hipocrisia, humor e imaginação fantástica. A variedade dos enredos mostra a agudeza do realista português em formas mais concentradas, entre sátira social e emoção humana.
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Eça de Queirós morreu em 1900, e « Contos de Eça de Queirós » foi publicado pela primeira vez em 1902; essas datas sustentam o domínio público desta edição original em português.
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Contos de Eça de Queirós
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Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de setim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de sêda, onde reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fôsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paizagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é certo,--tam friamente educados que sejâmos--um resto de misticismo; e basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idea, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tam triste, tam visionário, tam idealista--como um vélho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, emquanto anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me, elegíacamente, ridículamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da cêrca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitação_, e ouvindo os rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.--Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta de espírito--a sensação--que me fez a história daquele homem dos canhões de veludilho.
A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a bôca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos--se êle era de Vila Rial.
--Vivo lá. Há muitos anos--disse-me êle.
--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu.
O homem calou-se.
--Hein?--tornei.
O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.
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Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu calo-o;--mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao seu espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se para êle um destino, o fim moral da sua vida e toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.
Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na bôca e saíu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:
--Não.
--Perdão, tio Francisco!
--Não.
--Mas oiça, tio Francisco...
--Não.
Macário sentiu uma grande cólera:
--Nesse caso, faço-o sem licença.
--Despedido da casa.
--Sairei. Não haja dúvida.
--Hoje.
E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:
--Olá!--disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando nos vidros da janela.
Macário voltou-se com uma esperança.
--Dê-me daí a caixa do rapé--disse o tio Francisco.
Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.
--Tio Francisco...--começou Macário.
--Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.
--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me êle.--Quem mo déra cá! Mas, se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle declarou-mo categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...
E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam _ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos_.
E todos _sentiam_, _mas_...
Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. Se tomavam informações, sabiam que êle fôra despedido da casa do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02I
- 03II
- 04I
- 05II
- 06III
- 07IV
- 08V
- 09I
- 10II
- 11III
- 12I
- 13II
- 14I
- 15II
- 16III
- 17I
- 18II
- 19III
- 20D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:
- 21D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!
- 22D. Rui estremeceu de horror:
- 23IV
- 24V
- 25I
- 26II
- 27III
- 28IV
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