Portuguese Edition
Literature
Contos
Portuguese BooksWhale Edition by Eça de Queirós
Contos de Eça com ironia fina, religião, fantasia, crítica social e elegância narrativa portuguesa.
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Book introduction
Contos
Contos reúne narrativas breves de Eça de Queirós que variam entre sátira social, fantasia, ironia religiosa e observação psicológica. A forma curta evidencia sua precisão estilística, o humor crítico e a capacidade de transformar episódios simples em retratos agudos de mentalidades.
BooksWhale edition
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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
Public domain basis
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Eça de Queirós morreu em 1900, e a recolha Contos foi publicada no início do século XX a partir de textos oitocentistas. Essas datas sustentam a base de domínio público do texto português usado nesta edição.
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Contos
Preview chapterSINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURAPreview
Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de setim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de sêda, onde reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fôsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paizagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é certo,--tam friamente educados que sejâmos--um resto de misticismo; e basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idea, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tam triste, tam visionário, tam idealista--como um vélho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, emquanto anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me, elegíacamente, ridículamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da cêrca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitação_, e ouvindo os rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.--Não se pode ser mais estúpido.
Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta de espírito--a sensação--que me fez a história daquele homem dos canhões de veludilho.
A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma
galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a
criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no
copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava
defronte de mim, comendo tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com
a bôca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos
dedos--se êle era de Vila Rial.
--Vivo lá. Há muitos anos--disse-me êle.
--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu.
O homem calou-se.
--Hein?--tornei.
O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.
Preview chapterUM POETA LÍRICOPreview
Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões--parecia-me um tufão dos mares da China...
Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao _bureau_. A _guarda-livros_, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu _crochet_ ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,--quando a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:
--Já está servido o almôço das sete...
Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.
Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o _lunch_, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo, nas ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, _fronte_; era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o _comptoir_ onde o _maître de hotel_ lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:
--Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...
O _maître de hotel_ afastou a _Bíblia_, inscreveu o _menu_--e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo--porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
- 03UM POETA LÍRICO
- 04parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas
- 05NO MOINHO
- 06CIVILIZAÇÃO
- 07O TESOIRO
- 08FREI GENEBRO
- 09ADÃO E EVA NO PARAÍSO
- 10A AIA
- 11O DEFUNTO
- 12JOSE MATIAS
- 13A PERFEIÇÃO
- 14O SUAVE MILAGRE!
- 15FIM
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