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Crónica de el-rei D. Pedro I
Portuguese BooksWhale Edition by Fernão Lopes
Fernão Lopes narra o reinado de D. Pedro I, articulando justiça régia, relações com Castela e a memória de Inês de Castro.
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Crónica de el-rei D. Pedro I
A crónica acompanha decisões, conflitos e episódios do reinado de D. Pedro I de Portugal. O exercício da justiça, as relações políticas e familiares e os acontecimentos ligados a Inês de Castro compõem um retrato do monarca. O prólogo e os quarenta e quatro capítulos preservam a organização histórica e a linguagem da tradição cronística portuguesa.
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Fernão Lopes morreu em 1459. Esta edição utiliza o texto original português publicado antes de 1931 e exclui notas editoriais posteriores, imagens e publicidade da edição de origem.
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Crónica de el-rei D. Pedro I
Preview chapterPROLOGOPreview
Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, sómente d'aquella para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, n'este prologo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por propria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve mólho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. Á uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a historia; á outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prologo já tangida.
E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira.
Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vicios e virtudes.
Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que elle puzer, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios sejam inclinados.
A razão por que esta virtude é necessaria nos subditos, é por cumprirem as leis do principe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem taes leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em socego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode supportar muito tempo, porque, como a alma supporta o corpo e partindo-se d'elle, o corpo se perde, assim a justiça supporta os reinos e partindo-se d'elles perecem de todo.
Ora, se a virtude da justiça é necessaria ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se ha de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a ha de encaminhar, porque a lei é principe sem alma, como dissemos, e o principe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excellencia sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê ás leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-hia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de vêr. Pois duvidar se o rei ha de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra ha de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ella fazer.
Outra razão por que a justiça é muito necessaria ao rei, assim é porque a justiça não tão sómente aformoseia os reis de virtude corporal, mas ainda espiritual, pois quanto a formosura do espirito tem avantagem da do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessaria que outra formosura.
Preview chapterCAPITULO IPreview
Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e das condições que n'elle havia.
Morto el-rei D. Affonso, como haveis ouvido, reinou seu filho, o infante Dom Pedro, havendo então de sua idade trinta e sete annos e um mez e dezoito dias. E porque dos filhos que houve, e de quem, e por que guisa, já compridamente havemos falado, não cumpre aqui arrazoar outra vez; mas das manhas, e condições, e estados de cada um, diremos adiante, muito brevemente, onde convier falar de seus feitos.
Este rei Dom Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador e monteiro, em sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de caçadores e moços de monte e de aves, e cães, de todas maneiras que para taes jogos eram pertencentes.
Elle era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas salas eram de praça em todos logares por onde andava, fartas de vianda, em grande abastança.
Elle foi grande criador de fidalgos de linhagem, porque n'aquelle tempo não se costumava ser vassalo, se não filho e neto ou bisneto de fidalgo de linhagem; e por usança haviam então a quantia que ora chamam maravidis, dar-se no berço, logo que o filho do fidalgo nascia, e a outro nenhum não.
Este rei accrescentou muito nas quantias dos fidalgos, depois da morte de el-rei seu padre, cá não embargando que el-rei D. Affonso fosse comprido de ardimento e muitas bondades, tachavam-no, porém, de ser escasso, e apertamento de grandeza. E el-rei Dom Pedro era em dar mui ledo, em tanto, que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta, que então usavam não mui apertada, porque se lhe alargasse o corpo por mais espaçosamente poder dar; dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido por rei.
Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê, e tal ordenança tinha n'isto, que nenhum era detido em sua casa por cousa que lhe requeresse.
Amava muito de fazer justiça com direito. E assim como quem faz correição, andava pelo reino, e visitada uma parte não lhe esquecia de ir vêr a outra, em guisa que poucas vezes acabava um mez em cada logar de estada.
Foi muito mantenedor de suas leis e grande executor das sentenças julgadas, e trabalhava-se quanto, podia das gentes não serem gastadas por azo de demandas e prolongados pleitos.
E se a Escriptura affirma que, por o rei não fazer justiça, vem as tempestades e tribulações sobre o povo, não se póde assim dizer d'este, cá não achamos, em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte de alguma pessoa, nem que a merecesse por outra guisa, nem lh'a mudasse em tal pena por que pudesse escapar a vida.
A toda gente era galardoador dos serviços que lhe fizessem, e não sómente dos que faziam a elle, mas dos que haviam feitos a seu padre, e nunca colheu a nenhum cousa que lhe seu padre desse, mas mantinha-a e accrescentava n'ella.
Este rei não quiz casar: depois da morte de Dona Ignez, em sendo infante, nem depois que reinou, lhe prove receber mulher; mas houve amigas com que dormiu, e de nenhuma houve filhos, salvo de uma dona, natural de Galliza, que chamaram Dona Thereza, que pariu um filho que houve nome Dom João, que foi mestre de Aviz em Portugal e depois rei, como adiante ouvireis, o qual nasceu em Lisboa onze dias do mez de abril, ás tres horas depois do meio dia, no primeiro anno do seu reinado. E mandou o el-rei criar, em quanto foi pequeno, a Lourenço Martins da Praça, um dos honrados cidadãos d'essa cidade, que morava junto com a igreja cathedral onde chamam a praça dos Canos, e depois o deu, que o criasse, a Dom Nuno Freire de Andrade, mestre da Cavallaria da ordem de Christo.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02PROLOGO
- 03CAPITULO I
- 04CAPITULO II
- 05CAPITULO III
- 06CAPITULO IV
- 07CAPITULO V
- 08CAPITULO VI
- 09CAPITULO VII
- 10CAPITULO VIII
- 11CAPITULO IX
- 12CAPITULO X
- 13CAPITULO XI
- 14CAPITULO XII
- 15CAPITULO XIII
- 16CAPITULO XIV
- 17CAPITULO XV
- 18CAPITULO XVI
- 19CAPITULO XVII
- 20CAPITULO XVIII
- 21CAPITULO XIX
- 22CAPITULO XX
- 23CAPITULO XXI
- 24CAPITULO XXII
- 25CAPITULO XXIII
- 26CAPITULO XXIV
- 27CAPITULO XXV
- 28CAPITULO XXVI
- 29CAPITULO XXVII
- 30CAPITULO XXVIII
- 31CAPITULO XXIX
- 32CAPITULO XXX
- 33CAPITULO XXXI
- 34CAPITULO XXXII
- 35CAPITULO XXXIII
- 36CAPITULO XXXIV
- 37CAPITULO XXXV
- 38CAPITULO XXXVI
- 39CAPITULO XXXVII
- 40CAPITULO XXXVIII
- 41CAPITULO XXXIX
- 42CAPITULO XL
- 43CAPITULO XLI
- 44CAPITULO XLII
- 45CAPITULO XLIII
- 46CAPITULO XLIV
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