
Portuguese Edition
Literature
Dentro da noite
Portuguese BooksWhale Edition by João do Rio
Contos de desejo, obsessão, vida noturna, decadência e inquietação psicológica.
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Book introduction
Dentro da noite
Dentro da noite reúne narrativas sombrias de João do Rio, explorando noite, sensualidade, doença moral e limites da experiência moderna. Esta edição é voltada a leitores de contos brasileiros, decadentismo e ficção psicológica.
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João do Rio died in 1921, and Dentro da noite was first published in 1910. These dates support the public-domain basis for this original Portuguese edition.
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Dentro da noite
João do Rio
Preservai-nos, Senhor,
das coisas
terríficas que
andam à noite
Rei Davi
Preview chapterA FELIX PACHECOPreview
Cordíalmente
-Então causou sensação?
-Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde,
não? Ela, coitadita! parecia louca por ti, e os pais estavam radiantes
de alegria. De repente, súbita transformação. Tu
desapareces, a família fecha os salões como se estivesse de luto
pesado. Clotilde chora... Evidentemente havia um mistério, uma dessas
coisas capazes de fazer os espíritos imaginosos arquitetarem dramas
horrendos. Por felicidade, o juizo geral é contra o teu
procedimento.
-Contra mim?
Podia ser contra a pureza da Clotilde. Graças aos deuses,
porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria com o Prates que te
chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo, agora, onze da
noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio, com o
ar desvairado...
-Eu tenho o ar desvairado?
-Absolutamente desvairado.
-Vê-se?
-É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta
lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com
um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que
choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queiroz, o mais
elegante artista desta terra, nem trem de subúrbio, às onze de
uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas
suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso?
O trem rasgara a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre
os trilhos. Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do
vagão viam-se, a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas,
os silvedos empapados d'água e a chuva lastimável a tecer o seu
infindável véu de lágrimas. Percebi então que o
sujeito gordo da banqueta próxima -o que falava mais- dizia para o
outro:
-Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente?
O outro sorriu desanimado.
-Não; estou nervoso, estou com a maldita crise. E como o
gordo esperasse:
-Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a
família de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de
assustada piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame
desgraçado.
-Mas que é isto, Rodolfo?
-Que é isto! E' o fim, meu bom amigo, é o meu fim.
Não ha quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua
brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto,
resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o
vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente,
apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne Dambreuil quando se
picava com morfina? Lembras-te do João Guedes quando nos convidava para
as
fumeries
1
1
de ópio?
Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir. Eu quero
resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente
doido.
-Tomas morfina, agora? Foi o desgosto decerto...
O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão.
Não havia ninguém mais -a não ser eu, e eu dormia
profundamente... Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa
ânsia de explicações.
-Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de
bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de
bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das
Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que
braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e
comovedora, meio infantil, meio mulher -a beleza dos braços das
Oréadas
2
2
pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de
alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um
estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para
os meus olhos, de beija-los, de acaricia-los, mas principalmente de faze-los
Preview chapter-APreview
Bleu
? Ah! Essa não conheço.
Parou, fitou um instante a parede fronteira, correu a mão pelo
teclado:
-Vou tocar um dos meus sucessos.
Eu olhava-o como se olha um monstro, um trambolho que é
preciso destruir e ele estatelava nas sete oitavas uma espécie de
belchior melódico, tendo tudo, desde o
Seu soldado não me prenda
até os
compassos do tempo em que o Furtado Coelho
intitulava
as valsas de homenagens e as meninas
dançavam a
Flor de neve
, a
Flor de baile
, a
Feíticeirinha
e a
Varsoviana
.
Eu nunca vira coisa tão assustadoramente horrenda. Era como
se, de súbito, saltasse ao salão uma velha horrível,
remexendo molemente as pernas bambas. A mixórdia espoucava como um
rebate devastador. Os tais sons dançantes eram impossíveis de
dançar. Por mais desejos, por mais esforços que fizessem os
dançarinos hábeis no «boston» e nas
«americanas», eram incapazes de fazer duas voltas sem errar, sem se
encontrarem, sem desanimar. Dançar com aquela música tornava-se
um tormento superior para os mais alegres. E ele, feliz, com o
cavaignac
pendente, num gozo infinito,
corria os dedos, evocando recordações, o Prates de outrora, que
dirigia os salões, o Prates querido, o Prates animado no
turbilhão das valsas, enquanto cada um de nós sentia o acostar de
um espectro, o esmagamento com o dia de ontem, uma impressão de bolor,
de umidade, de ridículo...
No salão o gás silvava só, e as janelas abriam
num largo bocejo para a escuridão da noite. O pianista chegava ao fim em
dificuldades, de mãos cruzadas no teclado, empinando o
cavaignac
, glorioso, ébrio de
satisfação. De repente, parou, olhou para todos os lados, sem
ver, limpou o suor das fontes, abriu a boca num sorriso alvar.
Não havia ninguém.
Já muita vez, com certeza, lhe acontecera aquilo, na sua
peregrinação melancólica.
Prates ergueu-se pálido, tão pálido que eu
pensei vê-lo cair com uma vertigem; pegou do chapéu, apertou o
lenço na boca barbuda, como afogando um soluço e saiu
vagarosamente. Dentro batiam os cristas da ceia...
Foi esta a única vez que eu tive a sensação do
passado.
Aventura de hotel
Naquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade
heteróclita mas toda bem colocada. O proprietário orgulhava-se de
ter o senador Gomes com as suas sobrecasacas imundas, o ex-vice-presidente da
ex-missão do México, a primeira ex-grande atriz de revista, com o
seu cachorro, mme de Santarém, divorciada pela quarta vez em diversas
religiões, o barão de Somerino do Instituto Histórico, um
negociante tuberculoso chegado das altitudes suíças com o fardo
enorme da esposa, o engenheiro Pereira mais a mulher, mais sete filhos, mais a
criada, a notável trágica Zulmira Simões em
conclusão da sua última peregrinação provincial em
companhia do elegante Raimundo de Souza, duas senhoras entre viúvas,
solteiras ou estritamente casadas, enfim, todo um mundo variado, mas que pagava
bem. De resto, o proprietário, como assegurava a ex-estrela de revista,
correspondia, isto é, servia com cuidado. Havia eletricidade em todos os
quartos, um aparelho de duchas no terraço de cima e um cozinheiro
chinês.
Ao almoço era curioso ver toda aquela gente na sala de
baixo, ornada de palmeiras e de flores comuns, entre os metais polidos das
guarnições das mesas. A sala era baixa, com uma luz baça
de recanto submarino. Parecia um aquário. A mim pelo menos. As atrizes
tomavam ares graves de peixes evoluindo cerimoniosamente no fundo d'água
para cumprimentar as damas sem palco; os homens eram reservadíssimos.
Tudo aquilo mastigava calado, cada um na sua mesa, batendo o talher. Só
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02A FELIX PACHECO
- 03-A
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