
Portuguese Edition
Literature
Echos de Pariz
Portuguese BooksWhale Edition by Eça de Queirós
Eça de Queirós observa Paris, Londres, a imprensa, a política e os espetáculos públicos em dezoito crónicas de ironia incisiva.
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Book introduction
Echos de Pariz
As crónicas de Echos de Pariz percorrem acontecimentos políticos e culturais, duelos, entrevistas, salões de arte, atentados e cerimónias públicas. Eça confronta a aparência dos acontecimentos com os interesses e as convenções que os sustentam. Das comparações entre Paris e Londres aos funerais de Carnot, o livro combina comentário jornalístico, observação social e uma atenção persistente às formas da vida moderna.
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Eça de Queirós morreu em 1900. Esta edição utiliza o texto original português publicado antes de 1931 e exclui notas editoriais posteriores, imagens e publicidade da edição de origem.
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Echos de Pariz
Preview chapterI. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.Preview
Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco regato que vae cantando por entre as relvas altas.
Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta opinião do romanesco auctor de Tancredo e da Guerra do Afganistan: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as creações da Arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés—e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais episodica,—em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...
...Em Roma contempla os ornamentos do passado—o Colyseu e o Papa; em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que palpita ao centro.
Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma paizagem accessoria—a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza exuberante;—mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias sensações.
O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o melhor espectaculo para o homem—será sempre o proprio homem.
Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o valle—a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito, d'um coração vivo.
Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.
Preview chapterII. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.Preview
Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.
Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo—um considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem importancia—corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de Bolonha.
Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletot.
Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e dandies é abundantemente deteriorada.
Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do Voltaire, com o conde de Dion; duello de Fronsac, do Gil Blas, com o principe de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do Mot d'Ordre; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e o cotovello!
Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».
Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, as phrases celebres do mestre:—Deus é o mal! A propriedade é o roubo! Queremos a liquidação social!
A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho perfido, contendo esta abominavel sextilha:
A loira e dôce Maria Que a ninguem d'amores maltrata, Foi avisada outro dia Que Paulo a vem visitar, E eil-a que rompe a gritar: —Depressa! fechem a prata!
Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr. Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um cheiro adocicado de sachristia—que saboreava tambem os seus grogs no café e dirigia um jornal jesuita, A Palavra. A sextilha tomava, assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.
D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de pistola alta. Fogo! A bala do homem da Palavra vae cravar-se na anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito franziu consideravelmente o sobr'olho.
Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:
—Então, o duello? Houve morte de homem?
—Não,—respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.—Houve morte de jumento.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.
- 03II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.
- 04III. O IMPERADOR GUILHERME.
- 05IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.
- 06V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.
- 07VI. A FRANÇA E O SIÃO.
- 08VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.
- 09VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.
- 10IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.
- 11X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS DO BRASIL.
- 12XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.
- 13XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.
- 14XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.
- 15XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.
- 16XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.
- 17XVI. O «SALON».
- 18XVII. CARNOT.
- 19XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.
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