
Portuguese Edition
Literature
Estrellas Propícias
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco entrelaça amor, herança, legitimidade familiar e distinção social numa narrativa marcada por reviravoltas e ironia.
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Book introduction
Estrellas Propícias
Entre casas antigas do Minho e relações familiares atravessadas por interesses materiais, Estrellas Propícias acompanha personagens que procuram reconhecimento, segurança e felicidade. Questões de filiação e património interferem nas promessas amorosas e nos julgamentos morais. Camilo desenvolve os conflitos com diálogos vivos, mudanças de perspetiva e comentários do narrador, conduzindo a história até à conclusão e ao epílogo.
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Camilo Castelo Branco morreu em 1890. Esta edição utiliza o texto original português publicado antes de 1931 e exclui notas editoriais posteriores, imagens e publicidade da edição de origem.
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Estrellas Propícias
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Navegando contra a corrente do Lima--o rio das saudades e dos pavores da mythologia--vereis, a meia legua distante de Vianna, na margem direita, uma casa apalaçada, em parte cantaria que os seculos denegriram, em parte edificação moderna, caiada, tingida, variegada, coisa sem graça, sem poesia, que toda lhe tira a magestosa e veneranda avó, alli á beira, com o seu toucado de ameias e collares de embrincadas laçarias.
Da margem do rio ao edificio conduz uma vereda relvosa ladeada de alamos, cilindras, hidranjas, e outras arvores e arbustos, que ensombram a convidativa álea. Lá no tôpo entrevêdes um chafariz, rodeado de bancos de pedra, e abobadado por um pavilhão de chorões, cujos troncos a mão do tempo torneou e retorceu em caprichosos feitios.
Se mandaes parar o barquinho diante d'esse obscuro alcáçar das esquecidas musas do idyllio, d'esse manancial dos gratos devaneios, ao abrir de uma manhan de agosto, ou ao entardecer de um dia da estação do outomno--a mais amavel do Minho--ahi ficareis como arrobados, sentindo sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, aspirando a enlevos que vos não parecem da terra, nem os sabereis dizer, se cuidaes que vos transportam ao ceo. O que vêdes, se sabeis copiar a natureza na tela, no verso, ou na prosa, podereis conseguir que nós tambem o vejamos em sombra; o sentir, porém, que semelhante espectaculo, a tal hora, vos suggere, sêde embora Raphael, Fénélon, ou Delille, que não lograreis verter em nossas almas a poesia das vossas. Folheai o livrinho, todo mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escripto alli n'aquellas margens; cuidareis vêr n'elle as harmonias que vos soam ao coração em descompassadas notas; e, melancolicamente, abrireis mão das maviosas poesias, que dizem menos que o susurro da veia limpida na fluctuante frança do salgueiro, ou o regorgeio do rouxinol, que vos fugiu da margem, para de longe vos estar conversando com o espirito alheado. Nos versos e nas poeticas prosas do mais canoro bardo do Minho, se vos deparam relanços de delicado sentimento, doçuras campezinas, que todas recendem os aromas d'aquelles relvados e arvoredos. No mavioso romance d'outro cantor e prosador sentimental do jardim d'esta formosa terra, lá inspirado, lá haurido no mel de tantas colmeias, nem ahi achaes senão o bosquejo das visões que adentraram vosso animo, e de vós se apartam, mal vos embaralhaes com homens vascolejados em negocios da vida real. Não ha coração que sostenha em si poesia, quando cuidados o empegam no commum esterquilinio, onde todos, uns mais que outros, nos rebalçamos, embora á luz do sol das praças, e á luz das serpentinas das salas, as immundicias brilhem como ouro, ou alvejem como arminhos.
Não ha, pois, dizer o que sente cada um, ao abrir da manhan, ou descahir da tarde, se alli parou e contemplou do seu barquinho a avenida arborisada, o repuxo com seu docel de ramagem, e as cornijas denticuladas da vetusta metade do edificio.
Se por lá derivasseis, ao fim de uma tarde de agosto de 1844, e o rumorejo da corrente vos não houvesse entorpecido a vida exterior, verieis, ao cimo da avenida, n'um dos bancos circumpostos á fonte, uma senhora reclinada com o descuido de quem se crê sósinha, sobre um respaldo de massiço, que brandamente se amollentava, para, a prazer da solitaria scismadora, se lhe modular ás fórmas gentis.
A seu lado estava uma carta de muitas paginas, sobre a qual ella assentava a mão descahida em langoroso quebranto. O que certamente não verieis eram as lagrimas, que humedeciam a carta, e outras que desciam nas faces, e paravam aos cantos dos labios, como se ahi esperassem que um sorriso de esperança outra vez as embebesse no coração.
Preview chapterII.Preview
O romancista de mais perluxo gosto em nomes de personagens de novella, se os procurar nos climas temperados, ahi os acha mais lindos, mais a molde da strophe, do poema e do romance sentimental. Os nomes de mais musica, e mais amoraveis, são os das mulheres gregas, se todos soam como os das heroinas de Byron, de Hugo, e dos poetas affeiçoados ás coisas orientaes.
Desisto de ir á Grecia baptisar as minhas personagens femininas. Escrevo de Portugal, onde ha nomes de mulheres a competirem de belleza com suas donas; e, mais que em outra provincia, no coração de todas, no Minho,--que bem podéra ser a flor da Europa--ahi, na familia de solar, e na familia da choça, ha peregrinos nomes, que mais parecem ensinados pela melopeia das aereas musicas, ou dos mui suaves murmurinhos das florestas, dos rios, das aves e dos insectos.
Corinna da Soledade era o nome da visão, que o meu leitor pudera ver n'uma tarde de agosto de 1844.
Em outra qualquer tarde poderiamos ver, não uma, mas um rancho de cinco meninas, a competirem de formosura, todas trajadas de branco, soltos os cabellos, ou ennastrados de flores, com que se andavam dando invejas ás outras. Eram as cinco irmans d'aquelle ditoso ermo; as cinco Evas d'aquelle terreal paraizo, por onde não rastejavam serpentes, estas serpentes de casaca e luva branca, que são o proprio demonio civilisado pelo alfaiate, e amoldado a estes tempos illustrados em que nenhuma Eva de certo se deixaria embair por cobras, propriamente ditas.
Tinha então vinte annos Corinna da Soledade.
Sou avesso a descripções: muitas vezes o tenho dito. Sahem-me todas muito pallidas e infieis por causa do esforço que faço a dar relevo aos traços. Profusamente se dispendem os romancistas em mineralogia e botanica para colherem o effeito das comparações. Flores e pedraria, a alvura do lyrio, o escarlate do carmim, o niveo jaspe, o rubido coral, a lustrosa pretidão do azeviche, a ágata para a cutis das mãos, a petala de rosa para a das faces, o branco avelludado da magnolia para o collo, o marfim para os dentes... que sei eu!
Corinna da Soledade era de estatura mais que mean, refeita, robusta na apparencia, mimosa de pelle, mas não alvissima; olhos mais singulares pela brandura que pelo tamanho, reluzentes como chammas, ou amortecidos como a luz tibia da lua empanada por transparente nuvem--alternativas instantaneas, que denotavam as rapidas mutações da alma--; arcadas negras e sedosas, travadas na base da escampada fronte--rara belleza em mulher, n'aquellas mesmas, que se chamam Sapho, Staël, ou Sand--, breve boca de finissimos labios, subtilmente assombrados d'um buço, imperceptivel a curta distancia, mas de bello effeito na approximação.
Tanto esta, como as outras quatro filhas de Gastão de Noronha, tinham sido educadas em França, para onde os paes emigraram em 1829. O fidalgo do Minho homisiara-se, sem conscienciosamente poder dizer que era menos realista que seus avós; porém, odios velhos de covardes inimigos o haviam denunciado á alçada, e o prudente sujeito antes quiz confirmar a denuncia com a fuga, que provar d'entre ferros sua innocencia.
Em 1833 recolheu a numerosa familia á patria. As meninas vinham esmeradamente educadas em collegio de Paris, e saudosas dos comêços de vida alegre que ainda experimentaram na capital do mundo. A transição de Paris para as margens do Lima, as noites fugitivas dos bailes comparadas com o silencio do palacio velho, em parte ruinas, e rodeado de arvoredos e murmurios melancolicos, parece que ao mesmo tempo enluctaram o animo das cinco meninas, que se contemplavam umas ás outras, como se as lançassem nas praias ermas d'Africa.
Gastara, nos cinco annos de emigração, o jactancioso Noronha, como gastam em Paris os homens opulentos ou perdularios. Bem que a sua casa, toda em propriedade rustica, fosse grandemente rendosa, e bastasse a dar-lhe fama e brilho de rico na sua provincia, os redditos d'ella escassamente dariam a um parisiense com que sustentar dez pessoas de familia em recatada decencia. Gastão, recolhendo á patria, rareou a pouco e pouco as nuvens da poeira olympica de Paris, que lhe empanavam os olhos, e viu todos os seus haveres ameaçados, se não já feridos de proxima ruina. Os caseiros e administradores tinham esbanjado e desbaratado á porfia com elle; porém, tão engenhosamente o fizeram, que o fidalgo achou-os a elles proprietarios, e legitimos possessores das quintas que, por ordem do amo homisiado, tinham vendido.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02I.
- 03II.
- 04III.
- 05IV.
- 06V.
- 07VI.
- 08VII.
- 09VIII.
- 10IX.
- 11X.
- 12XI.
- 13XII.
- 14XIII.
- 15XIV.
- 16XV.
- 17XVI.
- 18XVII.
- 19XVIII.
- 20XIX.
- 21XX.
- 22CONCLUSÃO.
- 23EPILOGO.
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