Portuguese Edition
Literature
Húmus
Portuguese BooksWhale Edition by Raul Brandão
Uma vila parada revela morte, sonho, miséria, revolta interior e inquietação metafísica.
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Book introduction
Húmus
Húmus mistura diário, romance, visão social e meditação filosófica numa vila onde vidas pequenas escondem medo, desejo, morte e sonho. Raul Brandão cria uma das obras mais singulares da literatura portuguesa moderna, atravessada por pobreza, absurdo, compaixão e pergunta espiritual.
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Raul Brandão morreu em 1930 e Húmus foi publicado em 1917. Essas datas sustentam o domínio público do texto original em português usado nesta edição.
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Húmus
Raul Brandão
*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Maio 2012)
Reservados todos os direitos de reproducção nos paizes que adheriram á Convenção de Berne; Brasil: Lei n.^o 2577 de 17 de Janeiro de 1912; Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911.
HUMUS
DO AUTOR
EDIÇÕES DA RENASCENÇA PORTUGUESA
O Cerco do Porto, contado por uma testemunha, o Coronel Owen--Prefacio e notas (2.^a ed.).
1817--A Conspiração de Gomes Freire (3.^a ed.).
El-Rei Junot (2.^a ed.).
Memorias, 1.^o vol. (2.^a ed.).
Humus (2.^a ed.).
RAUL BRANDÃO
O que tu vês é bello; mais bello o que suspeitas; e o que ignoras muito mais bello ainda.
D'um autor desconhecido.
2.^a EDIÇÃO
EDITORES Renascença Portuguesa--Porto ANNUARIO DO BRASIL--RIO DE JANEIRO
AO MESTRE COLUMBANO
A VILLA
13 de novembro
Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...
Uma villa encardida--ruas desertas--pateos de lages soerguidas pelo unico esforço da erva--o castelo--restos intactos de muralha que não teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre--a porta da Sé com os santos nos seus nichos--a praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um jardim abandonado--inverno e folhas seccas--entre buxos do tamanho d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puira-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem á pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dôr que a ninharia e o habito não deixam vir á superficie. Afigura-se-me que estes sêres estão encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.
Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que roe há seculos na madeira e nas almas.
15 de novembro
As paixões dormem, o riso postiço creou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o tempo ilimitado para roer. Há aqui odios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia é infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia a lei da vida; é a insignificancia que governa a villa. É a paciencia, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde:--Tem paciencia--e os seus dedos ageis tecem uma teia de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.--Tem paciencia--e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia... paciencia... Já a mentira é d'outra casta, faz-se de mil côres e toda a gente a acha agradavel.--Pois sim... pois sim... Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.
Preview chapterPart 2Preview
E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.
É então um mundo de formulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem elle não poderiamos existir. Se vissemos o que está por traz não podiamos existir. O nosso mundo não é real: vivemos n'um mundo como eu o comprehendo e o explico. Não temos outro. Estamos aqui como peixes n'um aquario. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até á cóva sem dar por ella. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a unica que podemos viver, como é a unica que defendemos com desespero.--Pois sim... pois sim...--Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que é unico e um só, damol-o como se fosse uma insignificancia. Mais fundo: não existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. Já não reparo, já vejo turvo.--Jogo!--E de repente todo o meu sêr é sacudido pelo espanto que tacteia á minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas sinto-o aqui ao meu lado--sem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem quero! Se me alheio um momento dou um grito de dôr. Escaldo-me.
Na verdade o que eu não posso é vêr, o que eu não quero é vêr! A villa regula-se por habitos e regras seculares--mas há outra coisa enorme para lá do scenario de que me rodeio. Para não ter medo criei eu isto, para a não vêr criou o Santo o inferno. Há outra coisa esfarrapada e dorida.--Jogo!--Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me parecem mais gastas. Há outro sêr que vae de pólo a pólo... Esta figura grotesca não é a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus nichos--roeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos inuteis para não desatar aos gritos.--Jogo!--Isto para fingir que é indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Está alli a morte--está aqui a vida--está aqui o espanto--e só a ninharia consegue deitar raizes profundas.
20 de novembro
Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céo, e na luz turva vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas chapeadas que rangem nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de pó sobrepostas. Lojas terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas, todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo uma figura por outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim, com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir os gestos, as cortezias, as acções do confim dos seculos. Isto é nada--é vulgar e quotidiano. É uma aparencia.
A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
Atraz desta villa há outra villa maior. A lentidão, o gesto usado, a meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu uma camada de pó. A villa é isto--e a villa não é isto. Que me importa a Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquíescencia, um sorriso, baba, mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha. As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sêr absorto, o exagero minusculo, teem outra significação. A realidade é a manha, a astucia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há orgulho, soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha na ponta dos pés. Há forças e experiencia, avareza e astucia. E mais fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam teem, além da significação banal, uma significação que cada um peza e calcula,--e outra significação superior. Há palavras que requerem uma pausa e silencio, e há palavras que é preciso afundar logo n'outras palavras. Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda a gente conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer esgares. Elle e o doido que só consegue comprimir á força de pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos--é outra. Tem tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se arrisca, há-de contar comsigo mesma para se contrariar. É uma discussão que não acaba, com a bocca amarga, arrependimento--e por fim não realisa uma catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas frias...
Preview chapterPart 3Preview
--Este efluvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de paixões. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes não me deixa comprehender, mas é raro que eu não saiba logo quem tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no mundo.--E logo:--A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é que dei com ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos sempre, amar-nos-hemos sempre...
A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias. Mais flôres--todos os galhos dão flôr. Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores, dos sêres vegetativos, ao terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.
--Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido a morte!
Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os primeiros botões. A arvore transforma-se n'um sêr dorido e esplendido--transforma-se em sonho--em sonho desfeito em flôr, em flores espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos espremidos escorrem dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas, e velhas pedras iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos, que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite concava e branca--gelada--cobre indiferentemente tudo isto. Que não cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco tambem a noção da realidade.
--Tanta flôr!
--Para a sua cóva.--E pondo em mim os olhos atonitos:--O que é preciso é ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade, juntar outra vez as boccas dispersas. Não morrer é nada: vou resuscital-os...
Imagina o negrume d'um poço--imagina dentro o espanto, e não sei que luz viva, não sei que dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer viver apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha. Escuridão e oiro--silencio e oiro--espanto e oiro.
--Vê tu a arvore... Uma camada de flôr--um grito; outra camada de flôr--outro grito. Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma d'arvore, e depois em emoção!...
Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar transborda--branco e dôr--branco e sonho. Depois o silencio, depois a sua voz magnetica--depois a sombra immensa que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho d'um lenço. Desato aos gritos quando todas as roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:
--Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os outros ao silencio. É uma coisa simples, é uma questão de synthese.
--A morte,--afirmo-lh'o--é o repouso eterno.
--Repouso eterno, estupido! É exactamente o que está vivo, a morte. É o que está mais vivo.
10 de dezembro
Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes. Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho grotesco?
De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez da luz--a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium, o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone--e sonho. Dezasete elementos, entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico--e dôr. Materia, espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa? Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade, d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os olhos turvos e teima, insiste, repete:
Table of contents
Inside this edition
- 01Part 1
- 02Part 2
- 03Part 3
- 04Part 4
- 05Part 5
- 06Part 6
- 07Part 7
- 08Part 8
- 09Part 9
- 10Part 10
- 11Part 11
- 12Part 12
- 13Part 13
- 14Part 14
- 15Part 15
- 16Part 16
- 17Part 17
- 18Part 18
- 19Part 19
- 20Part 20
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