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Infelizes : Historias Vividas cover

Portuguese Edition

Literature

Infelizes : Historias Vividas

Portuguese BooksWhale Edition by Ana de Castro Osório

Catorze histórias de Ana de Castro Osório observam vidas frágeis, afetos e desigualdades com atenção às mulheres e aos esquecidos.

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Book introduction

Infelizes : Historias Vividas

Ana de Castro Osório reúne catorze histórias de vidas atravessadas pela pobreza, pela perda, pelo amor e pelas convenções sociais. De Dezoito annos a Sombras, a memória e a observação aproximam o leitor de personagens frequentemente deixadas à margem. O prefácio pessoal estabelece a relação entre doença, recordação e desejo de narrar. Esta edição apresenta a coleção em português, preservando as histórias e a grafia do texto de origem.

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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

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Ana de Castro Osório morreu em 1935. A obra foi publicada em 1898. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público.

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Preview chapterPrefácioRead preview

Áquelles que no mundo estimo

Como n'essa noite uma febre intensa me tomasse, uma grande saudade, uma grande piedade, me invadiu o espirito, por todos os tristes, por todos os humildes—os infelizes da terra...

No principio da doença, quando o corpo começa de sentir o embate grosseiro do mal, que o vencerá; quando o frio nos arrepia a carne, n'um estremecer sangrento, n'um espicaçar de venenosas agulhas; vem-nos um profundo egoismo, um completo esquecimento dos outros. Na contemplação das nossas dôres, tudo mais desapparece sem nenhum valor.

Depois, a intensidade da febre espiritualisa-nos, a alma desliga-se do corpo extenuado e sóbe a mais alto. O proprio soffrimento se desdobra n'uma vaga e serena piedade por tudo o que existe, por todos os que choram...

Então, n'uma d'essas horas de sonho e de nitidas recordações, eu lembrei pobres almas inferiores, tristes desvairamentos em grandes espiritos, máguas inconfessadas—que a minha alma conheceu ou presente nos humildes, nos desprezados...

D'alguns me lembrei fallar; outros ficaram na piedosa tristeza da minha memoria—não porque as suas lagrimas me pareçam menos dignas de serem recolhidas, não porque sejam menos estimados, mas porque quasi nada poderia interessar aos outros a repetição d'essas singelas historias de vidas simples, monotonamente eguaes pelo soffrimento.

Phantasmas sympathicos ao meu espirito, elles vieram todos rodear o leito, onde, febril, o meu corpo fatigado cahia.

A minha cabeça dorida abysmava-se n'um confuso recordar de cousas passadas.

E elles vieram, um a um, mostrar as suas pobres figuras empallidecidas pela distancia ou pela morte, n'um desejo de serem evocados...

Setubal, maio de 96.

Preview chapterDEZOITO ANNOSPreview

A tia Clara, essa adoravel velhinha que fez ha dias cento e quatro annos, teve tambem os seus dezoito—e por signal encantadores de frescura e graça.

Mal podemos crêr isto, nós que a vemos hoje tão serena, tão identificada com a nossa vida, tão egual a nós pela lucidez do espirito, sempre d'uma intelligencia e d'um interesse perfeitamente juvenil.

Eu adoro essa querida velhinha que não se envolveu nas recordações e remordimentos egoistas como n'uma antipathica couraça eriçada d'espinhos.

Não! Ella recorda todo o passado, mas suavemente, sem comparações desfavoraveis para nós, como os velhos impertinentes costumam!... Relembra, levemente melancolica, os tempos longinquos da mocidade, tão distante aos nossos olhos, tão vivos ainda na sua memoria.

A sua alma é um piedoso Campo Santo habitado pela saudade de todos os seus amigos, de toda a sua familia mais proxima, que a um e um a foram deixando na velha casa senhorial, já em parte abandonada de grande que é!... mas o seu coração santissimo vae florindo sempre joven, amando com egual affecto todos os que de novo chegam á familia...

Ah! Eu não me esqueço, minha boa amiga, da saudade reconhecida que me ficou na alma quando, a ultima vez que a visitei, a vi affastar-se lentamente na meia obscuridade do longo corredor. Seguia-a um ligeiro esvoaçar de recordações, toadas simples vindas de muito longe—os francezes, guerras, mortes, nascimentos, toda a sua vida singela passada na hereditaria quinta perdida entre serras, onde os echos do mundo devem ter chegado sempre esbatidos em meias tintas pallidas.

Tenho ainda no meu ouvido o som inolvidavel da sua vózinha quebrada dizendo serena e sorridente: «assisti ás ultimas endoenças no convento de Maceira Dão!...» E tudo morto n'esse passado cheio de poesia, visto assim de longe, evocado pelo seu espirito bondoso!...

Mas a desvairada fuga aos francezes é que eu, mais do que tudo, gosto de lhe ouvir contar.

—Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda. O céo, todo em fogo no poente, flammejava n'um incendio colossal—toda a alma da Patria agonisante levantando para Deus a ultima esperança, no ultimo clarão de tiros ao longe.

«Os francezes, os francezes!...» Esse grito estridente como uivos de animaes apavorados corria de bocca em bocca, era um signal de fuga, de miseria, d'espanto geral.

O povo ignorante e bom voltava para o céo os punhos cerrados n'uma desesperada ameaça. Abandonado por todos na sua patria invadida, agarrava-se á terra como á sua unica defeza, o seu unico amôr, a unica razão d'existir.

As mães uivavam de dôr pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra. Outras estarreciam-se n'um silencio medroso...

Toda a alma portugueza fremia n'um anseio de liberdade.

Os reis fugiam despresivelmente covardes; os ricos ainda por vezes abriam os seus palacios em festa ao passeio triumphal dos invasores; só no povo era sem treguas o odio. Elle saberia resistir ou morrer! Miseravel povo que sacudiu n'um impeto de revolta olympica o jugo dos invasores e acurvou a cabeça humilde ás exigencias dos alliados! Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado nas horas más! Ingenuo povo que todos vão acordar em sobresalto quando o perigo bate á porta e de que todos se riem depois, quando não é já precisa a força do seu braço nem a furia da sua coragem!...

Tambem a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia dever estar esquecido, guardado pelos matagaes e serranias bravas, chegou o desvariado clamôr, o tremendo grito:

«Os francezes, os francezes!...» a pôr em fuga toda a familia da Clarinha—era assim chamada ha oitenta e seis annos a minha boa tia Clara.

Preview chapterTIO BARREIROSPreview

O tio Barreiros:—Óra os senhores vão imaginar talvez que eu tenho para lhes contar a historia d'algum tio illustre, muito respeitavel na sua gravidade de conselheiro... Ou ainda d'algum general com o peito cheio de condecorações, fartos bigodes brancos, respirando nobreza e altivez... Nada d'isso. Era um simples e humilde criado de lavoura, de cara rapada, com uns olhos d'um azul luminoso, o tio Antonio Barreiros.

Encantador o costume patriarchal de viverem as crianças com antigos criados, quasi da familia, que ellas se acostumam a amar sem o respeito que enfastia, mas tambem sem a desagradavel auctoridade sobre essas velhas cabeças embranquecidas, sempre inclinadas para os mais pequeninos, os ultimos...

Por isso, o tio Barreiros é uma das figuras mais sympathicas que na minha memoria sorri.

Para criado de lavoura entrou elle em casa, já velho; pouco podia, o pobresito! Muito corcovado, o fato de saragoça grosseira, o chapéo braguez um pau na mão—quasi nos pareceu um mendigo.

Mas não; tinha seus brios o tio Antonio. Trabalhava como um rapaz; rejuvenescia, coitado!

Um risonho ar philosophal dava-lhe á face uma certa finura aristocratica. E contava-nos:—«Que eu, meninos, dizem que sou filho do Deão de Decermillo. Mas que monta?... Fui pastor em rapazelho; depois entrei para criado dos fidalgos de S. Thiago e por lá estive até que me casei. Bons tempos, bons tempos!...»

—«E depois, tio Barreiros?»

Uma lagrima diluia-se no azul dos seus olhos finos.

—«Depois, depois... A mulher morreu para alli, negrinha das bexigas, que foi uma dôr d'alma!»

—...«A rapariga, essa... Já depois de grande, um dia morreu tambem, que nem eu sei de quê!... Agora, a minha familia são os meninos, cá esta casa. Isto é como se fosse meu, pela amizade que lhes criei...»

A nota melancolica da conversa desapparecia por completo do nosso espirito para só avultar aquella estranha palavra:—Deão!—Que seria aquillo?... Talvez uma coisa escarlate franjada a oiro, como os guiões, que levavam uns pobres homens derreados, na procissão do Corpo de Deus!

E o velho Barreiros, com tal probabilidade de pae, avultava aos nossos olhos prodigiosamente, tornava-se quasi divino, n'um hieratico esplendor de festa religiosa.

Por fim, o pobre velho já não se atrevia a sahir ás propriedades de fóra—honestamente pediu que lhe baixassem a soldada, que elle ficava só para tratar da horta. E ás tardes, n'aquelles poentes tristissimos das regiões montanhosas, nós passeavamos sob a parreira da horta: elle de sacho na mão, parando de quando em quando a apanhar uma folha velha das enormes couves, que só elle fazia crescer espantosamente. Nunca mais vi couves assim! Talvez por ser eu muito pequena, tudo me parecesse grande; talvez porque o tio Barreiros tivesse receita especial para as fazer crescer!...—«Que isto, meninos, as criadas não devem pôr mão na horta. Uma desgraça, decepam tudo, uma estragação!»

Claro; nós eramos sempre pelo velho contra ellas.

—«Lá em casa dos fidalgos, havia couves ainda mais altas do que estas!...»—

—«Mais altas, tio Barreiros?!...»

Que grande coisa ser fidalgo!—pensava. Até a horta se resentia de tamanha altura heraldica!

Ah tio Barreiros, tio Barreiros, que loucuras risonhas nos mettia na cabeça a vossa bastardia fidalga! Que saudades, meu amigo!...

Uma vez—ha quanto tempo isso vae!—mal começava a aprender a ler, por premio assignaram-me um jornal, que devia vir directamente para mim.

Esperava n'uma febre a chegada do carteiro; e nada do jornal apparecer, para o meu nome, como eu sonhava noite e dia!... Desabafava com o tio Antonio, aquillo parecia-nos historia...—«Mas o papá pagou isso, menina?»

—«Pagou, tio Antonio, para vir para o meu nome.»

—«Pois olhe que foi no que elle andou mal. Nunca fiar!...»

E lá esperavamos, consternados, mais vinte e quatro horas. Mas um dia soube-se:—o jornal tinha vindo logo, mas, como eu tivesse n'uma terra proxima uma tia com o mesmo nome, os empregados do correio vá de lh'o remetterem. Eu, muito queixosa, fui ter com o Barreiros ao quintal. Elle indignou-se:

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Prefácio
  2. 02DEZOITO ANNOS
  3. 03TIO BARREIROS
  4. 04SOLTEIRÃO
  5. 05HAMLET
  6. 06A SENHORA ANGELICA
  7. 07ALGARVE
  8. 08CÚMULO
  9. 09A AMA
  10. 10ENTARDECER
  11. 11BRETAN
  12. 12VICTORIA
  13. 13A TERRA
  14. 14FREIRAS
  15. 15SOMBRAS

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