Portuguese Edition
Literature
Inocência
Portuguese BooksWhale Edition by Visconde de Taunay
Taunay combina sertão, amor impossível, viagem científica e costumes regionais em um romance brasileiro clássico.
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Book introduction
Inocência
Inocência situa uma história delicada de amor e promessa no interior brasileiro, entre autoridade familiar, medicina popular e paisagem sertaneja. Visconde de Taunay une observação regional, lirismo e tensão trágica em prosa de grande clareza.
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Visconde de Taunay morreu em 1899; a obra foi publicada ou compilada por volta de 1872. Esses dados sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.
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Inocência
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O SERTÃO E O SERTANEJO
Todos vós bem sentis a acção secreta Da natureza em seu governo eterno; E de infimas camadas subterraneas Da vida o indicio á superficie emerge.
GOETHE.--_Fausto_, 2.ª parte.
Então com passo tranquillo mettia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o dominio; asylo em que pudesse crêr ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpôr-se entre mim e a natureza.
J. J. ROUSSEAU.--_O encanto da solidão._
Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Santa Anna do Paranahyba vae ter ao sitio abandonado de Camapoan. Desde aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo em que confinam os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Matto-Grosso até ao rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se commodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas ás outras; raream, porém, depois as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao _retiro_ de João Pereira, guarda avançada daquellas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados páramos, offerece-lhe momentaneo agazalho e o provê da matolotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiry, ou da Vaccaria e Nioac, no Baixo Paraguay.
Alli começa o sertão chamado _bruto_.
Pousos succedem a pousos, e nenhum tecto habitado ou em ruinas, nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está cahindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como quando ahi surgio pela vez primeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se á maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de todo aquelle solo, fertilisado aliás por um sem numero de limpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributarios do claro e fundo Paraná ou, na contravertente do correntoso Paraguay.
Essa areia solta e um tanto grossa tem côr uniforme que reverbera com intensidade os raios do sol, quando nella batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animaes das _tropas_ viajeiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquelle terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canella.
Frequentes são tambem os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam, na matta adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paizagens em torno.
Ora é a perspectiva dos _cerrados_, não desses cerrados de arbustos rachiticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas-Geraes, mas de garbosas e elevadas arvores que, se bem não tomem todas o corpo de que são capazes á beira das aguas correntes ou regados pela lympha dos corregos, comtudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que os alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa gramma, toda salpicada de sylvestres flores; ora successões de luxuriantes capões, tão regulares e symetricos em sua disposição que surprehendem e embellezam os olhos; ora, emfim charnecas meio apaúladas, meio seccas, onde nasce o altivo bority e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso.
Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e resiccado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incendio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, atêa com uma faulha do seu isqueiro.
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Taes são os campos que as chuvas não vêm regar.
Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe se avistam nas encostas das collinas e baixuras, ao redor de alguma nascente orlada de pindahybas e boritys?!
Com que alegria não saúda os formosos coqueiraes, nuncios, da lympha que lhe hade estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!
Enfileiram-se ás vezes as palmeiras com singular regularidade na altura e conformação; mas não raro amontoam-se em compactos massiços, dos quaes se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raizes qualquer tenue fio d’agua, que collea falto de forças e quasi a sumir-se na ávida areia.
Desde longe dão na vista esses capões.
É a principio um ponto negro, depois uma cupola de verdura, afinal, mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros lassos do viajante exhausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e sua garganta abrasada.
Então com sofreguidão natural acolhe-se elle ao sombreado retiro, onde prestes desarreia a cavalgadura, á qual dá liberdade para ir pastar, entregando-se sem demora ao somno reparador que lhe trará novo alento para proseguir na cansativa jornada.
Ao homem do sertão afiguram-se taes momentos incomparaveis, acima de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de ambições.
Satisfeita a sede que lhe seccara as fauces, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos brancos das pindahybas, a copa dos ipês e as palmas dos boritys a ciciar a modo de harpas eólias, musicas sem conta com o perpassar da brisa.
Como são bellas aquellas palmeiras!
O estipite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de peciolos longos e canulados, em que assentão flabellas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexiveis e tremulantes.
Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo bico das araras.
Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras em distancia, tem o nome de _araraúnas_. Alli ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha á outra.
Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preoccupação, adormece com serenidade.
Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as flabelladas palmas.
É a tarde que chega.
Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de prompto ensilha e cavalga.
Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.
Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02CAPITULO I
- 03II
- 04III
- 05CAPITULO II
- 06CAPITULO III
- 07CAPITULO IV
- 08CAPITULO V
- 09CAPITULO VI
- 10CAPITULO VII
- 11CAPITULO VIII
- 12CAPITULO IX
- 13CAPITULO X
- 14CAPITULO XI
- 15CAPITULO XII
- 16CAPITULO XIII
- 17CAPITULO XIV
- 18CAPITULO XV
- 19CAPITULO XVI
- 20livre! Nem olhar é bom.
- 21CAPITULO XVII
- 22CAPITULO XVIII
- 23CAPITULO XIX
- 24CAPITULO XX
- 25CAPITULO XXI
- 26CAPITULO XXII
- 27CAPITULO XXIII
- 28CAPITULO XXIV
- 29CAPITULO XXV
- 30CAPITULO XXVI
- 31CAPITULO XXXVII
- 32CAPITULO XXVIII
- 33CAPITULO XXIX
- 34CAPITULO XXX
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