
Portuguese Edition
Literature
Lendas do sul
Portuguese BooksWhale Edition by João Simões Lopes Neto
Três lendas do sul brasileiro recriam assombrações, encantamentos e promessas com a voz narrativa de João Simões Lopes Neto.
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Book introduction
Lendas do sul
A M’boi-Tátá, A Salamanca do Jarau e O Negrinho do Pastoreio formam o núcleo desta recriação literária das tradições do sul brasileiro. João Simões Lopes Neto aproxima a oralidade gaúcha de histórias de encantamento, sofrimento e esperança. A nota inicial apresenta os cruzamentos culturais dessas narrativas, e os argumentos finais evocam outras lendas. O texto português conserva o vocabulário e o movimento da narração do autor.
BooksWhale edition
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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
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João Simões Lopes Neto morreu em 1916. A obra foi publicada em 1913. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público.
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Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do Sul foi espanhol; seu poder e influencia estenderam-se até depois da conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio-grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.
Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição guaranítica (v. g. a lenda da M’boi-tátá) a mescla cristã-árabe de abusões e misticismo; dos encantamentos e dos milagres; desses elementos, confundidos e abrumados ( p. ex. a salamanca do serro do Jarau ), nasceram idealizações novas e típicas adaptadas ou decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das concepções.
E, como entre conquistadores brancos corria intensa e rábida a febre da riqueza — o sonho escaldante do El-Dorado — a fulgir nas areias e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do Novo-Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a imantada ânsia — pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte…
Com a entrada dos mamelucos paulistas outras e doutra feição vieram do centro e norte do Brasil: o saci, o caápora, a oiára, que esfumaram-se no olvido.
Por último uma única se formou já entre gente lusitana radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio.
A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma feição expositiva — literária e talvez menos feliz — como expressão da dispersa forma porque a ancianidade subsistente transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce sobre a memória anônima do povo.
A’ Andrade Neves Neto
Meu caro Simões L. Neto
Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu talento. A lenda da “boi-tátá ”, também conhecida dos nossos sertanejos, com variantes que muito a diferençam da que escreveste, deve figurar no “folk-lore” gaúcho, onde já cintila, acesa por ti, a velinha do “Negrinho do Pastoreio”, à cuja claridade puseste meu nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo com elas o ramo que será um encanto para todas as almas e gloria para o teu nome. Abraço-te
teu
Coelho Neto
Rio 20-XI-09
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A M’BOI-TÁTÁ
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Foi assim:
num campo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições…
Os olhos andavam tão enfarados da noite, que, ficavam parados, horas e horas, olhando sem ver as brasas vermelhas do nhanduvái… as brasas somente, porque as faiscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.
Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!
E a noite velha ia andando… ia andando…
Table of contents
Inside this edition
- 01NOTA
- 02A M’BOI-TÁTÁ
- 03I
- 04II
- 05III
- 06IV
- 07V
- 08VI
- 09VII
- 10VIII
- 11IX
- 12X
- 13XI
- 14XII
- 15A SALAMANCA DO JARAU
- 16I
- 17II
- 18III
- 19IV
- 20V
- 21VI
- 22VII
- 23VIII
- 24IX
- 25X
- 26O NEGRINHO DO PASTOREIO
- 27ARGUMENTO DE OUTRAS LENDAS MISSIONEIRAS E DO CENTRO E NORTE DO BRASIL.
- 28MISSIONEIRAS
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