
Portuguese Edition
Literature
Livro de Consolação
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Paixões, sofrimento e memória cruzam-se num romance em que Camilo interroga as formas de compreender e suportar a desilusão.
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Book introduction
Livro de Consolação
A história acompanha Luiz da Silva e as pessoas ligadas ao seu destino afetivo, entre expectativas, escolhas e consequências difíceis de reparar. Camilo combina o desenvolvimento da intriga com comentários do narrador sobre a vida sentimental e o juízo social. O romance inclui a introdução, os capítulos e a conclusão em forma de carta que encerra o percurso narrativo.
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Camilo Castelo Branco morreu em 1890. Utiliza-se o texto português original da edição de 1872, disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas, imagens ou material editorial posterior.
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Livro de Consolação
Camilo Castelo Branco
Preview chapterINTRODUCÇÃOPreview
Le résultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des mœurs, c'est la civilisation même.
V. HUGO.—Les voix intérieures.
Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida vegetação d'aquellas gándaras com os arvoredos e verdejantes valles do Minho.
Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:
—Entremos por esta azinhaga que não tem sahida. Isto vae dar áquella casinha branca. Móra lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe se o homem morreu?! Ha tres annos que o não vi...
—Tem esse sujeito—perguntei eu com a minha natural magnanimidade de immortalisador—passagens na vida dignas de chronica?
—Tem, e magnificas.
—Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?
—Isso não sei. A biographia d'este homem é uma infelicidade vulgar, que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do coração parecem-se aos do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas, e d'ahi a pouco nenhum vestigio sobrenada á flor das ondas; assim succedeu na procella que sossobrou o velho que vaes vêr.
—Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos estrondosos do meu paiz, não me lembro d'isso...
—Não eras ainda nascido.
—Ah! eu não era ainda nascido? Isso então é caso muito antigo...
—Um pouco depois da edade-media—replicou Luiz da Silva.
E d'esta fórma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.
O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.
—Está aberta; levante o ferrolho quem é—disse uma voz de dentro.
—É vivo o homem!—disse Luiz, entrando.
Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de festões de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e formando alcatifa de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada avenida, encontramos um caramanchel enverdecido de trepadeiras, e lá dentro um ancião sentado em escabello de cortiça, afagando um gato maltez que lhe dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem entre-abriu os olhos á nossa chegada.
O velho formou com a mão direita um quebra-luz sobre os oculos verdes que pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com prasenteiro semblante:
—Quem me faz a honra?...
—É Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V. Ex.ª
Depois da apresentação, o sujeito, para quem o meu nome não era inteiramente desconhecido, disse ao meu amigo:
—Muito ha que o não vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha tempos, e me contou que V. Ex.ª andava a correr mundo. Conte o que viu.
—Vi o que Salomão via em tudo: vaidade.—Respondeu, sorrindo, o meu companheiro.
—Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito—volveu Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado pela incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e afofando o ninho para recomeçar o seu placido dormir.—Escusava de sahir de si proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda parte—proseguiu o velho.
—E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum—tornou o meu amigo—bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª
—Distincto, quer dizer, distincto na infelicidade...—acudiu Taveira.
—Na honra e na virtude—emendou Luiz da Silva.
—Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... algumas lagrimas.
E, voltado contra mim, perguntou:
—O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?
—Tenho vivido no Porto—respondí.
—Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da quinta do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta. Havia-se-me cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas esperando a maca. Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de dôres, admirei a serenidade das arvores, e ponderei a vantagem de ser vegetal, estranho ás côrtes de Lamego e á constituição da monarchia. E a impassibilidade das carvalheiras aparando as balas no seu arnez de cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O homem... esse é um mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o nosso viajante Luiz da Silva...
Preview chapterIPreview
Historia infantil de todo o homem que sente....
LOPO DE SOUZA—Herança de lagrimas.
Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho segundo de casa vinculada, foi destinado desde o berço a frade cruzio ou benedictino. Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a noviciar na casa capitular de Tibães aos quinze annos.
Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe faltava genio e fé para ser frade como cumpria.
Fr. Francisco de S. Luiz, então conventual em Tibães, e, mais tarde, bispo, ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do noviço contra as violentas persuasões dos monges escandalisados da impiedade de Venceslau.
Não ter fé! Era a primeira vez que um noviço ousára dizer que não tinha fé! Que elle não tivesse virtudes, vá; que muito frade se salvou sem ellas, graças ao habito que faz o monge e á contricção final que faz o santo; mas não ter fé!...
Sem impedimento d'estas e outras razões dos frades escandalisados, argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a religião o acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o descredito das ordens monasticas havia sido motivado pelo vicioso proceder dos frades constrangidos; e que, finalmente, ninguem esperasse que a violencia abrisse á luz da fé corações fechados e escurecidos pela duvida.
Com tão válido protector, o noviço despiu o habito e foi para casa. Recebeu-o a mãe com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da insolita rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando não, ir grangear sua vida onde lhe bem quadrasse.
Baldados os rogos e piedades da mãe, já ao marido para que perdoasse, já ao filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas moedas liberalisadas pela commiseração maternal, foi caminho de Lisboa onde não tinha parentes nem amigos.
Principiava o anno 1811.
O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli aquartellava a sua divisão. O reboliço da cidade desbordando de tropa, o espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroçaram o animo do rapaz cuja imaginação verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.
Que farte ouvira elle em Tibães execrar Napoleão, Massena, Soult, Junot e os outros d'aquella funesta constellação. O seu entendimento queria duvidar da justiça das accusações; mas o patriotismo insinuava-lhe o dever de odiar francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podéra lêr clandestinamente, subtrahindo-as da gavêta defeza da livraria de Tibães, onde talvez as recadasse com prudente cautela o esclarecido fr. Francisco de S. Luiz.
Á conta pois do auctor do Contracto Social está, por desventura de sua alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado á tunica de S. Bento aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:—Depois d'este acto de justiça quem póde negar a Massena as virtudes militares que Plutarco refere dos varões illustres de Grecia e Roma?
O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moço enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo Emilio.
Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com uma escolta de dois dragões. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a occasião, e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio, maculou mais ou menos—mas é de crêr que fosse mais—a pudicicia de uma das damas confiadas á sua vigilancia.
Eis pois um dragão indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das Hesperides, guardava o vélo de ouro, de certo com mais peso e quilates, mas com muito menos direitos á nossa consternação.
E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse sido secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim pois, logo que chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em honra da sua memoria bastante romana) expoz a Massena o affrontamento que lhe fizera o dragão. Ordenou para logo o general que o criminoso entrasse em conselho de guerra, e tão summario correu o processo que, no lapso de meia hora, foi o carnalissimo réo interrogado, sentenciado, confessado e espingardeado!
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02INTRODUCÇÃO
- 03I
- 04II
- 05III
- 06IV
- 07V
- 08VI
- 09VII
- 10VIII
- 11IX
- 12X
- 13XI
- 14XII
- 15XIII
- 16XIV
- 17XV
- 18XVI
- 19XVII
- 20XVIII
- 21XIX
- 22XX
- 23XXI
- 24XXII
- 25XXIII
- 26CONCLUSÃO
- 27CARTA DE LUIZ DA SILVA
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