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Portuguese Edition

Literature

Luar de Janeiro

Portuguese BooksWhale Edition by Augusto Gil

Augusto Gil reúne poemas sobre infância, amor, memória e religiosidade, incluindo a conhecida Balada da neve e cenas do quotidiano.

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Book introduction

Luar de Janeiro

Luar de Janeiro reúne poemas em que Augusto Gil aproxima imagens do quotidiano, vozes infantis e experiências de perda ou afeição. A Balada da neve convive com cantigas, meditações e narrativas em verso, num conjunto de ritmos e extensões variados. A edição conserva a organização do volume e as quebras dos versos, permitindo acompanhar as diferenças entre a expressão intimista e a observação social.

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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

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Augusto Gil morreu em 1929. Esta edição utiliza o original português em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas editoriais nem ilustrações.

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Preview chapterAo leitorRead preview

Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada sobre a génese d'O Canto da Cigarra objectarei, com antecipada promessa de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o encontrou—já não quero como artista, porque a esse as influencias ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações—mas na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me retorquir com o eureka do antigo geometra, ou é um sectario, ou um caturra,—ou um simples.

Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

Adeante.

Novembro de (1)909.

O auctor

De la musique encore et toujours

Que ton vers soit la bonne aventure Éparse au vent crispé du matin Qui va fleurant la menthe et le thym, Et tout le reste est litterature.

Verlaine

Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le tête-à-tête—et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire. Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne page, celle que ce livre encore annonce et ordone—tu sais, tu comprends et tu pardonnes…

Charles Morice.

A Coelho de Carvalho

Tout court, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a claridade dos seus talentos.

Luar de janeiro, Fria claridade

Á luz delle foi talvez Que primeiro A bocca dum português Disse a palavra saudade…

Luar de platina, Luar que allumia Mas que não aquece, Photographia D'alegre menina Que ha muitos annos já… envelhecesse.

Luar de janeiro, O gelo tornado Luminosidade… Rosa sem cheiro, Amor passado De que ficasse apenas a amizade…

Luar das nevadas, Algido e lindo, Janellas fechadas, Fechadas as portas E elle fulgindo, Limpido e lindo, Como boquinhas de creanças mortas, Na morte geladas —E ainda sorrindo…

Luar de janeiro, Luzente candeia De quem não tem nada, —Nem o calor dum brazeiro, Nem pão duro para a ceia, Nem uma pobre morada…

Luar dos poetas e dos miseraveis, Como se um laço estreito nos unisse, São similhaveis O nosso mau destino e o que tens…

De nós, da nossa dôr, a turba—ri-se —E a ti, sagrado ladram-te os cães!

Preview chapterSEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORAPreview

A João Barreira

«Em Evora vi um menino… …Que a dois annos não chegava …Era de maravilhar»…

Garcia de Rezende. Miscellanea.

Num convento solitario D'Evora, cidade clara, Claro celleiro de pão, Existe uma imagem rara Obra dum imaginario Dos tempos que já lá vão…

É um menino Jesus, De bochechinha brunida Côr de maçã camoeza, Mas no seu rosto transluz Uma expressão dolorida Que enche a gente de tristeza…

De tantissimas imagens Nenhuma vi que mais prenda, Que maior ternura expanda, Com suas calças de renda, Seu vestido de ramagens, —E corôa posta á banda…

Gordo, nedio, bem trajado, Deveria ser feliz, Deveria estar sorrindo; Mas o seu olhar maguado, Tão maguado, tão lindo, Que não o é, bem n'o diz…

Se não fosse por ser Deus E o seu poder infinito Ter sempre que o demonstrar, Cá na terra e lá nos ceus, Estenderia o beicito —E desatava a chorar!…

Corre o tempo descuidado, Passa uma hora, outra hora, Atraz desta outras se vão E, quem o vê, encantado, Sem se poder ir embora Numa perpetua attração…

Eu entrei com sol a pino. Pouco depois da chegada (Pouco a mim me pareceu) Deixei de ver o Menino… Não era a vista cançada, —Foi a noite que desceu…

Mesmo assim lá ficaria Absorto em muda prece De quem mal sabe rezar, Se o sacristão não viesse, Com rodas de Senhoria, Dizer-me que ia fechar…

Pudesse tel-o trazido E não fosse eu rico, apenas De phantasias, d'esp'ranças, Punha-o num nicho florido Por sobre as camas pequenas Dum hospital de creanças…

Dum hospital modelar Sustentado por meus bens, Entre olaias e roseiras, Cheio de sol, cheio d'ar, E em que as boas enfermeiras —Seriam as proprias mães…

A mais ampla enfermaria Desse escolhido local De bondade e soffrimento —Era o fundo natural Da funda melancolia Do Menino do convento…

Preview chapterBALLADA DA NEVEPreview

Il pleure dans mon coeur Comme il pleut sur la ville.

Verlaine

A Vicente Arnoso

Batem leve, levemente Como quem chama por mim… Será chuva? Será gente? Gente não é certamente E a chuva não bate assim…

É talvez a ventania; Mas ha pouco, ha poucochinho, Nem uma agulha bolia Na quieta melancolia Dos pinheiros do caminho…

Quem bate assim levemente Com tão estranha leveza Que mal se ouve, mal se sente?… Não é chuva, nem é gente, Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve cahia Do azul cinzento do ceu Branca e leve, branca e fria… —Ha quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu!

Olho-a atravez da vidraça. Poz tudo da côr do linho. Passa gente e quando passa Os passos imprime e traça Na brancura do caminho…

Fico olhando esses signaes Da pobre gente que avança E noto, por entre os mais, Os traços miniaturais Duns pézitos de creança…

E descalcinhos, doridos… A neve deixa inda vel-os Primeiro bem definidos, —Depois em sulcos compridos, Porque não podia erguel-os!…

Que quem já é peccador Soffra tormentos, emfim! Mas as creanças, Senhor, Porque lhes daes tanta dôr?!… Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza Uma funda turbação Entra em mim, fica em mim prêsa. Cae neve na natureza… —E cae no meu coração.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Ao leitor
  2. 02SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA
  3. 03BALLADA DA NEVE
  4. 04TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS
  5. 05O NOSSO LAR
  6. 06O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO
  7. 07I
  8. 08II
  9. 09MELODIA CONFIDENCIAL
  10. 10O PASSEIO DE SANTO ANTONIO
  11. 11UM GRÃO DE INCENSO
  12. 12A MÁSCARA
  13. 13IN PROMPTUM PASTORAL
  14. 14MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES
  15. 15I
  16. 16II
  17. 17III
  18. 18IV
  19. 19V
  20. 20VI
  21. 21A CANÇÃO DAS PERDIDAS
  22. 22I
  23. 23II
  24. 24III
  25. 25IV
  26. 26V
  27. 27VI
  28. 28VII
  29. 29VIII
  30. 30IX
  31. 31X
  32. 32XI
  33. 33CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL
  34. 34MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE
  35. 35NOIVA
  36. 36DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE
  37. 37JOANNINHA
  38. 38QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…
  39. 39A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

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