
Portuguese Edition
Literature
Memórias do Cárcere
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Um clássico em domínio público sobre prisão, sociedade, culpa, memória, observação humana e crônica autobiográfica.
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Memórias do Cárcere
Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco continua relevante para leitores interessados em prisão, sociedade, culpa, memória, observação humana e crônica autobiográfica na tradição de língua portuguesa. Esta edição portuguesa apresenta o texto original em domínio público numa forma limpa para leitura online, EPUB e PDF.
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This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
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Memórias do Cárcere foi publicado pela primeira vez em 1862. Esta edição usa o texto original português em domínio público, com base na data da obra e nos direitos autorais expirados.
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Memórias do Cárcere
Camilo Castelo Branco
Preview chapterParte 1Preview
PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
As Memorias do Cárcere foram escriptas na convalescença tl'uma grande enfermidade moral. Conheci quanto pode o homem sobre si próprio, em quarenta dias de laboriosa provação, que tantos empreguei em ordenar estes quadros, que consliluiram dois pequenos volumes na primeira publicação. Consistiu a minha lucta em fingir uma stoica serenidade, que, tão ao revés da minha indole, vinguei e dissimulei. Assim mesmo haviam relanços no livro em que o propósito nao lograra sopesar o espirito. Esses relanços desagradam-me agora, e hei de cancelal-os espontaneamente. Ainda bem que de mui pouco me incommoda o arrependimento. Se me disserem que
outro homem poderia dar mais louvável exemplo de cordura e mansidão, responderei que exemplo mais louvável só poderia dal-o quem se calasse, em analogia de circumstancias. Isso, a tel-o eu feito, me seria agora motivo de muito orgulho — o orgulho de quem se alevanta superior ás dores e ás aífrontas.
Este livro esteve a naufragar, quando eu cuidava que elle ia velejando em mar de leite. O titulo dera esperanças, que o texto desmentira. Afizera-se o venerando puhlico á ideia de que as Memorias do Cárcere eram uma diatribe eriçada de injurias, sarcasmos e glosas ao escândalo, que desgraçadamente as dispensava: tão á luz do sol se desnudara arrastado por praças e tribunaes. Sahiu o livro, mentindo ás esperanças de muita gente, que o esperava á feição de sua vontade para ter o prazer de me condemnar. O resultado foi condemnarem-rae, porque raras vezes estas paginas se enlamearam no assumpto lastimável que as suggeriu.
Para contrafazer ao desconceito que algumas pessoas votaram ao livro, sabiu-me favorável o parecer d'outras, que mostraram desejo de ver esta obra expurgada de algumas manchas que lhe afeiam a conli-
ncnle placidez com que discorre quasi sempre arre dada da minha questão toda pessoal, c por isso mes mo odiosíssima.
Desgostos mais graves me sobrevieram. Inimigos mais estúpidos que maus quizeram ver, no modo como eu fallei do meu prestante e obsequiador amigo José Cardoso Vieira de Castro, uma intencional e pouco rebuçada desconsideração. Doeu-me de veras isto, mormente porque Vieira de Castro, de feito, se quiz ver desconsiderado n'esses períodos, que vão agora integralmente reproduzidos. A calumnia do gentio, empenhado em desatar os laços de muita estima e obrigação que me ligam áquelle cavalheiro, enojava-me; porém, o assentimento do moço illustrado ás aleivosias dos lorpas, doeu-me no mais sensivel da minha alma. Se eu agora retocasse alguma das palavras referidas ao meu amigo, quem maior testemunho dava da sua miséria seria eu. Os alarves batiam as palmas, e Vieira de Castro pasmaria!
A imprensa periódica foi benigna com este livro. Nenhuma critica, ao menos das que eu li, me infamou de escandaloso o escripto. Grande numero dos censores notaram e louvaram a inoffensiva contextura
d'estas historietas, que, em geral, miravam fazerem-se ler alegremente. Se o consegui, esta suprema violência, que eu fiz ao meu espirito, devera ser tida em conta, não de habilidade, mas de muitissima força d'alma.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
DISCURSO PRELIMINAR
Quem vir, em obra de Ião pouca monta, o empavesado intróito d'um discurso yreAiminar entra logo a sorrir do desvanecimento com que um fútil romancista vem com sua obra arreada de composturas, que só concertam ao justo em escriptos de sciencia, de philosophia, de historia, e algumas vezes nos reportorios.
Acudo eu logo, por minha modéstia e bomjuizo, allegando que discurso preliminar n'este caso, quer dizer que o author, antes de folhear os seus apontamentos do cárcere, ha de entreter-se algum pouco espaço com recordações, nem mais saudosas, nem gratas, que as dos ferros, mas bem-quistas do espirito e da gratidão, que as reservou para esta hora. De gratidão, digo, e depois virá o porque.
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Triste imagem d'esta vida, Que me Deus fadou a mim! Diz-mey 6 onda enfurecida, Qual teu principio e teu fim?
Algumas vezes fui á villa de Fafe, cujos cavalheiros conheci no botequim da terra, estabelecimento indeciso entre o modesto e o sujo. Os cavalheiros alternavam as suas horas de ócio com o dominó e a sueca. Conheci ahi o senhor José Maria Peixoto, moço de prestantes dotes, que exercia a administração do con-
pri:mminau. xxxv
cellio, e o senhor Joaquim Ferreira de Mello, amigo e consecutivo deputado ás cortes, c sujeito de muitos serviços á liberdade. Penso que já é Tallecido o prior de Fafe, grande latinista, e discreto em castissima linguagem portugueza. As suas praticas eram íloreadas de lusilanismos, que, a meu ver, lhe não seriam mais entendidos dos parochianos que osjeroglyficosdeMemphis.
Não fallei ainda da minha convivência caseira de trinia dias com José Cardoso Vieira de Castro. INaquelle tempo o descuido deixara á mercê das ventanias de successivos invernos o telhado da casa. As chuvas em Junho não eram copiosas; mas, como o ardor do sol fendesse a argamassa, o tecto coava os chuveiros das trovoadas, e pingava sobre a minha cama como abobada de caverna. Ao deitar-me, abria eu o guardachuva, e dormia assim. Se não fosse a constricção do animo, que regaladas noites seriam aquellas!
Vieira lia Filintho Elysio, e declamava-o com irónico enthusiasmo na versão dos Martyres de Chateaubriand, viersão que requer ser vertida para portuguez. Eu de mim, em trinta dias, li duas paginas de Larochefoucauld. Vieira de Castro era bastante criança para se espantar da infertilidade da minha imaginação. Instigava-me a escrever um livro, um folhetim, uma epopeia, uma historia universal, uma anacreontica, a chronica d'um reinado, ou uma charada. Nada fiz... minto: aqui tenho uma quintilha: lá devia ser escripta, que está datada no Ermo em 1 de Julho:
XXXVI DISCURSO
Tudo trevas! e teu rosto Me refulge luz maior. Também no mar procelloso. Quando o ceo é pavoroso, É que o fanal tem fulgor.
Vejam que fecundidade! Razão tinha o viçoso Yieira de Castro para crer que as lagrimas haviam apagado a flamma, á qual eu via tantas imagens de tantos mundos, umas denegridas da lama da terra, esplendidas outras do raio ideal de Deus! E certo é que nunca mais reviçaram as flores fenecidas n'aquelle tempo. Então se ergueu a balisa que de mim fez duas existências inconciliáveis: um coração para a saudade, outro para a desesperação infinita.
Entrei em terreno abrolhado: refujo d'elle, e volvo ao artificio, á dupla arte do sorriso.
A nossa mesa era lauta em coelhos. Façam ideia do montesinho da terra, sabendo que um criado sabia fora de portas com dois cães e um pau, e voltava com uma braçada de coelhos, uns, a meu ver, filados pelos cães, outros derreados a bordoada.
As cerejeiras arqueavam-se sobre as janellas do nosso quarto com os seus fructos de seductor carmim; as laranjeiras eram lindas á vista; mas o travor do fru cto degenerado era tal, que um guisado de coacia e fel seria doce de ovos em comparação com as laranjas do Ermo. O que as densas arvores nos davam era a sua folhagem lustrosa e verde, e a luz coada por ellas, e os raios do sol de Julho esfriados na sua frescura.
PIIEMMINAR. XXXVII
Nos seculares caslaniieiros c olmos, que escurecem as gargantas craqucllas quebradas, andava eu sempre entalhando iniciaes e datas, — distracção pueril, reminiscências sympathicas das pastoris dos nossos bernardes e Ferreiras, já hoje velharias, que modernos amadores não usam. Decorridos cincoenta, cem annos, os netos de Vieira de Castro, se herdarem a poesia do avô, andarão por alliscismandoe inquirindo do silencio dos bosques quem foi que abriu na cortiça d*aquellas arvores as letras inigmaticas de alguma tragedia obscura. Se este livro vencesse o destino dos outros do auIhor, se o meu nome chegasse onde aquellas iniciaes hão de ir, os netos de Vieira de Castro folgariam de achar o triste segredo d'ellas.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02Parte 1
- 03Parte 2
- 04Parte 3
- 05Parte 4
- 06Parte 5
- 07Parte 6
- 08Parte 7
- 09Parte 8
- 10Parte 9
- 11Parte 10
- 12Parte 11
- 13Parte 12
- 14Parte 13
- 15Parte 14
- 16Parte 15
- 17Parte 16
- 18Parte 17
- 19Parte 18
- 20Parte 19
- 21Parte 20
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