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Memórias, volume I
Portuguese BooksWhale Edition by Raul Brandão
Recordações pessoais e retratos de escritores e políticos acompanham a sociedade portuguesa e as tensões dos últimos anos da monarquia.
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Book introduction
Memórias, volume I
Raul Brandão reúne memórias da infância, encontros literários, retratos individuais e observações da vida pública portuguesa. Columbano, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e figuras políticas surgem numa escrita que alterna recordação, diálogo e juízo pessoal. Este texto português corresponde apenas ao primeiro volume, com o prefácio e as secções Algumas Figuras, Pó da Estrada, A Sociedade Elegante e O Mundo Político.
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Raul Brandão morreu em 1930; o primeiro volume foi publicado em 1919. Utiliza-se o original português disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem imagens, notas ou material editorial posterior.
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Preview chapterAos mortos — PREFACIORead preview
Janeiro de 1918.
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda n'este sonho poído. Não me habituo: não posso vêr uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplendido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei—nem me importo—se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectaculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante seculos e seculos, até ao juizo final. Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas perdidas... Fugi sempre dos phantasmas agitados, que me metem medo. Os homens que mais me interessaram na existencia foram outros: foram, por exemplo, D. João da Camara, poeta e santo, Correia d'Oliveira, um chapeu alto e nervos, nascido para cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e alguns desgraçados que mal sabiam exprimir-se. Conheci muitos ignorados e felizes. Meio doidos e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme sobre a mesma rima de jornaes?... Outro andava roto e dava tudo aos pobres. O homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dôr tambem.
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De tudo o que se passou comigo só conservo a memoria intacta de dois ou tres rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e enebriam-me, como um pouco d'agua fria embacia o copo. Só de pequeno retenho impressões tão nitidas como na primeira hora: ouço hoje como hontem os passos de meu pae quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul ferrete das hydranjas que enchiam o canteiro da parede. O resto esvae-se como fumo. Até as figuras dos mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de mim... Algumas sensações, ternura, côr, e pouco mais. Tinta. Pequenas coisas frivolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o cabedelo d'oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel da vida e da morte, assisti a muitos factos historicos, e essas impressões vão-se desvanecidas. Ao contrario este facto trivial ainda hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquella laranjeira que, de velha e tonta, deu flôr no inverno em que seccou. O resto usa-se hora a hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre.
Lá está a velha casa abandonada, e as arvores que minha mãe, por sua mão, dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, o mesmo barco archaico sobe o rio, guiado á espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo para os tornar a vêr, e não ha lagrimas no mundo que os façam resuscitar.
Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida e doirada, a Cantareira, no alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou colerico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morreu a minha avó; no armario, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu avô, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulação do seu brigue, e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me da avó e da tia Iria, de saia de riscas azues, sentadas no estrado da sala da frente, e possuo ainda o volume desirmanado do Judeu que ellas liam, com o Feliz Independente do mundo e da fortuna e as Recreações philosophicas do padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde que me conheço, sahir do negrume, alta noite, a voz do moço chamando os homens da companha:—Ó sê Manuel cá p'ra baixo p'r'o mar!—Vi envelhecer todos estes pescadores, o Bilé, o Mandum, o Manuel Arraes, que me levou pela primeira vez, na nossa lancha, ao largo. Ha que tempos!—e foi hontem... A quarenta braças lança-se o ancorote. Na noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar profundo—chape que chape—só me separa o cavername. Deito-me com os homens sob a vela estendida. Primeiro livor da manhã, e não distingo a luz do dia do pó verde do mar. Nasce da agua, mistura-se na agua, com reflexos baços, a claridade salgada que palpita, o ar vivo que respiro, o oceano immenso que me envolve.—Iça! iça!—e as redes sobem pela polé, cheias de algas e de peixe, que se debate no fundo da catraia. Voltamos. Já avisto, á vela panda, o farolim, depois Carreiros; um ponto branco, alem no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra toda, roxa e diaphana, emerge emfim, como uma aparição, do fundo do mar. A onda quebra. Eis a barra. Agora o leme firme!... As mulheres, de perna nua, acodem á praia para lavar as rêdes, e o velho piloto mór, de barba branca, sentado á porta da Pensão, fuma inalteravel o seu cachimbo de barro. O azul do mar, desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que o céo derrete. Mais barcos vão aparecendo, vela a vela: o Vae com Deus, a Senhora da Ajuda, o Deus te guarde, e os homens, de pé, com o barrete na mão, cantam o bemdito, tanta foi a pesca.—Quantas duzias?—Um cento! dois centos!—Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo, a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, a sardinha que os bateis carreiam do mar inexgotavel, estivando de prata todo o caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é tanto, que não bastam os almocreves com os seus burros canastreiros, as varinas com os seus gigos, nem as mulheres de saia ensacada e perna á mostra, para o levarem, apregoando-o, por essa terra dentro. Dá-se a quem o quer, faz-se o quinhão dos pobres. Em setembro são as marés vivas. Mais tarde cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se para o sul uma parede compacta que tem legoas de espessura. A voz é outra, clamorosa, e, á primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela costa fóra, anunciando o inverno que vem proximo. O quadro muda, e os homens morrem á bocca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos, sacudidos no torvelinho da resaca, o velho arraes de pé, as duas mãos crispadas no leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, e todo o mulherio da Povoa, de Matosinhos, da Afurada—vento sul, camaroeiro içado—com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de lagrimas:—Ai o meu rico homem! o meu filho que o não torno a ver!—E chamam por Deus, ou insultam o mar, que, inverno a inverno, lh'os leva todos para o fundo.
Preview chapterALGUMAS FIGURASPreview
Janeiro—1900.
Urbano de Castro, com um olho tôrto e um chapelinho afadistado, na aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do Correio da Manhã. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de classicos—conhece muito a lingua—e uma forma ironica e precisa: em meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os politicos temem-no tanto, que uma das condições impostas pelo José Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na Tarde com o Espirito de S. Ex.a.
Eis algumas maximas de Urbano de Castro:
—A paciencia é uma virtude de capote e lenço. —Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido. —Os homens publicos são como os papeis de credito—o que hoje tem uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente.
—Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos. —A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma, mas o vinho é outro. —Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica. —No coração mora-me Deus, no figado o diabo. —Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo, mortal—é o que não é nunca. —Theologia—a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que nós não entendemos. —De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois bicos. —Jornalista—fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a unica genuina é a da sua lavra. —Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum. —O suicida tem para mim um lado sympathico—não se julga insubstituivel.
Junho—1903.
Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial? Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os theatros do Rio representaram peças com o seu nome. Está cheio de dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflições de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta—pan! pan! pan!—e dinheiro atirado a rodos, é um casebre no campo, duas arvores n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue que pingue no fundo do quintal. Paz. E não escrever uma linha.
Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, de cabellos brancos, que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo. Parece inofensivo. Começou a vida por creado de servir e esfolou os patrões. Afirma que o Garrido é capaz de arrancar dinheiro a um morto:
—Este senhor Garrido dá-me cada aflição! Até me faz crear caspa!
Fevereiro—1900.
A paixão d'este homem é não ter um livro de geito. G... só escreveu trez folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais nada. É no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até ante manhã, dispersando com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma noite, no café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu:
—A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.
G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo, para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia:
Preview chapterPÓ DA ESTRADAPreview
Março—1902.
Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do Janeiro, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso aberto:—Meu querido amigo...—e, mal se fecha por dentro, arranca os ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:—Ai que filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!—Nem para ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:—Hei-de ser ministro porque quero mandar! gosto de mandar!—É um fidalgo com talento, e tanto serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço é identico.—Vou ao inferno por um amigo...—Ha ainda quem se lembre dum Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:—Nada se faz sem mim. Sei tudo!—diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este que lhe sorri atraiçoa-o—e elle fala-lhe amavelmente:—Não me podem vêr porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do que elles podem dar.—Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a isso que elle se refere quando afirma:—Ninguem sabe a que portas vou bater!
Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José Luciano, que um dia sae-se com esta:
—Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
—A revolução! queremos a revolução!—concluiram todos.
—Eu disponho de seis mil homens.
—Vamos para a rua!
—Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.a: é que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
—Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus amigos para nada!
—O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,—observa alguem do lado.
—Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim—que é um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:—Está tudo perdido, votem no José Luciano...—Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava o partido progressista.
Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande orador, sem brilho mas solido—e com caracter! com tenacidade e caracter!—pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:—Essa vil alforreca...—Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que se podia dar—e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos. Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde, a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas phrases que a historia terá de registar...
Table of contents
Inside this edition
- 01Aos mortos — PREFACIO
- 02ALGUMAS FIGURAS
- 03PÓ DA ESTRADA
- 04A SOCIEDADE ELEGANTE
- 05O MUNDO POLITICO
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