Portuguese Edition
Literature
Novelas do Minho
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Narrativas minhotas de paixão, honra, família, conflito rural e observação social camiliana.
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Book introduction
Novelas do Minho
Novelas do Minho reúne histórias em que Camilo Castelo Branco explora aldeias, famílias, heranças, amores contrariados e códigos de honra do norte de Portugal. O conjunto combina intensidade sentimental, ironia narrativa e atenção viva às tensões sociais do mundo rural.
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Camilo Castelo Branco morreu em 1890, e Novelas do Minho foi publicado na década de 1870. Essas datas sustentam a base de domínio público do texto português usado nesta edição.
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Novelas do Minho
GRACEJOS QUE MATAM
Isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa gente no dia de hoje.
Theatro de Manoel de Figueiredo. Censores do theatro, T. VI, pag.
Ao Dr. Thomaz de Carvalho
*GRACEJOS QUE MATAM*
Ordinariamente, chamam-se á franceza--_espirituosos_--uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:
Chocarreiro--tregeiteador--arlequim--palhaço--proxinella--polichinello-- --maninêllo--truão--jogral--goliardo--histrião--farcista--farçola--végete-- --bobo--pierrot--momo--bufão--folião, etc.
Esta riqueza de synonimia denota que o _bobo_ medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga _jogralidade_, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.
Ainda assim o estreme _espirito_ portuguez, por mais que o afiem e
agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das
farças: é _chalaça_.
Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.
Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez
mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que
desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este,
que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas--nem o terá
aqui--orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta
annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor,
e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das
rizadas.
O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o
politico; mais funesto por que vulnéra melindres--coisa que o callôso
peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de
Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não
apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada
nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.
É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas
de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me.
Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e
honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo
aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas
occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela
opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.
Era em 1851.
Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa. O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a memoria.
Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.
Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje
chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que
preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do
rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».
O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias:
Preview chapterPRIMEIRA PARTEPreview
Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidissima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da egreja de Santa Maria de Abbade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Tres Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,--viuva do operario Bernabé, que lhe deixára o nome e uma cabana com sua horta--ergueu-se, foi á residencia parochial pedir a chave da egreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lampadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. N'este momento, ouviu o vagir convulso e rispido de criança. Voltou o rosto para o lado d'onde lhe parecia sahir aquelle chôro. Não viu alguem. Espantou se.
--Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!--exclamou ella, pousando no degráo da porta a vazilha e a bassoura.
E o chorar de criança cessou.
A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raizes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde sahiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se á raiz da arvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lh'a apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residencia, e mandou dizer ao abbade que topára no adro uma creança, que parecia estar a despedir.
--Pois que quer ella então?--perguntou o abbade, expondo uma parte do
nariz e metade do olho esquerdo á frialdade do ar--Que tenho eu com
isso? Que a leve a Barcellos. Aqui não ha roda de engeitados.
A criada do abbade deu o recado.
--Torne lá, sr.^a Joanna--replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recem-nascido com a barra da sua saia de saragôça--e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do ceo que se perde. O sr. abbade hade saber isto melhor que eu...
A creada repetiu a replica, e ajunctou:
--A tia Bernabé diz bem.--Salte d'ahi p'ra fóra, seu calaceiro!--E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.--Um rapaz de vinte e sete annos está ahi enteiriçado como um velho! Upa!
--Está quieta, Joanna, olha que me fazes vento!
E ella puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de tres pés; e
elle, com o outro, despedido á tôa, sacou-lhe do baixo ventre um som
tympanico de ôdre cheio.
--T'arrenego!--bradou ella, recuando com as mãos postas na parte molestada.--Vossê atira? Tem má mânha!
--Cheguei-te?--volveu elle risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se á almofada de chita que estofava o espaldar do leito.
--Que brincadeira!--queixou-se a moçoila arrufada--podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!...
E punha a mão no estomago.
--Isso não é nada, rapariga!... Olha se amúas!
--Nada, não é!... não que a barriga é minha...
--Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
--Então dissesse-o...--tornou ella com semblante ageitado á
reconciliação--Salte d'ahi!... vá baptisar o engeitado; que, se elle
morre sem baptismo, verá que ingranzeu se levanta na freguezia. Bem
basta o que já dizem...
--Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despegue o emplasto da frieira.
E, em quanto a môça com geitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lh'as ao correr da tibia, resmungava elle:
--Quem seria a grande bebeda que engeitou a cria?
--Isso hade ser de fóra da freguezia...
Preview chapterSEGUNDA PARTEPreview
Vinte annos volvem-se tão depressa, que eu, n'este salto que o leitor
vai dar, não me despenderei a encher-lhe de phrases o passadiço. O
melhor é fechar os olhos e saltar.
Vinte annos! Que são vinte annos?
Nós, ainda hontem eramos rapazes, ó velhos! Este _hontem_ gastou vinte annos a resvalar para _hoje_. Que se passou n'este lapso fugitivo de nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada. Temos a nosso lado filhos homens, e netos que ámanhã serão homens: e, todavia, parece que ainda hontem com um raio de sol e com o perfume de uma roza compunhamos o sorriso da loira mãe d'estes homens, que está hoje velha! Ainda hontem eramos poetas pelo amor, affoitos pela aspiração, valentes pela mocidade. Que grandes coisas devem ter-se passado n'esse instante de vinte annos, em quanto esperavamos outras que nunca vieram! A scismar sempre com o futuro não o viamos passar. A final parou; e deixou-se conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do seio de um relampago. Esta treva foi instantanea, e gastou vinte annos a condensar-se. Que são vinte annos?
Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brazileiro a quem os seus creados negros e brancos chamavam simplesmente o _sr. commendador_. Não viera recommendado a algum dos barões da terra. Enviára adiante a recommendação da parelha das orças, da caleche, dos lacaios. Representava quarenta annos florentissimos. Basto bigode, suissa ingleza, espesso cabello levantado em novêllos crespos que lhe escantavam a fronte. Espaduas amplas, á proporção das pernas que se moviam rijas e bazeadas em pés infalliveis como os alicerces das pyramides dos pharaós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir á noite a _Covent-Gard_, ao _Royal Italian Opera_. Fumava sempre uns charutos que vaporavam os aromas das recamaras das sultanas. Na meza, era de uma elegancia frugal que desmentia a procedencia. Olhava para o bife com um fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano, quando, meditando na metempsycose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei eu comendo meu avô?»
Com quanto nem elle nem creados declarassem os seus nomes e appellidos, os jornaes do Porto haviam annunciado a chegada do maior capitalista de Pellotas, o sr. Manoel José da Silva Guimarães.
Nada de bioquices com o leitor: ahi está Belchior Bernabé, o engeitado.
Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o commendador cavalgou, acompanhou-se do lacaio, e seguiu na direcção de S. Thiago d'Antas.
--Vai vêr a igreja que fizeram os moiros... Calculou outro commendador da terra, e assim o communicou a mais dois commendadores, attribuindo aos moiros a egreja dos cavalleiros de Rhodes.
--Hade ser isso--confirmou o mais correcto.--Este homem é magico. O Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e elle respondeu...
--Que não tinha a certeza--concluiu o outro--Tem grande têlha!
--Hontem, na feira, estava elle a vêr vender duas juntas de bois para embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo...
--Bem sei, o irmão d'aquelle padre João que morreu ha tres annos de apoplexia.
--É isso. O telhudo, que não falla com ninguem, poz-se a conversar com o Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o á hospedaria, e deu-lhe de jantar. O Silvestre esteve depois commigo, e vinha espantado de vêr dois criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir á meza.--E em que fallaram vossês?--perguntei-lhe eu. Disse-me que o commendador lhe perguntára coisas e tal _et coetera_ cá da provincia, e que ficára de ir a casa d'elle vêr a córte dos bois. Magico ou não? Olhem vossês! Vae ver os bois!
Table of contents
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- 01Full text
- 02PRIMEIRA PARTE
- 03SEGUNDA PARTE
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