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Portuguese Edition

Literature

O Barão de Lavos

Portuguese BooksWhale Edition by Abel Botelho

Romance naturalista português sobre aristocracia, desejo, decadência e crítica social.

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O Barão de Lavos

O Barão de Lavos é um romance naturalista de Abel Botelho que examina decadência aristocrática, desejo, moral pública e hipocrisia social. A obra integra a série Patologia Social e é uma referência da ficção portuguesa finissecular.

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Abel Botelho morreu em 1917 e O Barão de Lavos foi publicado em 1891; estas datas sustentam o domínio público desta edição portuguesa.

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O Barão de Lavos

Abel Botelho

CAPÍTULO I

Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito

erguidas, com um papelinho azul ao vento.

A cada minuto a agitação crescia. Pregoavam água fresca, pastelinhos, tâmaras. de um primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas suplicavam: — Psiu! Não sobes, ó catitinha? — aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. De vez em quando, uma carruagem passava; e no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do

polimento.

Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. Ia e vinha, parava, escoldrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. No olhar, dilatado e teimoso, de uma secura inflamada e vítrea, fulgurava ardente a obstinação de um

desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, num

labirinto febril de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram sacudidos

nervosamente por uma forte preocupação animal.

Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria, e desandava logo para outro lado. Percebia-se mesmo, ao cabo de alguns minutos de observação, que ele não procurava determinadamente alguém. Ao contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. Se havia garotos por junto dos quais passava rápido, após um olhar furtivo, havia também outros a cuja descoberta lhe arrepanhava as faces a mais pungente sensualidade. E então, com estes, não havia meio que não empregasse para lhes ferir a atenção. Roçava-os de leve com o braço; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; postava-se-lhes ao lado, fitando-os com o olhar seco e vítreo, persistente; soprava-lhes na nuca uma baforada de fumo, ao passar. Todo este jogo, — é de saber —, feito sempre sonsamente, com cautelas de

hipócrita, com astúcias felinas, todo sabiamente intervalado

com olhares perscrutadores em torno... não fosse por aí

aparecer e surpreendê-lo alguém conhecido.

E, de cada vez que o jovem interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, o noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz

melancolia.

Um bom velho de ar marcial, vermelhinho e gordo,

bigode e pera negros, bateu-lhe no ombro: — Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu.

— Ó coronel! — balbuciou o barão, levemente perturbado, cumprimentando, — isso é que é zelo... pelo

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leitura interrompida.

— Gostas?

— Nunca li nada que me tocasse tanto! — E enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue, uma das pernas dobrada, colhida graciosamente sob o tronco, num gesto friorento de avezita; as mãos sobre o regaço, preguiçosas, deixando os dedos jogar distraidamente com os anéis; as pupilas traçando num vaivém rápido o paralelismo das linhas que iam devorando no livro, poisado sobre uma

mesinha baixa de charão.

— Sabes tu quem eu vi?... — disse o barão, querendo

armar conversa. — Os Paradelas. Porém a baronesa, cortando logo: — Sim, sim, mas deixa-me ler.

O gás estava apagado. Apenas iluminava a saleta um alto candeeiro de bomba, de bronze esmaltado, estilo bizantino, com o globo fosco vestido por um para-luz tenuíssimo de papel-japão. Estava sobre a mesinha, junto ao livro, vertendo em torno um cone muito restrito de luz. O maior do aposento, — águarelas, chinesices, faianças ornando as

paredes; fotografias, revistas ilustradas, álbuns,

quinquilharias galantes abarbando os consolos, as estantes polidas a negro, o contador embrechado; móveis esparsos numa desordem estudada, o piano, flores, porcelanas caras, — mergulhava tudo discretamente na penumbra, tinha os contornos adormecidos num claro-escuro de pacificação e castidade. Só aquele cantinho morno e preferido, entre o biombo e a parede, na incidência próxima do candeeiro, realçavam, numa claridade repousada e honesta de interior de Gerard Dou ou de Van Eyck, um trecho da alcatifa, curvo e afilado como um crescente, o espelhamento opalino de um velho prato suspenso da parede, um ou outro avoejo exótico de laca e oiro no verniz da mesinha acharoada, e a viva mancha adorável da cabecita pequena e redonda da

baronesa.

Era um desses tipos de mulher delicados, miudinhos, frágeis, picantes à força de subtilização e de nervos, que apetece à gente ao mesmo tempo contrariar e amar servilmente, acariciar e destruir. Uma figurinha de Saxe, luminosa e frívola. Os olhos, grandes, entre o cinzento e o verde, um tudo-nada metálicos, tinham uma translucidez

enxuta, saudável, forte, que raro, num trémulo conchegar

de pálpebras, humedecia um espasmo breve de volúpia; o nariz, impercetível, fino, erguia-se na base em arrebite, num leve jeito provocante, entre malicioso e altivo; na testa, desanuviada, lisa, pequenina, não havia notícia da passagem de um pensamento grave, de um minuto reflexivo, de uma justa noção do Dever; e pela curva da face, de uma alvura crassa de leite, subia de cada lado, do mento às fontes, a sinuosidade azul de uma veia

tenuissima.

Um conjunto fascinante de juventude e graça, de

petulância e mimo.

O barão, fatigado, arreliado, quente, o coração palpitando forte, e o cérebro e as mãos a arder, saboreava um alívio e uma doçura imensa na tranquilidade muda do recinto. Mal apaziguado ainda das tumultuárias emoções da noite, o remanso dormente da sua casinha embalava-lhe a carne estimulada numa acalmação voluptuosa e emoliente de banho a 33 graus. Mas não era bastante; se os sentidos se lhe normalizavam, a alma continuava estrebuchando numa exaltação dolorida. O silêncio exasperava-o. Queria um

derivativo psíquico, uma mutuação qualquer de ideias, o

bálsamo de um comércio espiritual, sincero, íntimo, todo

afabilidade e abandono.

Por isso aventurou para a baronesa, numa súplica

impertinente: — Então, não me dizes nada”... Deixa agora o livro. Ao que ela, contrariada, sem desfitar da leitura:

— Ora, muito obrigada. Não andaste por lá sem mim,

entretido até agora?... Pois deixa-me ler.

E a boca vincava-se-lhe aos cantos, muito acre, e as veiazitas da face coravam-se-lhe de roxo, ligeiramente

engrossadas.

Portanto, o silêncio pesou novamente, esmagador, absoluto, na quietação implacável da saleta. Ao seu cantinho predileto, enovelada sobre a chaise-longue, a baronesa não despegava de ler. Guardava-a do ar da porta próxima que, do lado da cabeceira, dava para o quarto de toilette, um alto biombo de preço, com os seus cinco panos, de cetim preto, sobriamente bordados de aves pernaltas, gramíneas capilares e florinhas ténues, em matizes de um

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meio de provocar a gestação.

Na última integração da sua fisionomia social os conventos não foram mais do que isto, — uma criminosa burla ao dinamismo prolífico da natureza, uma cravagem de centeio mística, um veto espiritual à maternidade. Eram casas toleradas de prostituição, defendidas pelo lema hipócrita do voto. O mundo antigo era mais franco. Na Grécia os efeminados varriam galhardamente com as suas caudas de púrpura as lajes das praças públicas, sob a luz magnânima do Sol; no mundo latino os tonsurados, do primeiro cardeal ao derradeiro fâmulo, erguiam furtivamente o burel ou a seda na sombra cúmplice dos claustros, e entregavam-se baixando os olhos contritos

perante as imagens de Deus.

Com a diuturnidade da causa, o mal prosperou, azedou, enraizou-se, alargou sobre a geração de hoje um império

feroz e dissolvente.

x

No barão de lLavos confluíam poderosamente as qualidades todas do pederasta. Quando tinha dez anos, entrou para o colégio de Campolide. O seu pai, velho cortesão cheio de tédio e de dívidas, viúvo, refarto de alçapremar traições num sorriso, de farricocar o ódio em graciosas mesuras, de espremer a bolsa em proveito de parentes e caloteiros, resolvera sair de Lisboa, descansar, fugir aos prazeres, à intriga, ao mundo que conhecia de sobra. Foi-se para Lavos, onde possuía excelentes propriedades em salinas, campos e florestas, a refazer a fortuna e a endireitar a espinha. O filho, entregue à douta proteção dos jesuítas, no seu ponto de vista, ficava bem. Por ocasião das férias, acolhia-o com alvoroço, retinha-o

com amor, dava-se a estudar-lhe interessadamente os

progressos na educação. O rapaz era inteligente, amigo do estudo, — mesmo talentoso — | arriscavam-lhe confidencialmente, em breves períodos lardeados de reticências, os astutos precetores. — E dava-lhes cuidado, — acrescentavam receosos, — regurgitava de seiva, precisava ser dominado de princípio, aliás corria o risco de

se perder.

Mais de uma vez, por noite alta, os prefeitos tinham surpreendido o menino fora da cama, abancado à mesa, a face colada a uma luz asfixiante de petróleo, fumosa e lívida, todo numa febre de improviso, a cara camarinhada, o olhar ardente, a mão trotando no papel, a fazer versos

profanos. — Tinham-no castigado, — estivesse descansado.

A verdade é que D. Sebastião saíra uma organização privilegiada de artista. A uma retina infalível no apanhar o lado belo das coisas juntava uma larga capacidade imaginativa, uma acuidade dilacerante do sentimento plástico e um poder veemente de expressão. Com o penujar da adolescência veio-lhe o impulso de verter nos companheiros as demasias da sua alma generosa e ávida.

Amou alguns dos colegiais que lhe orçavam pela idade. Foi

excessivo. Destas cenazinhas adoravelmente ridículas, que são triviais nos colégios, — trocas de solilóquios inflamados, cartas, exorações, amuos, rancores, ciúmes, pugilatos, ensaios precipitados de cópula no palmo quadrado das latrinas, — de tudo teve o futuro barão num grau exagerado e quente, a que a sua compleição débil e requintada vestia o máximo colorido. Quando o seu desejo se concentrava, inconfessado, tímido, ardente na pessoa de um colega a quem por qualquer circunstância ele não podia ou não resolvia declarar-se, então o desgraçado sofria insónias horrorosas, durante horas e horas intermináveis, de costas na cama, a narina aflante, a pálpebra leve, os olhos arregalados para o teto na escuridão cava da noite, os dentes rangendo rápido e o corpo todo vibrante no arrepio

de uma crise nervosa fatal, obsessiva.

Quase sempre uma evacuação seminal, provocada por ele próprio, ou, as mais das vezes involuntária, e determinada sem prazer, por uma irritação quase dolorosa, punha termo, no quebramento cortado de sobressaltos da madrugada, a este estado cru de excitação. Depois, pelo dia adiante, era o

Table of contents

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  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16
  17. 17Part 17
  18. 18Part 18
  19. 19Part 19
  20. 20Part 20
  21. 21Part 21
  22. 22Part 22
  23. 23Part 23
  24. 24Part 24
  25. 25Part 25
  26. 26Part 26
  27. 27Part 27
  28. 28Part 28
  29. 29Part 29
  30. 30Part 30
  31. 31Part 31
  32. 32Part 32
  33. 33Part 33
  34. 34Part 34
  35. 35Part 35
  36. 36Part 36
  37. 37Part 37
  38. 38Part 38

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